Não adianta ter vontade se não tem dinheiro.

-Vou cortar o cabelo.
– Ppxa, legal, sempre achei que se cortasse o cabelo iria ficar melhor.
– Não gosta assim?
– Gosto.
– Então porque sempre achou que se eu cortasse o cabelo ficaria melhor?
– Ah, sei lá.
– Não sabe?
– AFF, você não ajuda heim!
– Ué, não entendo essas coisas aí de beleza não colega.
– Só quando te interessa !
–  Pera lá. Qual é? Eu que digo aff, agora..
– Esquece..
– Ok.
– Como vai cortar?
– Não sei.
– Corta hoje.
– Afora?
– É! vamos lá, vamos.
– Vamos!
– Ah, aff, não tenho dinheiro.
– Droga, nem eu.
– Depois eu corto.
– Tudo bem.
– Eu sempre achei o seu cabelo assim lindo.
– Eu também, melhor deixar assim né!
– É.

Ester Sousa.

A arte nunca morre.

O lugar era um moquifo. Bati na porta três vezes como se pede o costume. Nada. O silêncio era ensurdecedor, quando bati na porta uma quarta vez ela se abriu com um chiado alto que rasgou a solidão. A luz do sol entrava pela janela e iluminava o quarto em algumas partes. Uma mesa no canto estava velha e gasta, em cima dela havia tintas de várias cores. Azul, amarelo, verde, cinza, gelo, turquesa, amora. Um pincel com as pontas secas e velhas. Na cadeira havia um quadro grande todo pintado, mas no meio dele havia um buraco e do buraco nada se via. Assim que entrei mais adiante o cheiro de podre me socou o estômago.
– Por Deus! – Fiquei tonto e cobri a boca. O que era aquilo? A cama estava bagunçada com um lençol enrolado em algo, fui verificar. Minha curiosidade é maior do que meu bom senso, devo confessar, por mais constrangedor que seja. Oh Deus! Será que meus olhos míopes me enganam? Um bebê enrolado naquele lençol sujo e naquele quarto podre. O cheiro estava mais forte. O bebê dormia tranquilamente, seu peito subia e descia. O peguei com meus braços enormes, com minha força bruta. Como é leve essa criança. Ele remexeu, mas não despertou. Havia um canto escuro no quarto, não chegava aos raios de luz.
Um pé, vários dedos, uma perna.
– Diabos. – Uma mulher, morta. O corpo fedia, bichos comiam sua carne, vermes, baratas, ratos.
– Mas como? Como? – Meu corpo tremia, meu estômago revirou e revirou. Segurei o bebê com cuidado, eu não iria vomitar, não agora.
– Mas como você sobreviveu? Para o corpo estar assim em outono ela deve estar morta no mínimo uns sete dias. Você está vivo e aparentemente saudável.
O bebê não respondeu, abriu os olhos. Os olhos. Deus, os olhos eram brancos, não havia nada ali. Nada.
– Não devia ter me acordado. – Minha mente falou. Mas não foi eu quem disse. A voz era minha, mas eu não pensei nisso. O bebê se mexeu e remexeu até que caiu do meu colo. Seu corpo cresceu, cresceu e virou luz. Já não havia nada mais lá, o bebê sumiu. No seu lugar apareceu uma sombra que se arrastava. Uma sombra branca.
A mulher morta abriu os olhos e aqueles olhos murchos e sem vida me olharam pesarosos. Com pena.
Ele pulou em mim, entrou em mim. Sua luz branca me consumiu. Rasgou minha pele, partiu os meus ossos, comprimiu o meu corpo. Me prendeu ao quadro.
– O que eu fiz?
–  Acordou o tempo.
– O que eu fiz? – Eu gritei, cego, gritei. Ninguém me ouvia. Fiquei preso, preso. Amarrado. Preso. Enlouqueci.
A mulher se foi. Os bichos se foram, chegaram novas pessoas. Faz tanto tempo que até me esqueci o motivo de ter vindo ver ela. Qual mesmo? Ah, lembrei. Comprar suas pinturas.
O tempo parou. Parou para mim.

Ester Sousa.

Idosos também já foram bandidos.

– Tenho perdido tanto da minha vida. Vivemos para chegarmos aos sábados. – A senhora tossiu e continuou fumando. – Todos os dias são iguais, nós tolos humanos concordamos em lhes dar nomes, a partir daí nasceu o poder.
Ela olhava para o nada, no nada havia uma janela, a janela era de madeira envelhecida, na vista da janela havia flores, rosas do deserto, das flores se viam as abelhas, de lá vem o mel.
– A senhora se arrepende de algo?
– Arrepender? – Ela riu tossidas. – Eu arrependo de tanta coisa que o estaria morta morta se isso matasse.
– Exemplo? – O rapaz apertou o botão do gravador e continuou gravando.
– Começar a fumar. Na época era legal, mas acabou com meus dentes. – Ela continuou fumando e tomou um gole d’água.
– Perdi a virgindade com o Tomás Valadares. Como fui idiota, na época meninas da minha idade só perdia virgindade se fossem casadas, putas, amantes, apaixonadas, violadas ou doidas. Eu fico com o grupo de doidas e apaixonadas. Talvez um pouco no de putas. Devia ter perdido com o Carlos, ele era rico. – Ela sorriu, o nada se transformou em um filme e ela o assistiu sozinha.
– Por hoje terminamos, tenho que fazer hemodiálise. – Ela virou pró lado e se cobriu com a manta que estava dobrada nos pés. Ela sempre mentia dizendo isso, mas essa era a forma dela de dizer que o passado tem sombras e elas a atormenta nesses momentos. Terminiei por ora, havia muito o que saber de uma mulher que matou mais de sessenta homens ao longo de sua vida. Fui embora olhando pra trás, nunca se pode confiar no inimigo.

Ester Sousa.

O garotinho que o papi deixou.

As ondas batiam contra os pés do garotinho, ele sorria mostrando os Dentinhos tortos. Azul, branco, verde, turquesa, até cinza havia no meio daquela imensidão de mar.
-Olha mamãe! – ele gritou balançando o cabelo escuro, veio correndo na minha direção. Minha?
– Oi meu bem – Minha voz saiu estranha. É minha essa voz? Essa sou eu? Eu o abracei, o corpo pequeno e quente.
– Eu achei uma estrela do mar. Ela caiu do céu bem pra cá, não é mamãe? A Laura falou que é mentira minha, que elas nascem no mar mesmo. Mas estrelas são do céu, igual o papai me contou. Não é mesmo mamãe? – ” Papai”, meu coração doeu. Porque esse garotinho lindo me chama de mamãe?
– É verdade meu filho, elas estão no céu e no mar. Umas nascem no céu e as outras no mar. – Ele me olhou confuso.
– Mas papi disse que…
– Papai morreu. – Lembrei. Papai morreu, se foi e me deixou. Por que eu ? O garotinho chorou. Uma gaivota gritou no céu, as ondas de quebraram. Me levantei e peguei em sua mão, fomos andando.
Papi morreu.
Sai do mar. Eu a concha e o garotinho me filho.
Papai morreu.
O garotinho parou de chorar.
– Pode chorar também mamãe. Eu sei. – Ele me olhou sério enquanto as lágrimas caiam de seus enormes olhos. Igual papai ele era. Nada meu.

Ester Sousa.

Quando você volta eu vou embora de você.

Ele me abraçou forte enquanto eu fazia uma curva.
– Você está me  apertando.
– Estava com saudade – o aperto dele era forte e me fazia querer ficar ali sempre. Doía a sua força, mas cada vez que ele chegava perto o vento me trazia o seu cheiro de pele limpa.
– Você se foi.
– Voltei.
– Não quero mais saber de você – Eu havia pegado a estrada e estávamos sozinhos.
– Eu sei, mas eu te amo. Sempre.
– Meus olhos se encheram de água, ele me apertou mais, passou a mão no meu braço fazendo um carinho silencioso.
– Eu odeio quando você faz isso.
– Desculpe, você sabe… Eu… Eu preciso, já disse.
– Olha aqui Marcos, você precisa? Como você precisa? Eu… Ah! – Acelerei a moto junto com meu coração. Eu odiava ele, odiava que ele ia e não dizia que iria. Odiava que ficava meses sem aparecer e depois simplesmente voltava.
– Eu odeio quando você volta. – “Porque eu sempre volto pra você” mas isso eu não disse. Não podia.
– Parei num restaurante de estrada. Estacionei a moto e fumei um cigarro.
– Você fuma?
– Visivelmente – sorri.
– Não devia fumar, sabe que mata.
– É, tem o mesmo efeito de ficar com você, deve ser por isso que fumo. Sempre termino com o cigarro, mas volto o acender.
– Olha Júlia – Ele chegou perto – Desculpa, eu te levo da próxima vez e… – Joguei o cigarro fora, queria me queimar com a bituca. Como doía tanto assim? Ele acha que dizer que vai me levar melhora alguma coisa.  Dói e dói. Coloquei uma bala de menta na bluvas,
– Vou ao banheiro. – Joguei a chave da moto pra ele – Encha o tanque de gasolina pra mim – Tirei uma nota amassada de cinqüenta do bolso e coloquei na sua mão.
Virei e fui andando. Nunca fui boa em dizer essas coisas, nunca fui boa em dizer o que sinto. Nunca fui boa em chorar, nunca fui boa em amar. Mas amei. Amei ele, amei com tudo o que eu tinha, amei, amei. E ele sempre ia. Odeio quando vai, odeio ainda mais quando volta. Sempre vou amar.
Não queria ir no banheiro, lógico, mas precisava sair de perto dele, um vislumbre do seu rosto me fazia querer o abraçar, perguntar se está bem, se volta pra mim. E eu sempre vou sofrer depois. Não posso continuar assim, me rasga, mas não posso.
Fiquei sentada num banco e esperei ele voltar. O lugar era deserto, não passava carros, o verde era imenso e não tinha fim. O cheiro de terra, de poeira, de bicho, a paz. Por quanto tempo uma pessoa consegue amar? Espero que meu tempo esteja acabando.
– É lindo aqui.
– É sim. – Me levantei, tirei a jaqueta da cintura e a coloquei, arrumei a calça, calcei as luvas, arrumei os óculos e subi na moto.
– Vamos? – Ele me olhava sério.
– Desculpa Ju, eu encontrei um caminhoneiro que vai pró sul, ele vai me levar com ele. – Meu coração se apertou. Ele ajeitou a mochila nas costas e sorriu sem jeito. Veio andando pro meu lado.
– Me dê um abraço, assim que eu conseguir eu volto. – Ele não havia ficado nem um dia.
– Eu espero que você encontre.
– O que?
– O que você tanto procura. Mas até lá, ou melhor, nunca mais me procure. Nunca mais. Nunca. – Eu não chorei, dentro de mim abriu um buraco e sugou tudo o que eu tinha. Virei as costas e fui andando.
– Eu te amo Júlia, você vai saber um dia.
– Eu já sei. E também sei que não é o suficiente. Você ama o mundo muito mais. – Continuei andando. Meu coração havia ficado pesado, minhas lágrimas caíram. Subi na moto e voltei de onde vim.
Olhei pelo retrovisor e ele já havia subido no caminhão.
A moto me levou, o vento me levou. Tudo me levou, menos ele. Ele ficou.

Ester Sousa.

Conversa fra-n-ca. (Partes de um projeto, aos que se interessam por esse tipo de leitura comecem lendo OS SOMBRAS capítulo um)

– Você vai morrer.  –  Levantei os olhos para Clara e sorri.
– É previsível. O único maldito spoiler que você pode dar da minha vida? Você podia me dizer que o Brad Pitt vai me comer.
– Todo mundo quer ser comido por ele. Até minha avó.
– Você não tem avó.
– Exatamente! –  Eu sorri pra ela.
– Só me diz como e quando eu vou morrer. 
– Não sei. Mas a morte já se espreita pelos meus sonhos. 
– Bem, Bê não pode ficar sozinho. Você sabe.
– Cara, eu digo que você vai morrer e você me diz que Bê não pode ficar sozinho? Eu não posso ficar sozinha! –  Ela se levantou irritada e começou a passar a mão no cabelo esbranquiçado.
– Clara, desde o dia em que nasci eu espero estar morta. Você me dizer que logo estarei é como um alívio. Mas nada me preocupa mais do que deixar meus familiares sozinhos. E você é Bernardo o são. Você pode ficar só, ele não. O Sombra ainda o vigia. Sussurra pra ele durante a noite. Você sabe que nosso maior inimigo não é o instituto, não são os sombras, não são os sem face. É a droga do Bernardo. Ele é poderoso. Ele é vulnerável.
– Eu sei, eu sei. Então se prepare. Eu consegui suprimentos, nada demais. Você sabe como eles são no instituto. E também toda noite um sem face me vigia. Toda noite eles me mostram uma criança nova. Mais crianças estão sendo recrutadas. Eles estão juntando forças e eu não sei pra que, mas está ficando feia a coisa. Sabe quanto tempo eu não transo? Cinco malditos meses!
– Que triste pra você.
– Foda-se. –  Ela tirou um cigarro do bolso. Quando ela o acendeu e colocou na boca não saiu fumaça.
– Cadê a fumaça do cigarro?
– Meu corpo está sem energia, estou fraca, ando puxando energia de qualquer coisa.
– Fraca como?
– Bom, você pode não ser a única na mira da Morte.
– O que você não me contou?
– Nada –  Os olhos dela continuavam normais, sempre cinzas ao ponto de às vezes ficarem brancos. O cabelo um dia vermelho estava cada vez mais sem cor, a pele tremia num pálido fantasmagórico.
– Você parece uma assombração. –  Ela riu alto.
– Uma assombração gostosa. – Ela não me contava alguma coisa, e eu sabia o que.
– O Bernardo que vai me matar –  Os seus olhos sorriram.
– Você é assustadoramente boa. Mas errou. Não vai ser ele. –  Ela se levantou, beijou minha cabeça e se foi. Uma das poucas vezes que Clara ficava comigo sem falar pouco, e todas as vezes que isso acontecia alguém jogava merda no ventilador e voava na minha direção.
Fechei os olhos, o cheiro dela ainda estava ali. Meu coração estava ali. Meu corpo estava ali. Mas onde diabos estava a minha cabeça pra não perceber as coisas que estava no ar? Quando você cresce no meio de monstros você se torna um, acaba não prestando atenção ao seu redor. Assim que se morre.

Tudo estava assustadoramente normal. Bernardo tocava para Alice todos os dias. Ela estava contente com seu estado decrépito. Clara andava namorando uma garota morena bem sexy e seu corpo aceitava as mudanças dos sem face. Tudo estava assustadoramente bem e era isso que estava errado.
Fechei os olhos e deitei na cama, tocava um dos CDs do Bê, um post rock delicioso.
Don’t stay here –  Meu telefone tocou e não ouvi. Peguei uma adaga minha e a fechei, gostava de as deixar abertas para receberem energias. Seu brilho era intenso, cada molécula de luz reproduzia da maneira certa, cortava para matar. Coloquei de lado e continuei escutando a música. Ficar sozinha era mais que melhor, era perfeito.
Foi assim, sozinha que começou com uma sensação. Meu corpo tremeu e meus olhos mexiam incontroláveis. Tudo ao meu redor ficou escuro, eu já não sabia onde estava, corpo ou alma. 
Você gosta dessa música não é mesmo Alice? Você gosta do Bernardo, não é mesmo Alice? Mas eles não gostam de você Alice! Eles te odeiam –  A voz gritava e gritava, junto com a voz que gritava Alice também gritava. Ela começou a se debater até ferir o corpo, Bernardo chorava alto, tudo que se passava na cabeça dele era um garotinho e sua mãe morta. 
– Não Alice, não! –  Eu gritei, mas meus gritos eram só meus. Eu sabia que não era uma visão. Era real. Aquilo estava acontecendo e eu estava presa, não podia fazer nada.
Alice se jogou no chão com os olhos tremendo na órbita branca. Sua boca se abriu num gesto nunca dito. Qualquer coisa, qualquer sinal de que ela ainda existia ali se fora. Alice morreu e deixou o seu corpo, levou um pedaço de Bernardo que tremia num canto e chorava.
Achei que havia acabado, mas o corpo de Alice se ergueu, ela olhou com os olhos negros para Bernardo é riu alto. O Sombra havia tomado conta. Ela riu alto, olhou nos meus olhos e se foi. Eu acordei.
– Ajuda. Ajuda. Ajuda –  Eu estava sozinha, minha boca tinha gosto de ferro velho, meu corpo doía, minha cabeça latejava. Foi então que desmaiei deitada no meu próprio sangue. Só havia Clara ali e ela também chorava.

Ester Sousa.