O quadro e Ela.

Comecei com a pintura eu ainda não havia dado os primeiros passos. Uma coisa humana, pré histórica. Melhorei as formas, o toque, a sensibilidade. Colocava um pedaço de mim na tela toda vez que pintava algo.  Mas os humanos são exigentes,  não se vive só de pintura. Demora, tem que ter paciência, sensibilidade, amor. Tempo. Preciso de comer. Preciso de dormir. Preciso de vestir. Esses motivos humanos me fizeram fotografar. Não com tanto sentimento, não com tanta sensibilidade. Fui esquecendo os pincéis, meus dedos foram perdendo as cores, minhas telas foram guardadas. Não sempre.
Ainda lembro da dor daquele olhar, ela olhava para um lugar só dela, mas me fazia ver.
– Faz tempo que você não pinta?
– Faz.
– Quero ser pintada. A óleo. 
– Tudo bem.
– Quanto é?
– Não sei. Você tem dinheiro?
– Muito.
– Então quando terminar eu te falo.
Eu poderia ter pintado ela em duas semanas. Mas durou dois meses. Ela ia todos os dias, tirava a roupa e olhava para o nada. Envolta num lençol de seda ela sempre tinha a mesma expressão. Sempre tinha o mesmo bater de cílios. Cada pincelada era um pouco mais de mim, o dobro dela. Cada pausa era um silêncio, um nada preenchido com tudo.
– Não tenho mais tempo pra ficar vindo. Você está terminando? –  Foi num dia quente, horrivelmente quente. Ela estava nua na minha cama olhando pra mim, mas nunca pra mim. Além de mim.
– Estou. – Não vi o que os seus olhos disseram, ela voltou para sua posição e continuou até a pausa do dia.
No último dia ela chegou com um vestido branco, menor que ela, que suas pernas longas e delgadas. Que seus braços graciosos e pálidos.
– Não posso ficar mais.
– Já acabei.
– Posso ver?
– Pode, é sua. –  Eu a conduzi até o quarto vazio que a coloquei, a pintura o preenchia todo com sua presença.
– É lindo. Quem é?
– Você. –  Ela sorriu, pela primeira vez em dois meses. –  Não sou eu, é você.
Me achei um ignorante por não entender na hora o que ela havia dito.
– Quanto é?
– Você já me pagou.  –  Ela abriu os olhos escuros e grandes.
– Tenho muito dinheiro.
– Eu também, as pessoas adoram fotografias e eu sou bom em fotografar. 
– Tudo bem. –  Ela se virou pra ir embora, mas parou no meio do caminho.
– Não posso levar hoje. Mando alguém vir o buscar. –  Ela tirou um anel do dedo, prata com uma pedra de esmeralda e vários diamantes envolta com pequenos rubis.
– Fique com ele, não vou precisar. –  Ela se foi, entrou no quadro e vestiu o seu corpo. Nunca mais a vi, não além do quadro. Sessenta anos guardado em minha casa. Sessenta anos olhando para a mulher que não olhava a nada.
Um dia bateram na porta, um homem alto, magro, cabelos lisos, escuros. Olhos grandes, escuros, profundos.
– Vim buscar o quadro dela –  Ele não se apresentou, tal como ela. Entrou silencioso. Eu o guiei ao quarto branco dedicado ao quadro. 
– É ela aí, o sabes?
– Sei. –  Ele fez um carinho na face pálida eternizada no quadro. Não pude o ajudar a tirar da parede, minhas costas eram frágeis e meu corpo magro.
Ele pegou o quadro com facilidade, mesmo que o quadro fosse enorme, maior que ele.
– Usou bem o anel?
– Dei a quem o pertencia.  –  Sorri com minha genialidade. O anel estava no dedo dela, uma técnica que aperfeiçoei e o coloquei dentro do quadro.
– Vale milhões, não devia o deixar assim –  Eu disse.
– Pra onde Ela vai não haverá dinheiro e valor capitalista.
Ele se foi, levou o último quadro de verdade que pintei. O quadro que era mais meu olhar que o dela. Ela estava eternizada ali.
– Ela morreu no mesmo dia que você o terminou. Essa é ela quem vive entre nós para sempre. –  Ele sorriu, um sorriso igual ao dela. Se foi, tal como ela nunca mais os vi. Nem Ela, nem Ele, nem o Quadro.

Ester Sousa.

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