Quando você volta eu vou embora de você.

Ele me abraçou forte enquanto eu fazia uma curva.
– Você está me  apertando.
– Estava com saudade – o aperto dele era forte e me fazia querer ficar ali sempre. Doía a sua força, mas cada vez que ele chegava perto o vento me trazia o seu cheiro de pele limpa.
– Você se foi.
– Voltei.
– Não quero mais saber de você – Eu havia pegado a estrada e estávamos sozinhos.
– Eu sei, mas eu te amo. Sempre.
– Meus olhos se encheram de água, ele me apertou mais, passou a mão no meu braço fazendo um carinho silencioso.
– Eu odeio quando você faz isso.
– Desculpe, você sabe… Eu… Eu preciso, já disse.
– Olha aqui Marcos, você precisa? Como você precisa? Eu… Ah! – Acelerei a moto junto com meu coração. Eu odiava ele, odiava que ele ia e não dizia que iria. Odiava que ficava meses sem aparecer e depois simplesmente voltava.
– Eu odeio quando você volta. – “Porque eu sempre volto pra você” mas isso eu não disse. Não podia.
– Parei num restaurante de estrada. Estacionei a moto e fumei um cigarro.
– Você fuma?
– Visivelmente – sorri.
– Não devia fumar, sabe que mata.
– É, tem o mesmo efeito de ficar com você, deve ser por isso que fumo. Sempre termino com o cigarro, mas volto o acender.
– Olha Júlia – Ele chegou perto – Desculpa, eu te levo da próxima vez e… – Joguei o cigarro fora, queria me queimar com a bituca. Como doía tanto assim? Ele acha que dizer que vai me levar melhora alguma coisa.  Dói e dói. Coloquei uma bala de menta na bluvas,
– Vou ao banheiro. – Joguei a chave da moto pra ele – Encha o tanque de gasolina pra mim – Tirei uma nota amassada de cinqüenta do bolso e coloquei na sua mão.
Virei e fui andando. Nunca fui boa em dizer essas coisas, nunca fui boa em dizer o que sinto. Nunca fui boa em chorar, nunca fui boa em amar. Mas amei. Amei ele, amei com tudo o que eu tinha, amei, amei. E ele sempre ia. Odeio quando vai, odeio ainda mais quando volta. Sempre vou amar.
Não queria ir no banheiro, lógico, mas precisava sair de perto dele, um vislumbre do seu rosto me fazia querer o abraçar, perguntar se está bem, se volta pra mim. E eu sempre vou sofrer depois. Não posso continuar assim, me rasga, mas não posso.
Fiquei sentada num banco e esperei ele voltar. O lugar era deserto, não passava carros, o verde era imenso e não tinha fim. O cheiro de terra, de poeira, de bicho, a paz. Por quanto tempo uma pessoa consegue amar? Espero que meu tempo esteja acabando.
– É lindo aqui.
– É sim. – Me levantei, tirei a jaqueta da cintura e a coloquei, arrumei a calça, calcei as luvas, arrumei os óculos e subi na moto.
– Vamos? – Ele me olhava sério.
– Desculpa Ju, eu encontrei um caminhoneiro que vai pró sul, ele vai me levar com ele. – Meu coração se apertou. Ele ajeitou a mochila nas costas e sorriu sem jeito. Veio andando pro meu lado.
– Me dê um abraço, assim que eu conseguir eu volto. – Ele não havia ficado nem um dia.
– Eu espero que você encontre.
– O que?
– O que você tanto procura. Mas até lá, ou melhor, nunca mais me procure. Nunca mais. Nunca. – Eu não chorei, dentro de mim abriu um buraco e sugou tudo o que eu tinha. Virei as costas e fui andando.
– Eu te amo Júlia, você vai saber um dia.
– Eu já sei. E também sei que não é o suficiente. Você ama o mundo muito mais. – Continuei andando. Meu coração havia ficado pesado, minhas lágrimas caíram. Subi na moto e voltei de onde vim.
Olhei pelo retrovisor e ele já havia subido no caminhão.
A moto me levou, o vento me levou. Tudo me levou, menos ele. Ele ficou.

Ester Sousa.

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