Quando nós nos perdemos em nós mesmos não há circo que se apague.

– Cândinha, não grite.  –  A mulher tremia dos pés à cabeça.
– Eu grito o tanto que eu quiser velha! –  A mulher se encolheu num canto aos soluços. 
– Não faz isso com ela George,  não a maltrata.  –  Disse a velha pra si mesma.
– Sabe o que é Gê? Vocês estão acostumados a tratar as coisas como frescura e não problema.  MAS EU SOFRO UM PROBLEMA, ELE É ENORME. ACORDA! – Os olhos se fecharam na raiva, ela gritou e jogou uma almofada na parede.  O corpo magro revestido com o vestido negra e os saltos azuis andavam de um lado ao outro, como uma fera enjaulada.
– Você tem problemas demais. Não consigo ficar com você assim. – Ele estava parado bebendo whisky enquanto a olhava enlouquecer.
– Se você me amasse conseguiria, mas não quer.  Eu não tenho tantos problemas quanto você tem soluções.  –  Agora ela falava baixo, num sussurro até. 
– Me faça um chá Eleanor.  –  A velha raquítica levantou do canto e se foi num choro mudo. 
– Vou embora. 
– Vai. –  Ele fez menção de ir, mas voltou e chegou perto dela o bastante para um beijo soprado. 
– Ninguém vai ficar com você, você é um problema. 
– Todos somos. 
– Você vai ficar sozinha.  –  Ela sorriu. 
– Vou? Vou.  Ficar sozinha é o melhor pra mim, eu e o doutorzinho. – O homem empalideceu. 
– Você não faria isso. 
– Eu faria e faço mais.  Tenho os documentos. 
– Não faria.
– Você deveria ser o primeiro a saber que todos nós temos segredos, eu sei o seu. 
– Eu também sei o seu.
– Não sabe.  Não sabe mesmo. A porta é ali, vai embora antes que você seja o primeiro a saber e se arrependa antes mesmo de descobrir.  –  Ele a olhou com os olhos caídos,  se foi após cuspir no chão, um ato um tanto quanto infantil,  além do mais levou consigo o copo e a garrafa de whisky.  Desde cedo ela soubera com seu pai as artes do blefe e da mentira. Havia tanto tempo que mentia que já não sabia mais quem era. 
– O chá está pronto Eleanor? –  Ela se deitou no sofá e contemplou o teto.  O pior que saber era o não saber. 
Quando será que seus problemas iriam parar de ser seus?
A cortina se fechou e o primeiro ato deu o seu fim.
A platéia enlouqueceu, bateram palmas.  Uns foram comprar alimentos, outros foram ao banheiro,  outros foram encontrar amigos.  Mas ela continuou lá deitada no sofá,  continuou interpretando. Era apenas isso que ela fazia, representar um papel de si mesma.  E nunca sabia quando acabar.  Nunca saia do personagem. 
Ela era só mais uma que havia se perdido dentro de tantas outras. 
Ela era apenas uma representação de si. 

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