Onda sempre tem, pequenas ou grandes.

-Desisto mesmo de cabelo grande!
– Ah, que dó Fê! Seu cabelo é tão bonito comprido!
– Ah, mas já deu! Queri curto, rebelde, cheio de onda! Cabelo volumão.
– Mas ele já não é assim?
– Ai,que chata! É É é! Mas quero curto! Jogado ao vento, batidinho na nuca, uma passada de mão já penteia. Você não acha sexy?
– Não muito, prefeito os longos!
– POIS EU NÃO!

Ester Sousa.

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Quero passar batom vermelho, mas já tá tudo sangrando.

Escuta só os gritos, cabelo bagunçado.
O que é isso? Chocolate pra todo lado.
– Curvas de mais!
Mais um ataque!
Se esconder, corre!
Salve-se quem puder!
TPM chegou.

Ester Sousa.

Um pouco dos meus livros, aceito doações!

Comprar livros novos é muito bom, mas comprar livros em sebo é melhor ainda!

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-Detalhe, esses são um pouco dos meus vários livros! (Preciso de uma estante com urgência!) Porém, esse livro que estou segurando é M A R A V I L H O S O! Me marcou muitíssimo! ❤

* O melhor de comprar livros usados são as histórias dentro deles! Já achei até uma carta escrita em 1976. Quantas histórias, quanto amor! ♥

Ester Sousa.

Batimentos irregulares sinônimo de consciência pesada.

Saber que sou um monstro não resolve.
Meu sorriso doce é de morte.
Saber que ter consciência é terrível.
Que lembranças ruins são só minhas.
Você bate, mas não lembra do tapa.
Você riu, mas não lembra da piada.
Chorou? Qual sua dor?
Saber que é mentira, não resolve.
A mesma pergunta de todos:
“O que faço aqui?”
Dormir, dormir.
Queria eu poder dormir.
Sonhar, sonhar.
Queria eu poder fugir.
Não quero sonhar.
Não quero acordar.
Saber que meu rosto é belo só me faz ter certeza, não sou eu.
Saber que a carne é podre só me faz querer fugir.
Só ar.
Só ar.
Respirar é viver.
O teto é um quadro a se pintar.
O escuro é um palco pronto pra atuar.
Quem sou eu?
Quem sou eu?
Não reconheço a voz, o corpo, o rosto, a pele, o cheiro, o cabelo.
Não reconheço a carne, a vida.
Só desespero.
Desespero.
Desespero.
Coração endurecido.
Cérebro parado.
Pensamentos perversos.
O sol chegou?
Chegou?
Sorrir, sorriso doce.
Doce, doce, doce.
Matou.
Morreu.
Saber que não sei, é pior.
Todos sabem, sou Et.

Ester Sousa.

Doutor ouvido, escuta todos seus casos perdidos.

– Quando eu fiquei sabendo que ela iria morrer eu enlouqueci. Literalmente. Pirei, quebrei a casa toda. O pior de tudo foi o choro, eu não chorei. Fiquei raivoso. Gritava e qualquer coisa eu já estava sendo grosso. Foi terrível. Ela chorava o tempo todo escondido e quando nós chegávamos perto ela sorria e fingia que nada tinha acontecido. Doía tanto que eu achava que iria morrer com ela. Isso foi antes da quimioterapia, depois piorou. Piorou muito. Ainda está pior.
– O que aconteceu?
– Passou minha raiva e ficou só a dor. Foi aí que tive uma brilhante ideia, ou foi o que pensei né! Comprei uma câmera dessas profissionais e aprendi a mexer no básico. Comecei a tirar todos os tipos de foto dela. No banho, quando dormia, comia, cozinhava, sorria, chorava. Toda hora eu tirava uma foto. Queria eternizar. Coloquei tudo em uma caixa grande e tirava mais fotos. Ela não gostou, dizia que estava feia, tiveram que cortar o cabelo por causa da queda, então ela resolveu raspar a cabeça. Ficou linda. Sempre foi linda. As crianças choravam muito.
Ela era uma bomba terrível, sempre quando ela dormia até mais tarde eu checava se ela estava respirando. Eu sempre chamava ela quando ela dormia de mais. O médico me disse que a quimioterapia não estava tendo resultado. Desculpa eu…
– Tudo bem, pode chorar. Lidar com perdas é muito triste.
– Ele disse que já não tinha mais solução, que ela poderia ficar o último mês de vida em casa e só tomar os remédios pra dor. Eram tantos remédios. Ela chorava tanto. Parei com as fotos. As crianças estavam ruim na escola e tivemos que contratar uma moça pra cuidar da casa e tudo mais, ela começou a morar lá. 
Resolvemos viajar, mas ela estava muito frágil, não conseguia nem sair da cama. Os meninos montaram uma barraca no quarto, levaram pipocas e acampamos aos pés da cama dela. Foi muito divertido. Esquecemos por uma noite a doença dela. A morte…
– Respira.
– Ela morreu depois de duas semanas. Duas semanas! Eu estava do lado dela relembrando nosso namoro quando ela faleceu. Ela tava sorrindo quando a dor chegou, o médico disse que foi ataque do coração.
– Como você está lidando com as crianças?
– Mal, não sei o que fazer. Não consigo ocupar o lugar da mãe deles. Não consigo falar o que sinto. Só consigo ficar calado, ou gritando. Não sei o que fazer. A pequena, Catarina, está desolada. Não sei o que fazer. Não sei como falar com Murilo. Não sei como consolar Alice, ela se parece tanto, tanto com a mãe dela. Parou de se olhar no espelho. O que faço? O que?
– Mostre seu amor por eles.
– Meu amor morreu de câncer há nove meses.
– Mas deixou três crianças maravilhosas que estão sem mãe. E agora sem pai também. Ou você se torna o pai delas que as ama ou você as perde junto com si mesmo.
– Eu não sei o que fazer.
– Você não quer saber o que fazer.
– Não, eu não sei.
– Você sabe.
– Mas como?
– Isso você vai ter que aprender.

Ester Sousa.

Senhor psicólogo, quanto você me paga pra te escutar?

– Por que está aqui hoje?
– Confesso que não sei, ou sei e me nego. Na verdade foi uma amiga que insistiu.
– Qual o motivo da sua amiga ter insistido?
– Desculpe o ataque de gargalhadas, mas é que você fazendo todas essas perguntas é muito engraçado. Me sinto no CSI, muito legal. Desculpa!
– Você tem que se sentir confortável. Estou tentando te ajudar com as perguntas, mas se você quer ajuda mesmo precisa me dizer. Me dizer tudo o que pensa, o que sente, o que houve. Sou sua consciência agora. Você fala e eu escuto.
– Desculpe novamente, é que… Bom! Sabe quando você é criança e quer muito ir ao circo? E quando vai você fica maravilhado com tudo aquilo? Com todo o espetáculo. Não quer ir mais embora, se pudesse ir com o circo você iria… Bom, é isso, acho que foi assim.
Mas o circo foi embora e eu fiquei e pra piorar com vício em cigarro!
– quer falar sobre o “circo”?
– O “circo” era sensacional. Fazia umas tiradas legais, ria na maior altura. Vegetariana, final se semana gostava de sair pra dançar. Parecia uma atriz de filme antigo, toda vez que ia ler um livro bebia uma taça de vinho. Apaixonei, loucamente. Nunca antes havia me sentido assim. Nunca antes fiquei parado olhando uma mulher dançar toda alegre e sorridente e me senti completo. Nunca. Nunca. Nunca. Nunca. Nunca. Nunca! Eu amava ver o espetáculo. Mas um dia o circo se foi. Quando entramos num circo nós sabemos que ele vai. Eu sabia. Todos sabiam. Mas eu não queria saber, nem ver. A voz dela, o sotaque. O sorriso. Cara, nem tortura chinesa é pior que coração partido! Isso mata a nossa alma. Ao menos perdi sete quilos. Sério! Não faz essa cara!
– Quanto tempo ela se foi?
– Dois anos. Dois terríveis anos. Eu morri por dentro. Tô morto, não sinto nada. Empatia, compaixão, solidariedade, felicidades, alegria. Nada. Morto.
– Tem saído?
– Ou saio de casa ou fico o dia todo escutando música ruim e bebendo cerveja com cigarro. Até meu cachorro foi com ela. Sabe o que é isso? Não sabe. Você não sabe. Ninguém sabe. Ninguém via as cores ao redor dela. O jeito que o cabelo dela curto balançava. O jeito que quando ela sorria aparecia uma covinha. O jeito que ela dormia a noite toda sem se mexer. Ninguém sabe. Ninguém sente.
– Você vai ver que melhora.
– Não melhora.
– Melhora. Sabe por que? Ela está viva! Ela não morreu. Você sabe que ela ainda pode sorrir, dançar. Você sabe que ela está bem, só não te quer.
– Cara, você vai me ajudar ou não?
– Você sabe que quando ela acordar ela vai esta onde ela quer. Te garanto, é melhor sofrer com ela viva do que não puder fazer nada com ela morta.
– Desculpa, acho que estou me sentido péssimo. Mais do que eu já estava. Mas já que você vai desabafar eu vou ter que cobrar a hora! Tô brincando.
– Vai melhorar. Tudo melhora. Me conta como se conheceram!
-…  Ela estava dançando num piquenique público que teve em junho há dois anos atrás e eu estava com meu amigo e cachorro, foi quando a vi e meu cachorro também. Ele correu até ela, lembro até da roupa que ela estava usando…. 

(…)  Tudo passa… 

Ester Sousa.

As pessoas e os desenhos.

As pessoas têm uma ânsia de se ver bem, amor próprio. Sentir bem. Elevam sua própria auto estima nas alturas e sorri sempre com um elogio. Se olham no espelho e tiram fotos de si mesmo pra colocar de papel de parede. Não entendo, talvez, por eu ser um et que vive no meio de seres diferentes eu me perco. Não vejo a razão de colocar a foto como papel de parede ou de ser louco para que alguém o desenhe. Por favor, não me desenhe. Não quero, não gosto. Não me pede para te desenhar. Não quero, não gosto.
Essa ânsia, esse amor, essa vontade me é estranha. Não entendo. Tirar fotos sim, se cuidar sim, mas poxa, qual é a do desenho? Alma velha num corpo jovem. Queria mesmo uma pintura a óleo.

Ester Sousa.