Tatuagem de nome memória. Prega em nós, mas com o tempo se apaga.

Estavam as roupas jogadas no chão e o cheiro de café cobria toda a casa. Bateram na porta uma, duas, três,  quatro e cinco vezes.  Ninguém atendeu.  Talvez tenha sido isso que estimulou a garota,  de uma forma delicada ela empurrou a porta de aço do galpão e entrou.  Não havia muitos móveis,  na verdade não havia quase nenhum.  Apenas um colchão jogado no chão com uma coberta e um travesseiro em cima, várias roupas jogadas perto de uma cadeira que segurava um violão amarelado,  um par de sapatos sujos perto de umas revistas e um pequeno criado mudo abarrotado de livros e discos antigos. 
– Oi? –  Ela olhou ao redor e nada viu.  Continuou andando,  assim que entrou em outro cômodo ela percebeu antigos aparelhos de tatuador.  Esse cômodo, com exceção do restante do lugar estava impecável.  Totalmente  limpo.
– Oie? –  Atravessou o lugar e se deparou com duas portas, uma contatou que era o banheiro,  havia uma cueca pendurada ao lado de uma toalha verde com manchas brancas, um rolo de papel higiênico e um sabonete gasto.  Do outro lado era a pequena cozinha,  havia uma janela por cima de uma mesa para um,  o fogão de duas bocas,  a pequena geladeira e um armário de parede. 
A mesa continha um cinzeiro cheio de bitucas de cigarro.  O café em cima da pia estava esfriando,  e a garrafa estava cheia.  Ela se serviu um pouco em uma única xícara que achou, dentro do armário vazio. 
– O que está fazendo aqui? –  Um homem magro,  tão magro que seus ossos se exibiam por debaixo da pele fina,  parecendo dizer “Ei,  estou aqui! Me olha!”.  Os olhos eram fundos e com marcantes linhas negras artificiais. Usava apenas uma calça de moletom preta e meias cinzas. 
– Quem é você?
– Desculpa,  eu bati várias vezes e ninguém abriu e…
– Por isso que você achou que aqui fosse a porra da casa da mãe Joana e entrou? –  Ele sorriu seco,  pegou um cigarro e inspirou.  Pegou a xícara e tomou todo o conteúdo dentro. 
– Desculpa! Deus,  eu realmente agi mal! É que eu ouvi falar que você mexia com… 
– Eu não vendo drogas! Não tenho nada contra,  já vendi,  mas que se foda a vida alheia,  eu não vou acabar mais com a minha. 
– Não,  não é drogas.  Droga! –  A garota transpirava.  Tinha olhos grandes e vivos.  A pele clara contrastava com o curto cabelo negro. –  Eu quero fazer uma tatuagem. 
O homem nada disse,  jogou as cinzas no cinzeiro e tomou mais café. 
– Estou com fome.  Não tem nada aí pra comer? –  Ela olhou para a bolsa e pareceu desconcertada. 
– Nada,  desculpe. 
Porra! Para de pedir desculpas. Parece que sou um delinquente.  –  Ele sorriu revelando rugas ao redor dos olhos.  –  Não mexo mais com isso.  Alguém te passou a informação errada. Vai embora antes que escureça,  não sou um mocinho.  Sou um homem,  um animal.  –  Ela estremeceu,  tomou o restante do café frio. 
– Você devia parar de vir aqui Julie,  eu já morri.  Não é mais como era no dia em que nos conhecemos.  Mudou.  Você está sozinha. 
O homem havia sumido,  assim como o  cheiro de café,  as roupas,  os livros,  os discos,  o sapato,  a toalha,  o sabonete, os aparelhos de tatuador. 
Ela sentou no chão e chorou.  Tocou a pequena tatuagem negra em forma de flecha. Uma tatuagem idiota,  ele era o melhor dos melhores e ela havia pedido aquilo.  Mas ele havia a acertado com a flecha do amor.  Desde aquele dia,  desde o dia em que morreu.  Tanto tempo juntos e nenhuma salvação. 
– Eu só queria mais um tempo.  –  Nesse momento ela tocou outra tatuagem,  tão pequena e delicada como a outra.  Um relógio,  sempre mostrando que ela no era eterna.  Que ele se foi. 

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