DNA falho.

Quem sou eu andando na rua
Com a celulite marcando
Num mundo onde se existe segundas
Quem sou escutando música
Andando no mundo sem ninguém vê minhas estrias marcadas no corpo.
Quem sou eu e você dentro desse globo terrestre que fingimos não ser quem verdadeiramente somos.
Todos iguais, a biologia não mente.

Ester Sousa.

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Lionel também comunica.

Lionel sempre dormia às vinte horas, depois de aguar as plantas, alimentar os gatos, tomar um banho, guardar as coisas esparramadas (não que tenha, Lionel é muito organizado), organizar as fotos da mãe morta, fechar as janelas, trancar as portas, desligar a TV, programar o rádio, regular o despertador, e então, por fim, colocar as meias, o pijama, o copo de água ao lado da cama, então sim, deitar. Mas ainda não dormir. Lionel, muitos não sabem, mas fala com almas penadas, todo dias às nove horas elas chegam de mansinho e conversa com Lionel.
– Liooooooneeeeeeel
– Diz alma penada! –  Lionel é surdo de um ouvido, então sempre grita mais alto.
– Eu não vejo a luz Lioooooooneeeel!
– Vai pra luz alma penada, vai embora.
Lionel, poucos sabem, mas é um benfeitor.
– Eu não vejo a luz Lioooooooneeeel.
Então Lionel sempre dorme com a luz acesa. Mas a vizinha, Dona Berenice não sabe do dom de Lionel, e sempre às vinte e duas horas e trinta minutos bate na porta dele e grita a todos que quer ouvir, afinal, Dona Berenice não cuida muito da própria vida e por isso tem tantos gatos.
– Cale a boca velho doido, vai dormir! Alma penada vai ser você quando eu arrancar os seus rins.
Lionel também tem outro passatempo, Lionel gosta de rock e sempre escuta pra acalmar as almas penadas.

Ester Sousa.

De certa forma o mundo é belo quando nós o fazemos ser.

De certa forma o mundo é belo.
Quando se está no meio da vegetação e os olhos nada mais vêem do que o verde vasto, o amarelo desgastado e o azul do céu.

De certa forma o mundo é belo.
Quando se pega um bebê no colo e o embala em seu sono inocente.
E olha seus lábios pequenos se abrindo para um bocejo.
Tão bom, tão puro.

De certa forma o mundo é belo.
Quando nada se escuta, nada se enxerga, nada se sente além de nós mesmos.

De certa forma o mundo é belo.
Quando nosso corpo é o templo.
Quando nossa fé é esperança.
Quando nossa religião é o amor.

De certa forma o mundo é belo.
Quando você me sorri, e eu sorri para ele.
Quando ele sorri para ela, quando ela sorri para ele.

De certa forma o mundo é belo.
Quando não há egoísmo.
Quando hipocrisia é só mais uma palavra sem significado.
Quando maldade não é um ato.
Quando verdade é o que nos governa.

De certa forma o mundo é belo.
Quando você faz um bom dia.
Quando não se deseja só bom dia.
Quando amar é um ato normal.
Quando nós não fazemos o mal.

De certa forma o mundo é belo.
Em meus versos ilusórios.
Em minha mente sonhadora.
Em meu coração sentimental.
Em seus olhos que lê.
Em seus ouvidos que escuta.
Quando você quer.

De certa forma o mundo sempre será belo.
Quando o humano descobrir que racional não é sinônimo de mal.
Quando descobrir que a natureza faz parte de nós.
Os animais são moradores do mundo como nós.
E aqui todos somos hospedeiros.

Ester Sousa.

O tremor que engana com paixão.

Meu corpo está tremendo. Tudo em mim treme. Eu não acreditava na profunda de sua alma. Nas trevas que habitavam seu coração. Fui enganada pelo seu amor. Fui enganada pelos seus olhos infantis. Mas nunca me alma se enganou. Nunca me enganei. E meu corpo treme por isso. Pelo horror disso.
– Senti saudades –  Por mais que sua alma seja trevas, por mais que seu coração seja cruel, eu não o temo. Não o temo.
Não disse nada para suas palavras, eu não quero ser a única pessoa a quem ele ame. Não quero ser o mártir da sociedade.
– Eu estou aqui com você –  Ele ignora meu silêncio e o reverte para dentro de si como forma de meu amor.
Não devo acreditar em suas palavras, mas ele me beija com seus lábios frios. Me encosta com sua língua cruel.
– Tenho que ir. –  Mas não quero. Meu corpo para de tremer com medo do que me alma vá fazer, ele o quer, ele o deseja. Busca suas palavras com fome, busca seu amor cruel como a própria salvação. Será que é assim a beleza do mundo? Vim o abraçar com meu próprio corpo para o desapropriar e ir para o além. O quero com a alma. Quero o seu coração. Às vezes me engano com minha bondade que me assola, porque o que eu quero é o seu coração. Quero que ele bata por mim, pare por mim. Só pense em mim. Mas não é isso.
Chega.
Chega.
– Não vá, fique comigo, ilumine minha noite. Você é minha luz. –  Seus olhos estão cheio de lágrimas não derramadas, seus lábios pequenos estão em forma de beijos não dados.
– Como posso ficar com você se você é só mal?
– Você ama meu mal. –  Eu amo. Não digo, mas ele vê em minha alma. Minha bondade é egocêntrica e eu só a quero pra mim. Eu sou trevas, eu sou mal. Talvez mais que ele, porque o quero pra mim. Quero que seu coração pare por mim, em minhas mãos.
– Eu fico –  Ele sorri com seu rosto juvenil. Ah, mundo, mundo, mundo. Por que somos todos cruéis?

Ester Sousa.