No mundo dos mortos tudo há sentido.

Os seus olhos eram sangue e se formaram em lágrimas, talvez eu não me lembre bem dessa ocasião. Toda lembrança se passa no presente, o presente é uma constante, o passado e o futuro.
Depois de um tempo lembrando eu me descobri revivendo aquele momento. Senti o aroma, senti o vento, senti o aperto, senti o calor. Escutei a música. Quando se passa um tempo morto nós nos esquecemos como era bom viver, sentimentos eram tudo o que tínhamos. Era o ar que respira. Era o vento que esfria. Era o som de nossas vozes voltando pra dentro de nós. O caixão que deitamos se torna nossa velha cama, não há onde ir. Não há onde desejar ir. Tudo tão quente, tão frio. Tão doce, tão sal. O mundo se torna aqui. A morte é vida. Os seus olhos tinham lágrimas, mas o que mais me abalou foram a cor. A cor do mar vermelho. A cor do céu na aurora. A poesia de sua voz entoava nos meus velhos ossos, meus dedos já não sentiam. Mas a carne era nova, cheia de vida, coberta de morte.
– Onde estou? –  a voz rouca novamente. Depois de um tempo sem vida nos esquecemos que existem palavras, os pensamentos são abstratos e recheado de imagens. Só som.
– Morta.
– Eu sei, mas onde estou?
– A morte é sua localização. Não vemos os vivos e nem os escutamos, o mundo se torna esse.
– Achei que eu iria voltar.
– Reencarnar? Não existe isso, ou os espíritos vão, ou eles ficam.
– Pra onde vão?
– Nunca fui.
– Não quero ficar como… Como você! –  Sou capaz de rir.
– Não vai se não quiser ou conseguir. O seu espírito permanece eternamente jovem se você quiser e tiver forças.
– Você não quis?
– Não tive forças. –  Os seus olhos eram duas bolas redondas puxadas pelos cantos.
– Não lembro como morri.
– Deus nos poupa dos detalhes.
– Mas relembrar é pior, dói a lembrança de não estar vivo.
– Não dói, é bonito.
– Você está quanto tempo assim?
– Não sei. Perdi as contas, não me interessa ficar contando.
– Não?
– Não. –  O silêncio é uma dádiva, se você parar e escutar ele diz muitas coisas. Uma vez cheguei a escutar meu coração.
O caixão é um lugar de dimensões, cada uma tem um nível. O caixão era imenso, havia uma árvore no meio dele, sempre me sentava ao pé dela e pensava que eu respirava graças a sua força e vitalidade. Não respiro.
– Há onde caminhar?
– Onde você quiser.
– Tenho saudade de caminhar nos campos de minha casa.
– Onde?
– Nós campos de arroz de meu pai.
– Vamos, me dê o braço.
– Uma vez fui picada por uma serpente, eu era bem pequena e única filha mulher de minha mãe, ela tinha grande afeto por mim, pois era sua única companhia. Meus três irmãos e meu pai cuidavam do campo e eu ficava em casa com ela cuidando dos serviços domésticos.
Ela chorou muito, queimou dinheiro funerário para minha avó e pediu saúde para mim.
– Você melhorou?
– Sim, mas sempre pensei que foi graças ao médico.
– Foi graças a ele. Nós mortos não atendemos pedidos dos vivos, não os escutamos e nem os vemos.
– Nunca?
Lembrei dos olhos de sangue.
– Nunca.
Continuamos andando pelos campos, havia muitas serpentes em nossos caminhos, acho que ela se sentia importante por ver aquilo que foi sua quase morte e seu grande medo durante sua vida não fazer nenhum efeito sobre nós.
Eu sabia que estava chegando o nosso tempo de voltar, mas não quis alarmar ela.
– Vamos.
– Onde?
– Para nosso caixão. –  Falar “Nosso caixão” me deixou apreensivo, quantos anos eu não dizia isso?
– Vamos. –  Continuamos andando enquanto a paisagem mudava, o céu estava escuro e o vento forte. O tempo parou enquanto andávamos.
Cheguei a minha cama, onde havia uma cova aberta. Havia apenas uma, sempre preferi dormi entre a terra úmida.
– Você dorme assim?
– Durmo, aqui que volto pra dentro de mim.
– Não quero dormir assim.
– Não dorme.
– Como irei dormir?
– Como você quiser, mas é melhor ir rápido, o tempo vai correr.
– Ela me olhou apreensiva e se dirigiu para uma cabana ao lado, entrou na pequena casa e fechou a porta. O vento soprou e escutei o vento correr, sempre no mesmo horário, todos os dias. O vento corre para o tempo dos vivos.

Ester Sousa.

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