O mundo é uma constante.

Caiu uma folha da árvore aqui.
Alguém morreu no Japão.
A vizinha tá apanhando do marido.
O Marcelo roubou pão na casa do João.
Choveu, até que enfim.

Ester Sousa.

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Porque a bruxa ficou má?

Ah, que ódio me dá quando a boa pessoa se safa sem nada sofrer.
Só porque sou má.
Nasci má, com a maldade a me amamentar.
AH, que ódio me dá, quando a menina boazinha se vê ligada com seu amor que não amava até saber que a iria perder.
Que ódio me dá.
Que ódio me dá o amor de boca a boca.
Que ódio eu sou.
Ninguém nunca olhou pelos olhos da bruxa má e tentou descobrir o que a dor a fez sentir.
Que ódio lhe dá.
Que ódio nos mantém.
O amor.
O amor.
O amor.
O amor acabou.
O ódio é tudo o que sobrou.

Ester Sousa.

Tão bela é você é tão perto vive de mim?

O tecido se grudava a roupa como uma segunda pele, tão junto estava o tecido que o seu farfalhar parecia um suspiro de dama apaixonada.
O cabelo escuro parecia ter vida, se mexia como uma longa capa lisa, sem nenhuma ruga, sem nenhum rasgo. Passava pelo corpo coberto de seda e resplandecia. Não usava jóias em todo o corpo como se era costume entre as noivas, ela leva no pescoço longo um colar de pedras azuis, safiras misturadas com diamantes pequeninos, mas nem tais jóias brilhavam mais do que aqueles olhos negros, que não careciam de outra cor que as mulheres invejavam, tal como o verde ou até mesmo o azul. Os olhos dela eram um abismo.
Oh, os lábios trêmulos lábios. Pareciam sofrer por todo o corpo naquele tremor suave, tão rosado os lábios que pareciam ser vermelhos. Se eu os beijasse poderia jurar que eram feitos de amoras colhidas pela própria percefone.
Deu-me vontade de perguntar “Tens o hábito de invejar as deusas?”  mas seria muito presunçoso de minha parte dizer tal coisa em voz alta diante de tamanha multidão. As virgens escutam, as ninfas percebem, e o que dizer contra as acusações de Íris diante de tamanha blasfêmia. Mas juro, não é.
O corpo volumoso parecia pecado, me dava receio de perceber as curvas generosas , por quê criar um corpo com tanta beleza se ele pertence a um homem só? Meu coração doeu. Minha costela pareceu fraquejar diante dos rápidos batimentos de meu pobre coração.
– És tão bela –  murmurei. Ela ouviu. Olhou com aqueles enormes olhos brilhantes, me levou para o abismo, não sorriu. Que cruel é você mulher. Mas nada a deteve, continuou olhando para o nada e quando mexia a seda branca mexia em seu corpo majestoso.
Nunca quis tanto amar uma mulher, por mais que eu não conhecesse o amor, achava que aquela luxúria era parte do que se sentiam diante de tal sentimento.
As pessoas mantinham distância dela, a noiva sozinha, sem noivo. O dia escurecia aos poucos e o sol se juntava ao seu corpo transformando a seda branca em amarelo, laranja, lilás, vermelho, azul. Tantas cores. Sua face pálida adquiriu um rosado suave.
Fiquei a olhar enquanto a bela mulher mudou sua expressão, não a fria e distante, mas a amistosa. Sorria para todos, era condescendente.
No momento em que ela virou para nós, seres pequenos e sorriu, levantou os braços e subiu.
– Não! –  Os longos cabelos negros e resplandecente formaram um véu negro que nos cobriu a todos. Seu corpo antes colorido novamente se tornou branco, o seu brilho delgado nos cegou, até que o seu brilho se tornou confortante.
– Onde ela foi? –  Uma mulher me olhou, como se eu fosse tolo.
– Não vê onde foi a lua? –  Eu olhei para o alto e já não via seu rosto, apenas a cor do seu vestido de seda e seu longo manto negro.
Antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa eu caí. O lugar era escuro e nada eu podia ver, dormi talvez sonhando.
Mas ao acordar, ao me vestir para trabalhar. Ao sair nas ruas. Ao sentar no assento da padaria. Ao morder meu sanduíche. Eu a vi. Ela passou por mim, sorriu de forma recatada e continuou andando. Terminei de comer e fui embora. Não é estranha essa vida? Todo dia vejo a lua, mas ela nunca me vê.

Ester Sousa.

Nuvem branca, chuva branda.

Não senti necessidade de falar com você.
Às vezes tudo que eu sorrio é só sorrisos.
Minhas palavras vem do parto normal.
Chega de césares.
Chega de oras e horas.
Não senti necessidade de tomar café.
O cigarro esqueci.
Tudo que lembrei no final
Foi da linha do trem de ferro.
Nela eu não deitei.
Nela eu subi.
Maria fumaça é minha companheira.
Nada mais que eu tenho o que eu preciso.
O que eu quero.
Enfim, choveu.

Ester Sousa.

A vida é um ciclo nosso.

Corri tantos anos em busca de sonhos de outras pessoas.
“Faça isso, faça aquilo”
Mas nunca fiz nada que quis.

Depois de tantos caracóis nos meus cabelos.
Eles por fim se alisaram.
Perdi as ondas e os manejos.
As voltas que dava em minhas ondas negras.

Durante tanto tempo vendo através dos meus óculos escuros.
Troquei para os de grau.
Minha vida em HD.

Como pode as placas nos indicar os caminhos que devemos seguir.
Somos todos aventureiros.
Minha direção sem sinalização.

Enfim, quando adulta discuti.
Quando já pude resolver.
Quando tudo que eu vivi.
Eu disse.
“Hoje viverei”
Mas e o amanhã?
Eu morri.

Ester Sousa.