Perda de memória proposital. O primeiro amor a gente esquece.

Todos nós sempre queremos esquecer algo ou alguém. O nosso corpo, inteligente, sente dor só por ver aquilo ou aquele, aquela. Uma dor que nunca seria possível sentir, mas sentimos.
Moro sozinha faz dois anos, depois que estava acabando a faculdade eu comecei a procurar emprego pra poder ser independente. Eu queria saber como era, eu não queria mais ter que ficar em casa morando com meus pais, sendo sanguessuga.
O conheci na faculdade, ele também procurava algo em que trabalhar, procuramos juntos, nos apaixonamos. Bem, ainda acredito que apenas eu me apaixonei. Não que ele não me quisesse apaixonada, o pior de tudo era que sim. Afinal, ninguém quer ficar sozinho. Não vou enrolar, há coisas que não precisam ser ditas para se entender. Não ficamos juntos, somos adultos resolvidos, ele foi pro lado dele e eu o meu, mas primeiro amor nunca se esquece e como uma boa tola eu vejo os olhos dele em toda parte, sinto o cheiro dele em todas as pessoas. O vejo às vezes com outras, finjo não me importar, só que dói que nem faça entrando na minha costela e atingindo o meu coração. Desesperei, até pra dormir precisava de ajuda, como uma doença cancerígena que vai roendo o meu corpo e me destruindo aos poucos, sem eu saber. Foi assim que resolvi perder a memória, a melhor solução para qualquer problema, quem não quer perder a memória? Deixei um recado para mim mesma com senhas, datas, locais, pessoas, alergias… Todo tipo de coisa que talvez eu fosse precisar, coloquei dentro da bolsa e fui.
Espero que dê certo, força!

– Joana? Como você se sente?
– Com a boca seca, tonta, com fome e um pouco estranha.
– Tudo bem, tudo normal. Você se lembra de mim?
– Sim, você é meu médico. Só não sei por que estou aqui.
– AH, você precisava de uma dose de vitamina. –  Ele sorriu e pediu pra eu retornar dali duas semanas, me receitou umas vitaminas e eu estava liberada.
Quando eu estava indo embora senti o ar mais fresco, o dia mais bonito. Eu estava melhor. Fazia quanto tempo que não me sentia assim? Onze meses.
Sentei no meu café preferido, aqui eles servem lanches e sucos, eu posso sentar e ler sem pressa.
– Cris?
– Desculpe, você se enganou. Não me chamo Cris! –  Sorri para o jovem simpático que estava na minha frente e voltei para meu suco e livro.
– Sim, claro, seu nome é Joana. – Meu Deus, será ele um perseguidor? Não sei quem é.
– Desculpe, pode ser um pouco rude da minha parte, mas quem é você? – Ele pareceu surpreso e riu de lado. Eu estava com uma sensação ruim, péssima. Vontade de vomitar. Juntei minhas coisas e levantei.
– Sou Gustavo, não brinca comigo Cris.
– Sinceramente, não sei quem é você. Preciso ir, tem uma pessoa me esperando.
– Não parecia tão atrasada.
– Não estava até agora. –  Peguei meu celular e coloquei nas últimas chamadas “Mãe”, apertei e escutei chamando.
– Preciso ir. –  Sai andando quando ele me puxou.
– Precisa de ajuda? Você não me parece bem. Ou está brincando ou não se lembra de mim.
– Não preciso! Ah, alô? Mãe? Nossa desculpe, você está me esperando tem tempo? Claro, já estou chegando!
– Joana? Tá tudo bem? Eu tô aqui na casa da sua avó.
– Ótimo, tô chegando!
– Mas é fora da cidade flor.
– Beijos, minha mala está pronta, fecha as janelas pra mim! –  Não desliguei o celular e continuei andando. Meu corpo todo latejava, eu precisava sair de perto dele. Quando fui me senti mais leve, melhor. Quem quer que ele seja eu não me importo. Me sinto bem, afinal de tudo. Sou uma mulher livre.
Liguei para minha mãe e pedi desculpas. Quando olhei o bilhete na minha bolsa comecei a entender um pouco das coisas, havia uma foto com o rosto daquele homem e só uma palavra grande e vermelha escrita “PERIGO”. Sorri, meu corpo é um bom amigo, mas minha consciência é melhor.

Ester Sousa.

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