Sombras.

– Adoro seus lábios. A forma como eles criam um arco e depois uma covinha. É tão sensual.
– Meu pai me dizia que eram iguais os da minha mãe. Toda vez que me batia. –  Ele passou a mão no meu cabelo é tirou uma mexa do meu rosto. 
– Ele era um idiota. Pelo menos eu sou como o Batman, mas sem os pais.
– Ah, por favor né! O Batman era um super gostoso nerd e além do mais ele era podre de rico!
– Certo, e só não sou podre de rico, mas sou rico. Agora a parte de nerd e gostoso não precisamos por a prova. Eu sou a porra de um gostoso nerd! –  Ele sorriu e me beijou no pescoço. 
– Eu amo você, o Batman não. 
– Ainda bem que o Batman não me ama, ia ser estranho. Não sei se eu resistiria a ele, ainda mais depois que você colocou as qualidades dele tão em alta –  Ele disse sério e depois olhou pro teto pensativo. 
– É, eu não resistiria a ele.  –  Comecei a rir e dei uma cotovelada nele. 
– Por favor né! –  Ele se virou pra mim e me abraçou. 
– Tô com fome. 
– Eu também. 
– Tô com preguiça. 
– Eu também.
– Tô com calor. 
– Eu também.
– Eu te amo.  –  Ele me disse me olhando. Não consegui o olhar ou responder ao nosso jogo de “eu também”. 
– Alguém tem que fazer alguma coisa né! Levanta essa bunda branca daí é vá fazer! –  Sorri triste. Essa era a forma dele de dizer que queria ficar sozinho.  Mas eu nunca, nunca neguei o meu amor pra ele. Só não conseguia dizer. 
Levantei da cama. Ficávamos em um apartamento pequeno, com parede de tijolos pequenos e vermelhos. Fazia quanto tempo que nos estamos escondidos? Um mês? Um ano? Estamos enlouquecendo. Desde que Clara nos alertou, desde que nós descobrimos que não passamos de enormes bolas vermelhas esperando por uma flechada.
Somos um alvo. 
Viramos sombras, não como os Sombras. Mas estamos fingindo deles, dos Sem Face. Do Instituto. Das pessoas que conhecem o suficiente.
Beijei o rosto dele e fui pra cozinha, estava tudo limpo. Ele era só limpeza. 
– O que quer pra comer?
– Como se eu tivesse muita escolha né Branca? –  Ele revirou os olhos e sorriu. Pegou um cigarro, acendeu e ficou fumando. 
– Você parece um velho. 
– Me sinto como um. 
– Venha aqui e me ajuda.
– Não posso, minha tendinite está me matando. –  Comecei a rir.
-Vou fazer um bolo. 
– Você pode fazer um monte de estrume com uma cereja em cima e eu ainda comeria –  Ele riu alto, mas seus olhos estava voltados pra janela. Os dias tem sido odiavelmente ensolarados. Todos os dias.
– Sinto falta do Instituto, de quando nós estávamos nos conhecendo. Quando todo dia chovia e a neblina acabava com minhas cordas do violão.  Sinto falta de tocar. 
– Seu violão está aqui Bê.
– Não é mais a mesma coisa. Toda vez que eu pego eu sinto dor. Toda vez que eu toco eu me lembro de olhos castanhos e grandes. –  Ela.
– Não tem que ser assim. 
– Mas é assim porra. É assim –  Ele colocou o cigarro nos lábios e deixou lá, encerrou o assunto. Meus olhos ardiam nesse momento. Eu queria o pegar e o abraçar até que tudo passasse. Mas não passa. Os dias são sombrios mesmo que haja sol. As noites são tensas, ele sempre vai ter uma parte de si perdida. Ele sempre vai ser incompleto. Ele sendo incompleto eu me torno incompleta.  Todos os dias da minha vida odeio minha existência. Todos os dias eu acordo e me pergunto, por quê nasci? O mundo vai continuar cheio de sombras pra nós destruirmos. Continuará cheio de Sem Face espreitando nossas mentes e nos controlando. 
– Quero bolo –  Ele cortou meus pensamentos.  Sorri diante da repentina mudança, tudo é tão triste. Tão sombrio. 
– Sinto te informar meu bem, mas bolo aqui só se for de farinha!
– Se for com café eu como. –  Comecei a fazer. Meu corpo gritava por um canto escuro, minha mente chorava por sumir. Mas meu coração, meu coração estava ali, do outro lado da sala fumando um cigarro e totalmente incompleto. Onde meu coração está eu vou. Onde meu coração bate eu respiro. 
Por mais que eu tenha sido rebaixada a isso. A sombra da sombra.
Nunca, eu nunca iria substituir ela. Ele nunca me amaria da mesma forma que ela, e eu nunca o amaria da mesma forma que ele merecia. Somos a merda de um casal. Mas somos um.
– Levanta a droga dessa sua bunda daí, joga esse cigarro fedorento fora e venha aqui me ajudar. Se pensa que está ainda no Instituto tá muito enganado meu bem, aqui não é a droga da casa da mãe Joana e eu tô com fome. –  Ele riu alto, jogou o cigarro fora e veio me ajudar.
– Eu queria que tudo fosse tão fácil assim igual na casa da mãe Joana. –  Ele me deu um beijo na testa e começou a mexer a massa. Às vezes, só às vezes eu penso que estou em outra vida. E tudo se torna muito fácil. Mas é só às vezes. E às vezes passa muito rápido.

Ester Sousa.

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S. O. S. Já não existe!

Alguém por favor me explica isso?
Me tira disso.
Me sussurra o que não consigo escutar.
Alguém por favor me tira disso.
Me tira disso.
Me tira disso.
Me dói.
Nem dor física se sobressai. 
Me tira disso. 

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Flores não são para defuntos. 

Ester Sousa.

O meu vazio não cria e os bonitos.

Existem pessoas que simplesmente nasceram tristes. Que não pertencem a este mundo. Que não se satisfaz com coisas simples. Não se contenta com o sistema. Existem pessoas que sempre terão um vazio infinito. Nada no mundo o preenche. Existe pessoas que não conseguem chorar atoa. Por mais que se é triste, mas se vê o mundo de forma perversa. 
Mas me diz, por quê, por quê eu faço parte desse grupo de pessoas? É cruel, é sufocante. Nada no mundo tira esse vazio. A única forma de escapar dele é nos vícios. O meu é dormir. Me deixe dormir pra sempre. Me deixe só pra sempre. Me deixe com meus livros, minha cama, meus filmes. Me deixe só.
Mas as outras pessoas não entendem. Não compreendem. E dói. Esse vazio dói.

Ester Sousa.

Pedidos formais não insignificantes.

– Tira esse cigarro da boca e me beija.
– O que eu ganho com isso?
– Meu beijo.
– Prefiro o cigarro. 
– Por que?
– Ele me mata lentamente, seu beijo vai destruí meu coração um dia. E vai ser um estrondo.
– Só deixa eu te beijar vai.
– Já devia ter vindo, um beijo não se pede, só pra donzelas puras, não sou pura e nem donzela. 
– Um dia quem vai te matar vai ser esse humor. 
– Alto lá, meu corpo é só um pra tantas mortes. 
– Enquanto isso te beijo.
– Sim… 

Ester Sousa.

O que difere o amor.

A rua estava movimentando cheia de pessoas. Todos andavam sem rumo e olhavam para o nada. Um dia quente e tumultuado. Dois homens conversavam e riam entre si, como se compartilhassem um segredo de todos. Como se apenas houvesse eles. Quem os via não percebia que suas mãos se encontravam em várias esbarradas. Seus ombros se chocavam em uma carícia mútua. Eles sorriam. Estavam felizes. 
– Olha só, se não é o Eduardo com esse viadinho. Vai falar agora que também é um viadinho? –  O rapaz que dizia isso gargalhou para os outros dois homens que estava com ele. 
Eduardo, o mais alto e gordo de todos ficou pálido.
– Não virei viadinho. –  Seu amigo tentou pegar na mão dele, mas Eduardo o empurrou.
– Eles não podem fazer nada, fica tranquilo. –  Só que Eduardo não ficou tranquilo, empurrou seu companheiro e gritou. 
– Saia de perto de mim seu bicha escroto, só porque te comi acha que vou te querer? E eu lá tenho cara de bicha? –  O homem que estava com ele empalideceu, seus olhos grandes e escuros ficaram cheios de mágoas.
– Você não quis dizer isso!
– Eu quis. –  Os outros homens gargalhava de Artur companheiro de Eduardo. 
– Nunca mais me ligue, nunca mais me procure
– Ah, mas não vai precisar. Quando eu quiser comer alguém eu pago uma puta, sei que ela não vai ficar no meu pé. –  Os homens continuaram a gargalhar.
– Não devemos intrometer em briga de meninas, vamos embora antes que eles resolvam tacar os esmaltes e as púrpuras –  Começaram a rir. Eduardo não olhou para Artur.
– O que tá olhando seu frutinha escroto? Vaza daqui! –  Artur só tinha lamentos. 
Saiu andando. Nunca, nunca em sua vida pensou que sentirá tanta dor. Achou que talvez a relação deles fosse terminar porque ele deixava a toalha em cima da cama, ou porque ele até gostava até mesmo de glee. Mas nunca pensou que fosse assim.
– Te odeio. Odeio. Mas me odeia mais ainda porque pensar que você seria diferente. Que você me amava. –  Eduardo socou o rosto de Artur, causou mais gargalhadas entre os homens. Por fim ele se foi com o grupo risonho.
Artur ficou jogado no chão. Não doía o corte no lábio. Doía o coração. Doía o preconceito.

Ester Sousa.

Antes que se pense muito é melhor ir embora.

Hoje é um dia frio. Todos os dias tem sido frios. Nada de diferente, o clima e tudo mesmo. Me sinto hostil.
– Você devia começar a fumar. –  Nada, nada dentro de mim vai ficar mais quente. A música é a mesma, os livros são os mesmos. Até teu beijo já não diz nada.
– Tudo bem, me dê um. –  Nem isso. Nada me deixa bem.
– Só não vicie, estou alimentando as indústrias de tabaco há anos. –  Sorri, mas sem vontade. Não vejo vontade. Nada.
Joguei a fumaça nela, a pele tão branca. Às vezes me dá vontade de cortar aquele corpo todo, só pra ver saindo o sangue vivo. Será que cor? Azul? Ela parece ter sangue azul. Me vejo a fodendo de milhões de forma, e em todas nelas nós estamos banhados  com seu sangue. Só isso me dá vontade. Sou louco?
– Tenho que ir.
– Tão cedo.
– É. –  Antes que eu sentisse qualquer outra vontade eu fui. Senti frio, tão frio.
Joguei o cigarro fora. Por que assim?
Ah Orfeu, nunca devia ter cantado pra mim.
Os dias são os mesmos, todos dias sem fim.

Ester Sousa.

Escambo entre cavalheiros.

Porra , cala a boca. 
– Calar a boca? Você sabe com quem tá falando seu verme?
Verme, quem é você? Minha mãe?
– Olha cara, eu realmente preciso de ajuda.
Você não sabe nem falar em voz baixa. Precisa é de uma instituição de doentes mentais. Não sabe falar baixo caralho.
– Preciso de ajuda. Eu pago. 
– Paga? Quanto?
– Duzentinho.
– O que? Isso tudo? Você não quer uma simples questão né. Cara, vai se fuder. Com que acha que eu mexo? Drogas? Eu fumo um cigarrinho , mas não mexo com drogas. 
– Olha pra minha cara, acha que quero drogas? Você que precisa de um psiquiatra. 
Foda-se .  Não vou vender. 
– O que? Mas você vendeu pra todo mundo!
– Mas não quero vender mais, é difícil entender minha língua? Capiche?
– Você nem sabe falar direito italiano, seu imbecil.
– Fazer o que, língua nunca foi minha praia.  Gosto mesmo é de números. 
– Ok, acho que posso trocar com você uma coisa boa. 
– O que?
– O dragão branco de olhos azuis. 
– Por uma prova? Quanto você precisa?
– De muito. 
– Muito quanto?
– Vinte. 
– Fechou, passa a carta. 
– Primeiro o gabarito. 
– Acha que sou trouxa mané? Passa logo a Porra da carta. 
– Aqui. Agora o gabarito. 
– Vê se esconde bem essa merda. Se alguém ver não fui eu. 
– Você não tem cara de nerd.
– Nem você de burro. 
– Se eu não fechar a prova eu quero a carta de volta. 
– Vai por mim cara, não adianta ter a faca na mão se não sabe cortar o queijo.  Agora some. Eu sei que não ia me dar duzentas cartinhas mané. 
– E nem que você não vende drogas. 
– Tanto faz. 
– Tanto faz. 

Ester Sousa.