Não se nega o sangue.

Às vezes olho meu rosto e tento lembrar de quando eu era jovem. Lembro que meu pai me ensinou como beber, e ele dizia “Nessa vida se temos que saber controlar algo é a bebida no nosso sangue, nunca se sabe perto de quem se estará bêbado!”. Claro, ele não dizia com essas palavras, meu pai era um homem de meias palavras, ele mostrava como fazer e pronto. Virou um hábito beber, no começo era pra controlar a bebida no corpo, depois foi porque eu gostava, virou rotina. Por um tempo eu bebi pra mostrar para os amigos que eu era boa bêbada, nessa época mulher não bebia. Conheci meu futuro marido, bebi para esquecer as nossas mágoas, bebia para não escutar o choro das crianças, bebia porque queria ter ficado solteira numa época que não existia divórcio, bebia porque não queria sentir dor. Bebi a vida inteira, bebi depois que meu marido morreu e comemoro até hoje, bebendo, claro.
Às vezes olho no espelho e passo um batom vermelho, meus lábios já não são como antes, já não sorriem. Já não beijam, já não falam, já não amam. Com o tempo tudo que eu tive dessa bebedeira toda além do fígado ruim e da perca do bom paladar, foi a experiência. Nunca fiquei bêbada, meu pai me ensinou bem e o resto que eu aprendi foi sozinha. Claro, não devo dizer para as pessoas que ele morreu bêbado, seria muito azar o meu anunciar o testamento.
Hoje bebo porque sou velha, sozinha, amarga, solitária. Talvez sempre bebi porque sou um ser fraco, fraco pra viver.
Todos ficam velhos, só não se sabe como.

Ester Sousa.

Anúncios

Um pensamento sobre “Não se nega o sangue.

Comente.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s