Uma língua pra você e uma pra você. Merecemos.

– Não gosto dele.
– AH, da uma chance.
– Não, nossa, ele fala de mais! Aargh
– Você que é uma enjoada. Só vê defeito!
– Hum, esse bolo seu é uma delícia!
– Não muda de assunto. O cara é gato, educado, bondoso, tem um bom trabalho!
– Ai, mas ele é chato! Fala, fala, fala… E como sabe que ele é bondoso?
– Ele é de câncer, quem não é bondoso com esse signo?
Você que é muito calada. Fica aí com essa cara fechada olhando pra gente. Parece uma porta.
– Porta sua mãe. Você é uma louca, signo. Quem vê isso hoje em dia?
– Sério, deixa de frescura.
– Não consigo. Ele abre a boca e sai mil palavras numa frase. Eu imagino como ele deve ser nas audiências. Que cara chato.
– Chata é você. Velha e chata. Tá ficando rabugenta… Aquela ali é a Marcelinha com meu sapato de duzentos paus?? Oh Murilo, controla tua filha aqui!
– Ela também é sua. Você vai me deixar surda, sério. Vou ficar aqueles velhos surdos que gritam alto e quando a pessoa fala mais alto ele fecha a cara e diz que não tá surdo.
– Oi Murilo.
– O Julia.
– Então, já sei. Vou marcar um jantar aqui. Que tal? Eu faço uma janta bem caprichada e você da uma chance pra ele.
– Ok, me convenceu, só porque você vai fazer a janta.
– Ô mô, cê nunca faz janta quando eu peço.
– Mamãe, quero papá.
– Vai na frente amor.
– Eu tô indo, pode ficar tranquila aí Maria.
– Pode ser sexta?
– Melhor né.
– É.
– Você vai vê, o tamanho da língua dele. Vai falar, falar, falar, falar…
– Haha, às vezes tudo que uma mulher precisa na vida é de um homem linguarudo…
– Tô aqui ainda mô.
– Que bom, é pra você escutar mesmo.
-… 

Ester Sousa.

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Dormi com o ar ligado, acordei com um homem de gelo.

16 graus no quarto. Meu corpo está frio, treme. Assim, quem sabe, posso congelar o meu coração. Ser tão quente dói, esquenta, queima, incendeia… Minhas queimaduras de terceiro grau não saram. Estou cheia de cicatrizes, as mais profundas, borbulhentas, feias. Está frio aqui, tremi a noite toda. Acordei de manhã com um boneco de neve do meu lado, o beijei. Não é engraçado como o frio também queima? Talvez eu tenha vindo do inferno, estou destinada a queimar. Dante estava certo, o inferno é gelado. Mas quem vai negar que é também puro fogo? O boneco? Congelado. Borrado de beijos vermelhos.

Ester Sousa.

Perda de memória proposital. O primeiro amor a gente esquece.

Todos nós sempre queremos esquecer algo ou alguém. O nosso corpo, inteligente, sente dor só por ver aquilo ou aquele, aquela. Uma dor que nunca seria possível sentir, mas sentimos.
Moro sozinha faz dois anos, depois que estava acabando a faculdade eu comecei a procurar emprego pra poder ser independente. Eu queria saber como era, eu não queria mais ter que ficar em casa morando com meus pais, sendo sanguessuga.
O conheci na faculdade, ele também procurava algo em que trabalhar, procuramos juntos, nos apaixonamos. Bem, ainda acredito que apenas eu me apaixonei. Não que ele não me quisesse apaixonada, o pior de tudo era que sim. Afinal, ninguém quer ficar sozinho. Não vou enrolar, há coisas que não precisam ser ditas para se entender. Não ficamos juntos, somos adultos resolvidos, ele foi pro lado dele e eu o meu, mas primeiro amor nunca se esquece e como uma boa tola eu vejo os olhos dele em toda parte, sinto o cheiro dele em todas as pessoas. O vejo às vezes com outras, finjo não me importar, só que dói que nem faça entrando na minha costela e atingindo o meu coração. Desesperei, até pra dormir precisava de ajuda, como uma doença cancerígena que vai roendo o meu corpo e me destruindo aos poucos, sem eu saber. Foi assim que resolvi perder a memória, a melhor solução para qualquer problema, quem não quer perder a memória? Deixei um recado para mim mesma com senhas, datas, locais, pessoas, alergias… Todo tipo de coisa que talvez eu fosse precisar, coloquei dentro da bolsa e fui.
Espero que dê certo, força!

– Joana? Como você se sente?
– Com a boca seca, tonta, com fome e um pouco estranha.
– Tudo bem, tudo normal. Você se lembra de mim?
– Sim, você é meu médico. Só não sei por que estou aqui.
– AH, você precisava de uma dose de vitamina. –  Ele sorriu e pediu pra eu retornar dali duas semanas, me receitou umas vitaminas e eu estava liberada.
Quando eu estava indo embora senti o ar mais fresco, o dia mais bonito. Eu estava melhor. Fazia quanto tempo que não me sentia assim? Onze meses.
Sentei no meu café preferido, aqui eles servem lanches e sucos, eu posso sentar e ler sem pressa.
– Cris?
– Desculpe, você se enganou. Não me chamo Cris! –  Sorri para o jovem simpático que estava na minha frente e voltei para meu suco e livro.
– Sim, claro, seu nome é Joana. – Meu Deus, será ele um perseguidor? Não sei quem é.
– Desculpe, pode ser um pouco rude da minha parte, mas quem é você? – Ele pareceu surpreso e riu de lado. Eu estava com uma sensação ruim, péssima. Vontade de vomitar. Juntei minhas coisas e levantei.
– Sou Gustavo, não brinca comigo Cris.
– Sinceramente, não sei quem é você. Preciso ir, tem uma pessoa me esperando.
– Não parecia tão atrasada.
– Não estava até agora. –  Peguei meu celular e coloquei nas últimas chamadas “Mãe”, apertei e escutei chamando.
– Preciso ir. –  Sai andando quando ele me puxou.
– Precisa de ajuda? Você não me parece bem. Ou está brincando ou não se lembra de mim.
– Não preciso! Ah, alô? Mãe? Nossa desculpe, você está me esperando tem tempo? Claro, já estou chegando!
– Joana? Tá tudo bem? Eu tô aqui na casa da sua avó.
– Ótimo, tô chegando!
– Mas é fora da cidade flor.
– Beijos, minha mala está pronta, fecha as janelas pra mim! –  Não desliguei o celular e continuei andando. Meu corpo todo latejava, eu precisava sair de perto dele. Quando fui me senti mais leve, melhor. Quem quer que ele seja eu não me importo. Me sinto bem, afinal de tudo. Sou uma mulher livre.
Liguei para minha mãe e pedi desculpas. Quando olhei o bilhete na minha bolsa comecei a entender um pouco das coisas, havia uma foto com o rosto daquele homem e só uma palavra grande e vermelha escrita “PERIGO”. Sorri, meu corpo é um bom amigo, mas minha consciência é melhor.

Ester Sousa.

Não gosto de natal.

Talvez, por eu ter crescido em uma família de protestantes e o praticar, eu nunca tenha gostado de natal. Acho hipócrita, uma data em que as pessoas querem lembrar do Salvador em um único dia. Redimir seus pecados, mostrar o amor que está em seus corações. Não deviam, nós todos, mostrar o amor no ano todo?
O Natal é puro consumismo, um dia de lucro. As pessoas tentam praticar em um único dia o que deveriam praticar todos os dias. Não há mágica no natal, só mentiras.
Jesus que nos mostrou o amor e como ele deve ser repassado, e como ele deve dar frutos, hoje, ontem, todos os dias. Mas agora virou tudo papai noel. Dá-lhes coca!

Ester Sousa.

O mar que vive no meu teto.

No teto do meu quarto há umas escamas, elas se balançam e se mexem e eu sinto o cheiro do mar.
A calda que se forma é longa e forte, como um músculo bem malhado que não se cansa de exercitar. Teu cheiro me inebria, me embebeda, quase uma memória distante. Um pensamento passa por mim, mas ele não é meu. Como seria meu? Como eu saberia que sim?
Tenho vontade de cantar para o mundo todo uma música que não é minha. Gritar, gritar.
Nade, Nade, Nade.
Tão fácil sentir os que os outros sentiu. Mentira.
Sua barbatana é poderosa, verde, azul, dourada, prata, marrom, amarelo, laranja, lilás, rosa. Quantas cortes cabem num prisma só?
Estou olhando o teto do meu quarto e o mar caiu em mim, sinto seu gosto quente e salgado, sinto molhando o meu rosto. Engraçado como esse mar tem o mesmo gosto das minhas lágrimas.
– Escuta, ainda vou aí te buscar –  A calda, barbatana se mexeu e foi embora. Mas o mar ainda cai em mim.

Ester Sousa.

Perguntas sem sentido.

Às vezes no silêncio da noite eu me pergunto: Como as pessoas descobriram que frutas, verduras e ervas eram de comer?
Imagino que seja mais ou menos assim:
– Você perdeu no jogo dos gravetos, come! –  Dez minutos depois.. 
– Ele não morreu, vamos todos comer!

Ester Sousa.

Segredo mesmo estão nos olhos que ninguém lê.

Nunca conhecemos de verdade as pessoas. Sempre tem um segredo que a pessoa guarda, poucos conhecem, alguns nem fazem ideia. Igual Marco, andava por aí com a calça rasgada, o sapato surrado, cabelo bagunçado, piercing no nariz, blusa xadrez um pouco aberta mostrando o peito. Qual é a desse adolescente andando por aí com a esse rosto monótono, esses olhos caídos, sem nunca sorrir? Ele estava com a mochila e pegou o metrô, entrou dentro de um grande prédio, subiu pelo elevador.
Entrou em uma sala com várias pessoas, cada uma de um jeito diferente. Marco pegou a mochila, tirou o estojo, montou a flauta e começou a tocar. O segredo do Marco vem da alma, quem imaginária que esse moleque, com pinta de rebelde era músico na orquestra sinfônica? Quem vê cara, não vê coração.

Ester Sousa.

Olhos de luz – Parte I

– Por favor, permaneça quieta e não fale nada! –  Seus olhos devem estar refletindo alguma luz, como alguém pode ter olhos tão brancos?
– Quem é você?
– Querida, qual parte de “Fique quieta e não fale nada!” você não entendeu? –  Nós estamos sussurrando e eu não faço ideia do lugar que é este.
– Desculpe –  Sussurrei, está no meu sangue ser educada. Talvez eu ter ficado de castigo um ano inteiro quando era criança tenha influenciado nisso. Está escuro e não vejo quase nada, a não ser o brilho dos olhos dela. O lugar tem um cheiro estranho, como se fosse errado. Há uma goteira a nossa esquerda. Passos vindo pela direita. Como seu disso? Dez anos na marinha até que me pegaram com a Sargento Luiza, não se dão bem com casos amorosos da mesma espécie.
– Vamos – A mão dela está úmida, ela me segurou com força e me puxou, fui de encontro ao corpo quente dela e me misturei. ME MISTUREI? COMO ASSIM?
– Cadê meu corpo?
– Cala a droga da boca! –  Ela, ou melhor, nós duas saímos correndo em direção a uma grande porta de ferro, ela estava se fechando e nosso corpo misturado passou por baixo dela.
Chegamos do lado de fora e continuamos correndo, não houve disparos, nem gritos. Apenas um vento forte e nosso corpo pesado.
Ela subiu em uma moto grande com nossos corpos ainda mesclados, eu via pelos meus olhos, mas era diferente, mais nítido, mais quente. Meu corpo pulsava.
– Achei que já estivesse acostumada com coisas assim, se eu soubesse que não estaria nem teria tido o trabalho de vir buscar você. –  A voz era nossa, misturada.
– Eu precisava ser salva?
– Pensei que soubesse.
– Desculpe, só me lembro de dormir.
– Ah, então eles foram espertos. Não cometeram o mesmo erro duas vezes.
Entramos numa garagem e ela se fechou. Estava novamente escuro, mas as luzes foram se acendendo para nós receber.
– A missão foi um sucesso Luiza.
– Vejo que sim Cecília –  Luiza? Espera, Luiza?
– Ei, Luiza? A mesma Luiza que era sargento da Marinha?
– Prazer Sol, vejo que me reconheceu.
– Mas você estava morta?
– Acho que não mais. –  Nós havíamos nos separado e eu não percebi, tudo o que via era minha felicidade e raiva, talvez frustração.
– Mas você está diferente, não é a mesma. Os olhos estão brancos e o cabelo longo. O que houve?
– Infelizmente não conseguiram recuperar o meu antigo corpo, então fizeram esse com certas melhorias.
– Prefiro cabelo curto.
– Eu também. –  Ela pegou numa mexa do meu cabelo é sorriu, ele estava longo, não me lembrava de o deixar longo.
– Temos muito que conversar. –  Ela ainda sorria quando me puxou para si.
– Sim, temos. –  Ela continuou sorrindo enquanto me beijava. A sala floresceu e esquentou, mas eu não percebi que estava saindo de nós, meus olhos estavam fechados.

Ester Sousa.

Três Aves Maria, dois Pai Nosso e cinco Terço.

– Eu queria poder confessar os meus pecados. Mas não confio no padre, não confio em ninguém.
– Confessa pra sua mãe.
– Pobre mulher, ela entraria em desespero e contaria para o meu pai, seria pior.
– Quer contar pra mim?
– Nem para o espelho.
– Você pecou muito?
– Você não tem noção.
– Você nem deve saber o que é pecado.
– Farei de suas palavras um conforto, assim, quem sabe, se é como você pensa as outras pessoas pensam o mesmo.
– Você é muito má?
– Claro que não, só sou uma pecadora frequente.
– “Ame o pecador e não o pecado. ”
– Algo assim. Tem cigarro?
– Só do barato.
– Serve. Isso, tá bom, obrigada.
– Tem muito tempo que fuma?
– Esse foi meu primeiro vício, tinha quatorze anos.
– Olha só, uma confissão.
– Parece né?
– Já foi para outras drogas?
– Olha pra mim, não perco tempo com coisas que não dão futuro.
– Nada?
– Só maconha, e de vez  em quando. Fumava numa época em que trabalhei com pintura.
– Sério? Olha, é melhor eu ir embora.
– Por que?
– Você não está segura perto de mim. Meu rosto lindo e inocente está fazendo você se confessar, e acredite, eu já tenho meus próprios pecados.
– Até mais, um dia você vai descobrir o que é pecado, até lá se conforme em saber que além de fumar eu também curto bebidas fortes.
– Ah, sério?
– Sério, amo chá!
– Um dia faço pra você minha especialidade.
– Não sendo doce.
– Não vai ser, você vai gostar. . .   . . . . . -Tchau.
– Beijos bonequinha!
-…
-…
-…
– Bonecas são ocas por dentro, será que cabem todos meus segredos?

Ester Sousa.

Minhas dividas foram pagas pelo câncer que te matou.

Se fosse pra você me recompensar pelas horas que perdi pensando em você, você faria um empréstimo.
Se fosse pra você me recompensar pelas lágrimas que deixei cair por causa de suas palavras duras que sempre me dizia, você venderia seu rim pra me pagar.
Se fosse pra você né recompensar pelas doces palavras que eu te dizia quando você chegava estressado do serviço, você me amaria.
Se fosse pra você me recompensar pelos carinhos que te fiz, pela paciência que tive, pelas horas que perdi, pela esperança que criei, pelo amor que te dei, pela preocupação que tive com você, pelos sonhos carregados de você, pelos gelo que você me deu, pelas traições que eu passei, pelos perdões que te proporcionei, pela cama que te aquecia,  pelos beijos que te mandei, pela parte da minha vida que te dediquei, e mesmo assim se você não tivesse nascido você não me pagaria.
Agora que você morreu eu penso que mesmo assim esse velho coração de tão tolo que é, de tão bobo que foi, de tanto que te amo, nunca vai te esquecer.

Ester Sousa.