Doutor ouvido, escuta todos seus casos perdidos.

– Quando eu fiquei sabendo que ela iria morrer eu enlouqueci. Literalmente. Pirei, quebrei a casa toda. O pior de tudo foi o choro, eu não chorei. Fiquei raivoso. Gritava e qualquer coisa eu já estava sendo grosso. Foi terrível. Ela chorava o tempo todo escondido e quando nós chegávamos perto ela sorria e fingia que nada tinha acontecido. Doía tanto que eu achava que iria morrer com ela. Isso foi antes da quimioterapia, depois piorou. Piorou muito. Ainda está pior.
– O que aconteceu?
– Passou minha raiva e ficou só a dor. Foi aí que tive uma brilhante ideia, ou foi o que pensei né! Comprei uma câmera dessas profissionais e aprendi a mexer no básico. Comecei a tirar todos os tipos de foto dela. No banho, quando dormia, comia, cozinhava, sorria, chorava. Toda hora eu tirava uma foto. Queria eternizar. Coloquei tudo em uma caixa grande e tirava mais fotos. Ela não gostou, dizia que estava feia, tiveram que cortar o cabelo por causa da queda, então ela resolveu raspar a cabeça. Ficou linda. Sempre foi linda. As crianças choravam muito.
Ela era uma bomba terrível, sempre quando ela dormia até mais tarde eu checava se ela estava respirando. Eu sempre chamava ela quando ela dormia de mais. O médico me disse que a quimioterapia não estava tendo resultado. Desculpa eu…
– Tudo bem, pode chorar. Lidar com perdas é muito triste.
– Ele disse que já não tinha mais solução, que ela poderia ficar o último mês de vida em casa e só tomar os remédios pra dor. Eram tantos remédios. Ela chorava tanto. Parei com as fotos. As crianças estavam ruim na escola e tivemos que contratar uma moça pra cuidar da casa e tudo mais, ela começou a morar lá. 
Resolvemos viajar, mas ela estava muito frágil, não conseguia nem sair da cama. Os meninos montaram uma barraca no quarto, levaram pipocas e acampamos aos pés da cama dela. Foi muito divertido. Esquecemos por uma noite a doença dela. A morte…
– Respira.
– Ela morreu depois de duas semanas. Duas semanas! Eu estava do lado dela relembrando nosso namoro quando ela faleceu. Ela tava sorrindo quando a dor chegou, o médico disse que foi ataque do coração.
– Como você está lidando com as crianças?
– Mal, não sei o que fazer. Não consigo ocupar o lugar da mãe deles. Não consigo falar o que sinto. Só consigo ficar calado, ou gritando. Não sei o que fazer. A pequena, Catarina, está desolada. Não sei o que fazer. Não sei como falar com Murilo. Não sei como consolar Alice, ela se parece tanto, tanto com a mãe dela. Parou de se olhar no espelho. O que faço? O que?
– Mostre seu amor por eles.
– Meu amor morreu de câncer há nove meses.
– Mas deixou três crianças maravilhosas que estão sem mãe. E agora sem pai também. Ou você se torna o pai delas que as ama ou você as perde junto com si mesmo.
– Eu não sei o que fazer.
– Você não quer saber o que fazer.
– Não, eu não sei.
– Você sabe.
– Mas como?
– Isso você vai ter que aprender.

Ester Sousa.

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