Tão bela é você é tão perto vive de mim?

O tecido se grudava a roupa como uma segunda pele, tão junto estava o tecido que o seu farfalhar parecia um suspiro de dama apaixonada.
O cabelo escuro parecia ter vida, se mexia como uma longa capa lisa, sem nenhuma ruga, sem nenhum rasgo. Passava pelo corpo coberto de seda e resplandecia. Não usava jóias em todo o corpo como se era costume entre as noivas, ela leva no pescoço longo um colar de pedras azuis, safiras misturadas com diamantes pequeninos, mas nem tais jóias brilhavam mais do que aqueles olhos negros, que não careciam de outra cor que as mulheres invejavam, tal como o verde ou até mesmo o azul. Os olhos dela eram um abismo.
Oh, os lábios trêmulos lábios. Pareciam sofrer por todo o corpo naquele tremor suave, tão rosado os lábios que pareciam ser vermelhos. Se eu os beijasse poderia jurar que eram feitos de amoras colhidas pela própria percefone.
Deu-me vontade de perguntar “Tens o hábito de invejar as deusas?”  mas seria muito presunçoso de minha parte dizer tal coisa em voz alta diante de tamanha multidão. As virgens escutam, as ninfas percebem, e o que dizer contra as acusações de Íris diante de tamanha blasfêmia. Mas juro, não é.
O corpo volumoso parecia pecado, me dava receio de perceber as curvas generosas , por quê criar um corpo com tanta beleza se ele pertence a um homem só? Meu coração doeu. Minha costela pareceu fraquejar diante dos rápidos batimentos de meu pobre coração.
– És tão bela –  murmurei. Ela ouviu. Olhou com aqueles enormes olhos brilhantes, me levou para o abismo, não sorriu. Que cruel é você mulher. Mas nada a deteve, continuou olhando para o nada e quando mexia a seda branca mexia em seu corpo majestoso.
Nunca quis tanto amar uma mulher, por mais que eu não conhecesse o amor, achava que aquela luxúria era parte do que se sentiam diante de tal sentimento.
As pessoas mantinham distância dela, a noiva sozinha, sem noivo. O dia escurecia aos poucos e o sol se juntava ao seu corpo transformando a seda branca em amarelo, laranja, lilás, vermelho, azul. Tantas cores. Sua face pálida adquiriu um rosado suave.
Fiquei a olhar enquanto a bela mulher mudou sua expressão, não a fria e distante, mas a amistosa. Sorria para todos, era condescendente.
No momento em que ela virou para nós, seres pequenos e sorriu, levantou os braços e subiu.
– Não! –  Os longos cabelos negros e resplandecente formaram um véu negro que nos cobriu a todos. Seu corpo antes colorido novamente se tornou branco, o seu brilho delgado nos cegou, até que o seu brilho se tornou confortante.
– Onde ela foi? –  Uma mulher me olhou, como se eu fosse tolo.
– Não vê onde foi a lua? –  Eu olhei para o alto e já não via seu rosto, apenas a cor do seu vestido de seda e seu longo manto negro.
Antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa eu caí. O lugar era escuro e nada eu podia ver, dormi talvez sonhando.
Mas ao acordar, ao me vestir para trabalhar. Ao sair nas ruas. Ao sentar no assento da padaria. Ao morder meu sanduíche. Eu a vi. Ela passou por mim, sorriu de forma recatada e continuou andando. Terminei de comer e fui embora. Não é estranha essa vida? Todo dia vejo a lua, mas ela nunca me vê.

Ester Sousa.

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