O fim principal. Quem é este que me beija, tão cativamente ?

Torturou-Me pelos cantos. 
Beijou-Me até não ter fôlego mais. 
Quando achei que por fim eu não merecia tanto, me sorriu. 
O calor que é a renúncia final. 
A chave para meu abraço. 
Quem precisa de palavras com essas imagens tão gritantes?

Os lábios que me perdoem, mas a língua me encantou. 

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A primeira parte da minha morte.

A primeira vez que cometi suicídio foi quando estava parada olhando um ribeirinho.  A água limpa me trazia uma tristeza profunda que se tornou monotonia.  Pra que viver nessa vida? Foi o que me perguntei.  Eu ainda não havia aprendido a nadar, pulei.  Morri talvez por dezoito segundos, quando dei por mim eu estava sentada.  Mão acreditei na minha má sorte, como pode alguém querer morrer e o seu corpo não ser o suficiente?
Talvez tenha sido esse o maior truque de Deus.  Nos fez perfeitos do nosso jeito para que a nossa imperfeição tenha sido que ser atingida externamente. 
Depois dessa vez morri várias outras vezes.  Todas elas em vão. 

Não me faça pensar o que você quer que eu pense.

A: Seria apenas uma lambida, vai, deixa.  Será prazeroso. 
B: Será? Conheço coisas mais gostosas. 
A: Me dê um gole desse teu vinho.
B: É apenas suco. Parei com o vinho. 
A: Por que a taça?
B: Vai falar que não gosta de um charme.
A: Adoro.  Mas e eu?
B: O que tem?
A: Me deixe lamber. 
B: Será que vale a pena?
A: Não vai se arrepender da minha língua. 
B: Não vai se arrepender da minha reação. 

A menstruação.

– Corre comandante.  – Gritou um pequeno ser todo avermelhado.  Antes que ele terminasse de dizer quaisquer palavras extras foram atingidos por uma enorme bomba gosmenta, vermelha e pulsando.  Foram mais cinco dessas bombas mortais.  A Guerra só se findou depois de quatro dias, poucos sobreviveram. Mas pior de tudo ficou mesmo foi a Terra, no próximo mês seria a mesma coisa.  Poucos sobreviventes, muitos ataques. 

Que deixe a terra comer o que os mortos deixaram.

A porta estava toda arranhada, já gasta por alguém, ou algum ser cansado de esperar, chamar sem respostas.  Velha e lascada, era essa a porta de madeira.
Depois de tanto tempo fechada ela se encontrava  entreaberta, eu entrei.  O cheiro de podridão permanecia no ar como a única fonte de oxigênio presente e eu tive que inalar.  Meu corpo se recusou a tal fedor, meu estômago revirou, minha boca salivou em meio ao suco gástrico que subiu. 
– Que nojo.  –  Eu disse,  nesse momento a velha riu, quando os lábios dela murchos, acompanhados de uma boca se dentes se abriu o cheiro de podridão se misturou ao de cigarro. 
– Se está aqui é porque quis, abriu a porta queridinho.  Ela passou a mão na cabeça já sem cabelos, por exceção de um tufo ralo e sem vida que se encontrava cheio de caspas.
– Como vive assim sua velha infame?
– Da mesma forma como você vive seu jovem tolo.  Cala a boca,  cala, cala, cala, cala! –  Ela se levantou, sua estatura não passava 1,47.  A coluna curvada numa corcunda eterna. 
– Aceita um gole de água ardente? – Ela riu novamente.  Se abaixou em meio a sujeira e podridão e tirou uma garrafa.  Antes que se voltasse a ficar ereta, na medida em que podia,  caiu dentre os seios murchos e velhos um punhado de varejeira. Elas se multiplicaram e subiam por toda parte, pequenas pelotas brancas se mexendo para vários lados. 
– Como vive aqui sua velha porca?
– Ainda está aqui? – A velha cuspiu escarro num balde cheio deles.  –  Você está se vendo por dentro.  Eu sou você. 
Eu sou você, eu sou você.  Eu sou você.  Eu sou a velha. 
O homem correu e tentou abrir a porta, mas ela havia se fechado.  Ficou tanto tempo tentando que a arranhou, tirou sua cor, tirou suas lascas.  A porta não se abriu. A mesma porta que entra é a mesma que sai.  Ela só muda de lado.  Só abre uma vez, se fecha pra sempre. 
Eu sou você.  A velha sou eu. 

Dor nas pernas.

“Já não aguento mais. 
Estou exausta.”
Mas sei que ainda não. 
Sei que ainda foram apenas 70%.
Mas já foi muito. 
Já fui muito. 
Não aguento mais. 
Apenas 20 dias.