O tilintar do destino.

Andou até certo ponto.  Lhe doía não doer.  O corpo todo tilintava, feito de vidro, vivia com medo de se quebrar.  O coração batia brutalmente no peito, se ele fosse um pássaro por certo já estaria voando.  Suas veias brilhavam sobre o vidro.  Cada passo um tilintar. 
– Não posso! –  Ele gritava engasgado por sobre as lágrimas, como lhe doía andar. 
Seus olhos entupidos de água suja transbordava no Rio, e ele era o Rio. 
– Por que fiz isso? –  O pobre homem de vidro tinha tanta sede, tinha tanta fome.  Era tão frágil seu corpo. 
– Não chore meu querido –  Uma doce menina disse para ele. 
Ela veio saltitando sobre os pequenos sapatos verdes brilhantes.  Chegou perto e o abraçou.  Houve um estalo. 
O vidro se trincou, o homem se trincou. 
A pequena menina sorriu tristemente, passou as mãos no rosto delicado do homem.  Todo esculpido. 
Ela chegou perto, encostou os seus lábios nos lábios de vidro e docemente colocou a língua dentro da boca dele. 
Ela a beijou apaixonadamente.  Ele chorava ainda mais. 
– Não chore, estou aqui.  –  Ela o acariciou.  O homem de vidro teve sua língua quebrada.  Ele não pode falar nada, perdeu as palavras. 
– Não fiz por mal.  –  Disse ela, toda maldosa. O olhar acusador do homem à abalou. 
– Fique sozinho –  Ela riu alto, mas sem os olhos se mexerem, sem os lábios se curvarem.  Um riso amedrontado.  Um riso forçado.  A menina tirou a roupa e jogou o corpo no Rio do homem, nadou em sua dor.  Mergulho em seus medos, bebeu de seus desejos. Se lavou em seus pecados. 
O homem a olhou com ódio, não tinha mais lágrimas para ela, sua dor havia se transformado em ódio.  Sem nada poder dizer, sem nada poder fazer, ele se quebrou em várias partes.  Seu corpo virou areia, seu sangue virou lava.  O homem secou o Rio, seu corpo virou o mundo.  Sem palavras e morto ele mais disse do que diria em vida.  A menina pequena se desfez no fogo em forma de lava.  O riso entalhado no ar acabou sendo um grito, o homem de vidro a matou.  Mais do que uma morte, ele cometeu duplo assassinato. 
O que sobrou do homem vidro? 
Os olhos viraram sol e lua.  O homem vidro novamente se transformou. 

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