O mundo não foi feito para habitar os sinceros.

– Sobretudo as minhas amarguras me torturam.  –  Ele alisou o casaco e olhou seu companheiro de ônibus. Estava ansioso, afinal era seu defeito-qualidade ser assim, e achou que poderia falar de sua maior angústia. Mas mal terminou de dizer, quando ia completar o homem o interrompeu.
– O que você disse? Ah, amarguras.  Hoje em dia o povo acha que sofre de depressão, a doença do século, blá, blá, blá. Mas estão precisando mesmo é de um cabo de vassoura! – O homem cuspia enquanto falava, além do fato de se sentir o maioral.  Fez dar a entender que o nosso incrível e tosco protagonista era depressivo à frescuras.
– O senhor me perdoa, meu ponto está chegando. –  Ele se levantou com mal jeito e passou para o outro lado segurando o ferro de apoio.
– Não sofro de depressão. Sofro da amargura de ter que conviver no mundo com pessoas como o senhor, que além de ignorante e metido a sabichão, também tem mau hálito! Passar bem.  –  Os outros passageiros ficaram olhando o nosso personagem sair do ônibus normalmente. E pensavam com medo, que homem sincero. Ou até mesmo, que falta de educação.
Mas na verdade o nosso gentil cavaleiro sofria de verdades, ou melhor,  sinceridade.
No caminho ele ia passando deixando seu rastro de destruição. 
– Aqui tem esse cheiro mesmo ou a senhora está com gases? – Perguntou ele para a moça do caixa, enquanto comprava umas balinhas de menta. E assim vivia ele, sendo sincero e mal interpretado.

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Cotidiano geral.

Ela estava sentada na privada quando a urina começou a descer. 
– Como é engraçado esse mundo né.  Tem alguém agora fazendo sexo, matando outra pessoa, morrendo, nascendo, chorando, sorrindo, depressivo, alegre. 
– Essa pessoa é bipolar –  Ele estava passando o fio dental nos dentes de dentro pra fora. 
– Haha, engraçado você heim! Você entendeu né, são milhares de pessoas fazendo isso. 
– É você aí mijando. 
– Já terminei. 
– Vai ficar sentada aí por quanto tempo?  – Gosto de ficar sentada na privada pra pensar. 
– Sério? –  Ele fez uma pausa, colocou água na boca e depois cuspiu –  Pensei que gostasse de ficar vendo filme pra pensar. 
– Também, mas aqui é calmo.  Não entendo, eu gosto. 
– É nós?
– Como assim?
– O mundo está rodando, as pessoas estão negociando, empobrecendo, enriquecendo, transando, morrendo, nascendo, matando, torturando.  O que estamos fazendo?
– Vivendo. – Ela se limpo, deu descarga e tirou o restante da roupa.  –  Vai tomar banho comigo?
Ele a olhou de soslaio e sorriu. 
– Você está bem convidativa, mas não posso entrar pro time dos que estão transando agora.  Tenho que entregar aquela maquete que fiz ontem, o Arnaldo já ligou aqui, o engenheiro já está esperando. 
– Ah é, boa sorte! –  Ela esticou o pescoço para fora do boxe e os dois se beijaram.  Ele saiu no momento em que ela começou a se esfregar com sabonete. 
Eles eram apenas mais uns dos milhões de pessoas que estavam vivendo o cotidiano.  Suas vidas eram um ciclo é todos nós participamos dele. 

Empilhado nas minhas amarguras.

Andei. 
Pisei em cacos brandos. 
De toda dor que tive
Você foi a que me restou. 
A cada melodia
Um toque é uma batida
Meu coração fechado,  cansou. 
Você realmente foi tudo que me restou. 
Se me dói pisar no chão estiçalhado
Se me dói pensar nos teus lábios rosados
Muito mais me dói, saber que nada me restou. 

De todas ilusões que tive
A maior delas foi pensar em você e no teu nome tão pequeno. 
Volte aqui menina. 
Volte com teus braços finos
Teu abraço quente
Teu mundo inteiro em mim. 

Andei
Por onde passei olhava e via,
Teu cabelo longo e bagunçado
Tuas pernas brancas e pequenas. 
Sobe em cima de mim
Eu te carrego o mais longe da terra. 

De todo mal que me restou
Você não estava nele
Se foi. 
Doeu. 
Me deixou. 
De todo amor que eu tinha
Você levou. 
Tudo o que me sobrou foi meus pedaços sem vida. 

Já é dia
E eu ainda não acordei. 
Não é que você dizia?
O meu sol, minha lua. 
E agora, o que faço com toda essa escuridão na minha vida?

Tudo o que eu tinha você levou
Meu amor. 

Tic-Tac de hora marcada.

Se chamava Seis horas. 
Mas sempre quis ser Meia noite. 
O ponteiro das doze horas. 

Com tanta vontade de ser madrugada,
Começava tarde a amanhecer. 
Quem sabe se fosse rápida se transformaria em outra hora. 

Resolveu então mudar,
Do que adianta ficar só numa hora. 
Do que adianta esperar?

Um dia, mais do que os outros,
Ela saiu a andar. 
Andou, andou. 
Achou o que queria. 
Todas horas reunidas. 
Chamou então aquele conjunto de relógio. 
Por que não?
Se transformou então em vários segundos. 
De dia foi para a noite. 
Trocou de lugar com as Vinte e duas. 
Passou paras as Vinte e três. 
Quando se transformou em zero horas cansou.
Como era bom ser todas horas. 

Em um dia de tanto mudar
Ela travou. 
Dormiu num sono eterno entre os minutos do relógio. 
Parou o mundo. 
Hibernou a terra. 
Eram tantas horas que esqueceu a conta.
Banida daquele mundo virou nada mais que criança. 
A pequena menina tristemente olhou para o relógio e lembrou como era ser o tempo. 
Ficou olhando por tanto tempo aquele tempo. 
Travou. 
Uma menina de hora marcada. 
Às seis horas, já amanhecendo ela partiu. 
Não era mesmo que a pequena menina nasceu para ser Aurora.

O tilintar do destino.

Andou até certo ponto.  Lhe doía não doer.  O corpo todo tilintava, feito de vidro, vivia com medo de se quebrar.  O coração batia brutalmente no peito, se ele fosse um pássaro por certo já estaria voando.  Suas veias brilhavam sobre o vidro.  Cada passo um tilintar. 
– Não posso! –  Ele gritava engasgado por sobre as lágrimas, como lhe doía andar. 
Seus olhos entupidos de água suja transbordava no Rio, e ele era o Rio. 
– Por que fiz isso? –  O pobre homem de vidro tinha tanta sede, tinha tanta fome.  Era tão frágil seu corpo. 
– Não chore meu querido –  Uma doce menina disse para ele. 
Ela veio saltitando sobre os pequenos sapatos verdes brilhantes.  Chegou perto e o abraçou.  Houve um estalo. 
O vidro se trincou, o homem se trincou. 
A pequena menina sorriu tristemente, passou as mãos no rosto delicado do homem.  Todo esculpido. 
Ela chegou perto, encostou os seus lábios nos lábios de vidro e docemente colocou a língua dentro da boca dele. 
Ela a beijou apaixonadamente.  Ele chorava ainda mais. 
– Não chore, estou aqui.  –  Ela o acariciou.  O homem de vidro teve sua língua quebrada.  Ele não pode falar nada, perdeu as palavras. 
– Não fiz por mal.  –  Disse ela, toda maldosa. O olhar acusador do homem à abalou. 
– Fique sozinho –  Ela riu alto, mas sem os olhos se mexerem, sem os lábios se curvarem.  Um riso amedrontado.  Um riso forçado.  A menina tirou a roupa e jogou o corpo no Rio do homem, nadou em sua dor.  Mergulho em seus medos, bebeu de seus desejos. Se lavou em seus pecados. 
O homem a olhou com ódio, não tinha mais lágrimas para ela, sua dor havia se transformado em ódio.  Sem nada poder dizer, sem nada poder fazer, ele se quebrou em várias partes.  Seu corpo virou areia, seu sangue virou lava.  O homem secou o Rio, seu corpo virou o mundo.  Sem palavras e morto ele mais disse do que diria em vida.  A menina pequena se desfez no fogo em forma de lava.  O riso entalhado no ar acabou sendo um grito, o homem de vidro a matou.  Mais do que uma morte, ele cometeu duplo assassinato. 
O que sobrou do homem vidro? 
Os olhos viraram sol e lua.  O homem vidro novamente se transformou. 

Dor que paira em órbitas oculares. Planetas fora de Plutão.

Ela estava pintando as unhas há horas.  – Suas unhas estão feias.  –  Quem disse isso?  Ela. 
Continuou pintando até que os dedos estivesse todos pintados.  Seus olhos secaram, ela pegou o lubrificante ocular e pingou nos olhos secos. 
Jogou o esmalte na parede e fechou os olhos.  Gritou, gritou até que sua garganta doesse.  Chorou até que seus olhos secasse. 
Não adiantava ela gritar, ninguém escutaria.  Ela queria sorrir, não, não queria. Mas sorriu. 
Suas paredes estão todas pintadas de esmaltes, de várias cores eu os vejo, mas ela apenas os vê em tons de preto, branco e cinza.  Deitou na cama quebrada do lado de um cadáver. 
– Quem é?  –  Perguntou a mesma voz. 
– Você –  Ela chorou silenciosamente, seus olhos secaram.  O colorido havia acabado.  Então, sem mais, ela pegou o cabo do esmalte e furou suas órbitas.  Sangrou diante de todo aquele caos, seus olhos vazaram.  Mas nem assim, mesmo assim, ela não viu vermelho, eram tons de preto. 
Ela não pode fazer mais nada, pegou uma corda e enrolou no pescoço.  Seu corpo ficou pendurado, olhando para o outro corpo, que também era seu. 
– Então ela disse ” Senhor, afinal é crédito ou débito?”  –  Nesse momento todos riram, e ela se forçou a rir mecanicamente.  Mesmo que dentro houvesse só sangue e cadáveres.  Será que eles não percebem, ela está morta! 

Pró-verbos.

Aos que dizem sobre o amor próprio. 
Eu me odeio. 
Não percebe que você é o diabo? 

Meu corpo moradia do bem. 
Minha carne minha prisão de bem. 
Guarda meu mal. 
Sou mau. 

Não funciona se você tentar. 
Mesmo os dias vagos. 
Olhe no espelho e diz
“Eu me odeio.”

Podres por natureza.
Não há depressão aqui. 
Não há dor aqui. 
Verdade. 
Um monstro. 

Me leve. 
Me tire desse corpo corrupto.
Me tire desses olhos infames. 
Meu olhar maligno. 
Minhas palavras mansas. 

Sou má. 
Vá. 
Aqui não funciona negócio. 
Ou sim ou não. 
O preto no preto. 
O branco no branco. 
Sem tons de cinza. 
Sem tons de marrom. 

Sou má. 
Nem me cabe um mar. 
Minha bagunça infernal. 
Sou só. 
Eu. 
Ele. 
Meu Amado eternal. 

Segredo feito a base de medo.

Os passos ecoaram no chão de madeira.  Ela andava de uma forma cansada e com um copo na mão. 
– É você?  –  Um homem alto e belo vinha em sua direção, nas suas mãos haviam várias fotos. 
– Sim.  –  Ele olhou as fotos, não havia nada em seu rosto. 
Ela se sentou e cruzou as pernas. 
– Quantos anos tinha?
– Dezesseis –  Outro gole.  Ela olhou para ele com seus olhos cansados. 
– Por que nunca me contou? 
– Nunca quis que acontecesse.  Sempre quis esquecer. 
– Deveria ter me contado. 
– Por que?  Por que seria tão importante te contar? Qual a diferença?
– Eu entenderia. 
– Não preciso que entenda. 
– Foi consensual?
– Olha bem e diz se foi.  –  Ela terminou de beber o que quer que havia no copo e fechou os olhos. 
– Me conta. 
– Sabe quando você conhece uma pessoa e pensa que pode confiar sua vida nela que ela vai te proteger?  Então, foi assim.  Só que ele não fez isso.  Eu era nova e tola, achava que o amava.  Nunca quis que isso acontecesse. 
– Não havia Internet na época. 
– Ainda bem. 
– Você está bem?
– Hoje estou. 
– E antes?
– Não. 
– Doeu muito?
– Mais do que eu poderia afirmar. 
-Me desculpe. 
– Pelo que?  –  Ela riu alto. 
– Te julgar. 
– Você é humano.  É sua natureza. 
– Posso ficar com elas?
– Claro. 
– E as outras?
– Apaguei. 
– O que houve com ele?
– Só Deus sabe.  –  Ele foi até ela, passou a mão em seu rosto pálido e a beijou na tez. 
– Amo você. 
– Eu sei.
– Não me ama?
– Amo. 
– Por que não diz. 
– Porque sinto.  –  Ela sorriu, se levantou e foi embora deixando para trás um quê  de seu perfume.  Ele ficou contemplando o vazio e as fotos.  Não sabia o que ela sentia, mas também doeu nele. 
Por fim ficou escuro na sala e ele adormeceu em seu próprio medo.  as fotos foram queimadas na lareira, e o segredo morreu com ambos. 

Desejar a quem amar

Te desejo um intestino bom, e que realmente possa dar boas cagadas nesse ano. 
Te desejo sorrisos verdadeiros, e que possa perder o medo de dizer não. 
Te desejo que perca a insônia, e que possa parar de perder o sono. 
Te desejo determinação, e que a sua desorganização não te impeça de realizar teus sonhos. 
De desejo que largue os controlados. 
Te desejo o que desejo tudo dia em dobro por ano. 

O que desejamos para quem amamos e realmente conhecemos.  Como para aquela pessoa que sofre de sofrer de calvície.  Ou aquela que sofre de baixo ou sobre peso.  Desejar amor, paz, saúde é o que devemos desejar todo dia.  O resto buscamos e realizamos.  No demais Deus nos ajudará.