Conversa fra-n-ca. (Partes de um projeto, aos que se interessam por esse tipo de leitura comecem lendo OS SOMBRAS capítulo um)

– Você vai morrer.  –  Levantei os olhos para Clara e sorri.
– É previsível. O único maldito spoiler que você pode dar da minha vida? Você podia me dizer que o Brad Pitt vai me comer.
– Todo mundo quer ser comido por ele. Até minha avó.
– Você não tem avó.
– Exatamente! –  Eu sorri pra ela.
– Só me diz como e quando eu vou morrer. 
– Não sei. Mas a morte já se espreita pelos meus sonhos. 
– Bem, Bê não pode ficar sozinho. Você sabe.
– Cara, eu digo que você vai morrer e você me diz que Bê não pode ficar sozinho? Eu não posso ficar sozinha! –  Ela se levantou irritada e começou a passar a mão no cabelo esbranquiçado.
– Clara, desde o dia em que nasci eu espero estar morta. Você me dizer que logo estarei é como um alívio. Mas nada me preocupa mais do que deixar meus familiares sozinhos. E você é Bernardo o são. Você pode ficar só, ele não. O Sombra ainda o vigia. Sussurra pra ele durante a noite. Você sabe que nosso maior inimigo não é o instituto, não são os sombras, não são os sem face. É a droga do Bernardo. Ele é poderoso. Ele é vulnerável.
– Eu sei, eu sei. Então se prepare. Eu consegui suprimentos, nada demais. Você sabe como eles são no instituto. E também toda noite um sem face me vigia. Toda noite eles me mostram uma criança nova. Mais crianças estão sendo recrutadas. Eles estão juntando forças e eu não sei pra que, mas está ficando feia a coisa. Sabe quanto tempo eu não transo? Cinco malditos meses!
– Que triste pra você.
– Foda-se. –  Ela tirou um cigarro do bolso. Quando ela o acendeu e colocou na boca não saiu fumaça.
– Cadê a fumaça do cigarro?
– Meu corpo está sem energia, estou fraca, ando puxando energia de qualquer coisa.
– Fraca como?
– Bom, você pode não ser a única na mira da Morte.
– O que você não me contou?
– Nada –  Os olhos dela continuavam normais, sempre cinzas ao ponto de às vezes ficarem brancos. O cabelo um dia vermelho estava cada vez mais sem cor, a pele tremia num pálido fantasmagórico.
– Você parece uma assombração. –  Ela riu alto.
– Uma assombração gostosa. – Ela não me contava alguma coisa, e eu sabia o que.
– O Bernardo que vai me matar –  Os seus olhos sorriram.
– Você é assustadoramente boa. Mas errou. Não vai ser ele. –  Ela se levantou, beijou minha cabeça e se foi. Uma das poucas vezes que Clara ficava comigo sem falar pouco, e todas as vezes que isso acontecia alguém jogava merda no ventilador e voava na minha direção.
Fechei os olhos, o cheiro dela ainda estava ali. Meu coração estava ali. Meu corpo estava ali. Mas onde diabos estava a minha cabeça pra não perceber as coisas que estava no ar? Quando você cresce no meio de monstros você se torna um, acaba não prestando atenção ao seu redor. Assim que se morre.

Tudo estava assustadoramente normal. Bernardo tocava para Alice todos os dias. Ela estava contente com seu estado decrépito. Clara andava namorando uma garota morena bem sexy e seu corpo aceitava as mudanças dos sem face. Tudo estava assustadoramente bem e era isso que estava errado.
Fechei os olhos e deitei na cama, tocava um dos CDs do Bê, um post rock delicioso.
Don’t stay here –  Meu telefone tocou e não ouvi. Peguei uma adaga minha e a fechei, gostava de as deixar abertas para receberem energias. Seu brilho era intenso, cada molécula de luz reproduzia da maneira certa, cortava para matar. Coloquei de lado e continuei escutando a música. Ficar sozinha era mais que melhor, era perfeito.
Foi assim, sozinha que começou com uma sensação. Meu corpo tremeu e meus olhos mexiam incontroláveis. Tudo ao meu redor ficou escuro, eu já não sabia onde estava, corpo ou alma. 
Você gosta dessa música não é mesmo Alice? Você gosta do Bernardo, não é mesmo Alice? Mas eles não gostam de você Alice! Eles te odeiam –  A voz gritava e gritava, junto com a voz que gritava Alice também gritava. Ela começou a se debater até ferir o corpo, Bernardo chorava alto, tudo que se passava na cabeça dele era um garotinho e sua mãe morta. 
– Não Alice, não! –  Eu gritei, mas meus gritos eram só meus. Eu sabia que não era uma visão. Era real. Aquilo estava acontecendo e eu estava presa, não podia fazer nada.
Alice se jogou no chão com os olhos tremendo na órbita branca. Sua boca se abriu num gesto nunca dito. Qualquer coisa, qualquer sinal de que ela ainda existia ali se fora. Alice morreu e deixou o seu corpo, levou um pedaço de Bernardo que tremia num canto e chorava.
Achei que havia acabado, mas o corpo de Alice se ergueu, ela olhou com os olhos negros para Bernardo é riu alto. O Sombra havia tomado conta. Ela riu alto, olhou nos meus olhos e se foi. Eu acordei.
– Ajuda. Ajuda. Ajuda –  Eu estava sozinha, minha boca tinha gosto de ferro velho, meu corpo doía, minha cabeça latejava. Foi então que desmaiei deitada no meu próprio sangue. Só havia Clara ali e ela também chorava.

Ester Sousa.

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