Formas de amar.

Sentou-se do lado dela e a olhou. 
De onde estava sentiu o seu cheiro, e este foi o suficiente.  Ali havia o amor na sua mais pura forma. Não havia necessidade de toque ou de palavras, um amor que já havia se transformado. 
Amor que poucos conhecem, amor que quase ninguém sentiu.  Amor que se dá por anos. 
Depois de minutos ambos morreram, se conheciam tão bem o amor já não eram mais desta Terra. 
O amor os levou.

Relacionamentos duradouros ou não.

– Deixei de te amar. 
– Quando?
– Não sei. Acho que não era amor. 
– Vai se fuder.
– Aí, sendo infantil.  Que raiva me dá quando você acha que só sua opinião vale. 
– Você vira pra mim e diz que parou de me amar e quer que eu diga o que? “Poxa, legal, agora vamos refletir sobre os valores axiológico desse sentimento ou a falta dele”.
– Vai te catar.
– Vai você. 
– Fiquei com você tempo o suficiente pra ver que eu não te amava. 
– Cara, cala a boca, você tá comigo tem dois meses.  Você nem conhece o cheiro da minha bosta e vem falar de amor. 
– Hunf.
– Depois elas querem dizer que somos cruéis e sacanas, a mulher nem tentou.  Vai se fuder também. 

A sede da vida que nos trás antes da morte.

– Antooooooonio, vai lá ó, tão batendo lá no portão ó.
– Qual é mãe, tô estudando. 
– Estudando o que moleque, vai abrir o portão. Você só fica no vídeo game, preguiçoso. Na hora de me ajudar resolve estudar.  –  A mulher continuou varrendo o chão.  No sofá estava sentado um homem carrancudo, olhava para a TV Ligar, mas não assistia nada. 
– É um mendigo pedindo um copo de água.  –  O rapaz alto e magro veio correndo. 
– Dê a água ao homem criatura! – A mulher já ia arrumando um pedaço de pão e qualquer outra coisa. 
– Não vai dar nada para vagabundo nenhum não. 
– Que isso Roberto, é um mendigo. 
– Um mendigo o que? –  O homem falou algo e ríspido, sem tirar os olhos da TV. –  É um vagabundo! Não vai dar água nenhuma pra vagabundo! –  Nesse momento ele olhou rapidamente para a mulher e o rapaz e cuspiu no chão onde ela havia limpado. 
O rapaz envergonhado pela atitude do pai foi até o portão pedir desculpas ao velho mendigo.  A mulher se sentindo humilhada limpou novamente o chão. 

Anos depois o rapaz havia crescido e se formado, já havia construído sua própria família e vivia em paz consigo mesmo. 
– Antônio? Meu filho? É seu pai, acho que ele está morrendo.  –  A velha mulher tinha a voz trêmula. 

– Marta me dê água. –  o homem rolava no chão tudo molhado, envolta de si estava uma enorme poça de urina. 
– Eu já dei quase um balde Roberto. 
– Mais Marta, me dê mais! –  Ela deu uma garrafa, ele virou de uma só vez. 
A maldição dele havia sido de morrer de sede e urinando. Morreria tal como viveu, seco. 
O que ele bebia de água ele urinava. Sua sede nunca tinha fim.  De tanto urinar o que havia bebido ele secou ao ponto de sobrar a pele e os ossos. 
– Me dê água Marta – Foi o que ele disse para a mulher que conservava um pano na cabeça. 
– Aqui em casa não se dá água pra vagabundo – Disse ela o olhando. Mas o homem já havia morrido em sua sede e em sua urina.
Morreu seco dentro de sua maldade.
Bem que minha avó dizia, negar água e comida aos outros é pecado.

Quando nós nos perdemos em nós mesmos não há circo que se apague.

– Cândinha, não grite.  –  A mulher tremia dos pés à cabeça.
– Eu grito o tanto que eu quiser velha! –  A mulher se encolheu num canto aos soluços. 
– Não faz isso com ela George,  não a maltrata.  –  Disse a velha pra si mesma.
– Sabe o que é Gê? Vocês estão acostumados a tratar as coisas como frescura e não problema.  MAS EU SOFRO UM PROBLEMA, ELE É ENORME. ACORDA! – Os olhos se fecharam na raiva, ela gritou e jogou uma almofada na parede.  O corpo magro revestido com o vestido negra e os saltos azuis andavam de um lado ao outro, como uma fera enjaulada.
– Você tem problemas demais. Não consigo ficar com você assim. – Ele estava parado bebendo whisky enquanto a olhava enlouquecer.
– Se você me amasse conseguiria, mas não quer.  Eu não tenho tantos problemas quanto você tem soluções.  –  Agora ela falava baixo, num sussurro até. 
– Me faça um chá Eleanor.  –  A velha raquítica levantou do canto e se foi num choro mudo. 
– Vou embora. 
– Vai. –  Ele fez menção de ir, mas voltou e chegou perto dela o bastante para um beijo soprado. 
– Ninguém vai ficar com você, você é um problema. 
– Todos somos. 
– Você vai ficar sozinha.  –  Ela sorriu. 
– Vou? Vou.  Ficar sozinha é o melhor pra mim, eu e o doutorzinho. – O homem empalideceu. 
– Você não faria isso. 
– Eu faria e faço mais.  Tenho os documentos. 
– Não faria.
– Você deveria ser o primeiro a saber que todos nós temos segredos, eu sei o seu. 
– Eu também sei o seu.
– Não sabe.  Não sabe mesmo. A porta é ali, vai embora antes que você seja o primeiro a saber e se arrependa antes mesmo de descobrir.  –  Ele a olhou com os olhos caídos,  se foi após cuspir no chão, um ato um tanto quanto infantil,  além do mais levou consigo o copo e a garrafa de whisky.  Desde cedo ela soubera com seu pai as artes do blefe e da mentira. Havia tanto tempo que mentia que já não sabia mais quem era. 
– O chá está pronto Eleanor? –  Ela se deitou no sofá e contemplou o teto.  O pior que saber era o não saber. 
Quando será que seus problemas iriam parar de ser seus?
A cortina se fechou e o primeiro ato deu o seu fim.
A platéia enlouqueceu, bateram palmas.  Uns foram comprar alimentos, outros foram ao banheiro,  outros foram encontrar amigos.  Mas ela continuou lá deitada no sofá,  continuou interpretando. Era apenas isso que ela fazia, representar um papel de si mesma.  E nunca sabia quando acabar.  Nunca saia do personagem. 
Ela era só mais uma que havia se perdido dentro de tantas outras. 
Ela era apenas uma representação de si. 

Não está morto, mas estou com saudades.

Ah, como dói, nós viuvas ter que chegar em una casa vazia, com todo o cheiro do falecido jogado pelas partes.
Ah, como nós somos sofridas, abraçamos suas roupas e apertamos o que não esta preenchido.
O cheiro deles por toda parte, impregnado em nossos corpos.
Como dói o nosso coração vazio e esburacado cheio dos teus cheiros.
Cheiros de amor perdido.
Tão só.

Como sofrem as viúvas, e teus narizes com memórias bonitas.

Segredos que compartilhamos ao tempo.

Não me lembro bem qual foi a última vez em que me perdi.
Antes era só uma putinha, e agora também escrevo.
Devia encarar teus  meigos?
Devia afagar teus lábios macios?
Antes era só eu, mas também agora é ele.
A classificação de nós.
O tempo ao tempo.
Me perdi em teu coração.
E meus versos se fizeram náufragos.
Agora sei o que é amor.
Perder-se em tempos bons.

– O que estava escrevendo?
– Nada.
– Nada? Então deixe que eu leia.
– Oras, não é porque eu não tenha escrito algo que goste ou que preste que você possa ler.
– Frescuras.
– Então sou fresca.
– Confesso que um pouco quente.
– E você pervo.
– É o amor.
– É a taradisse!
– Ganhei um presente embolado num jornal.
– O que era?
– Um livro.
– Quem deu?Bom?
– O D. Depende do que é bom.
– Hum, o D. O que achou?
– Achei no jornal um classificados.
– Uau, menos mal. Pornô em jornal seria o cúmulo.
– Sério, algo interessante.
– O que era?
– Um anúncio de um cara apaixonado que pedia a mulher ou homem, sei lá, em casamento.
– Aposto que estava na parte de Vendas. Casamento é só negócios.
– E nós?
– Somos uma meia remendada que não sai do pé.
– Cedo, achei que seria mais romântica.
– E sou.
– Então explica.
– Ela tem buracos e chulé, mais dura.
– Chega né.
– Volta pro teu jornal.
– Deixe eu ler os versos.
– São você.
– Sério? Vai deixa..
– “ Os teus olhos de menino que tao tristemente me fascina; os teus gestos de homem, que tão amavelmente me toca; o teu bafo de onça, que tao fedidamente me desmaia…”
– Gostou?
– Hahaha, vem cá beijar o teu bafo de onça!
– Não, eu imploro pela minha vida! Socorro – mas já era tarde demais.