Os mortos estão vivos.

– Onde estão todos? – Do lado de fora era o caos. Gritos, choro, sirenes, fogo, batidas de carros. Mas não mais pior que eles.
Seres horrendos correndo atrás das pessoas. Não podres, mas feridos, seus corpos mutilados, seus olhos vazios, sua fome enlouquecendora.
– Anda menina, corre! – Minha mãe estava com meu irmão no colo, ele tinha apenas três anos, mas tão inteligente como um de sete.
– O que aconteceu? – Minha mãe tinha um ar cansado, estava com umas cinco malas grandes do lado.
– Já juntei suas roupas, vamos. – Me senti violada, aquele quarto era parte de mim, não podia o deixar. Cada objeto meu tinha uma história.
– Não! – Meu avô apareceu na porta com meu outro irmão de 14 anos. Meu avô tinha o olhar vago, nunca me pareceu tão velho.
– Não quero ir – meus olhos se encheram de lágrimas involuntárias. Nisso minha mãe olhou pela janela.
– Vão nos matar. – Ela passou a mão no rosto do pequeno Pedro e se sentou. – Vamos morrer.
Meu coração acelerou tão forte que me parecia não estar batendo de tão violenta eram suas batidas.
Meu instinto sobrevivente urrou dentro de mim, juntei tudo o que me pareceu importante naquele momento e coloquei numa enorme mala.
– Vamos viver – meu irmão Marcos me olhou sem interesse, em sua mão tinha um videogame portátil de energia solar.
Corremos entre a catástrofe que se seguia ao nosso lado, humanos e mortos-vivos.
– Ainda bem que seu pai está viajando. – Uma esperança se apossou de mim, juntamos as malas num carro e minha mãe dirigia loucamente sobre o caos.
Todas aquelas pessoas correndo, matando e morrendo.
– Quando isso aconteceu?
– Do nada. – Pedro me olhou, como se ali eu fosse a criancinha e não ele. Nunca o vi tão quieto.
– O senhor está bem vô?
– Bem? Hum, tô sim. – Viajamos por tanto tempo quanto a gasolina durou, até que minha mãe achou um posto e abasteceu o carro, e como o posto era fora da cidade e estava abandonado ela aproveitou pra encher o máximo de recipientes possíveis.
– O seu avô não está em condições de dirigir, então você dirige. – Quantos dias/semanas se passaram?
– Vamos nos separar?
– Não, jamais. Vamos apenas buscar toda comida, remédios e gasolina possível, mas tudo não caberá num só carro. Você dirige.
– O que houve com avô? – Ela olhou para ele que mancava de uma perna ao ponto de arrasta-la.
– Ele não está bem – meu coração doeu, ninguém ali estava bem. Já havíamos matado mais mortos-vivos que eu pudesse contar. Pedro tinha um olho opaco, como se uma cegueira o houvesse atingido, mas ao menos ainda estava são. Minha mãe tinha os olhos fundos e a pele parda, seu corpo perdia peso a cada dia. Marcos olhava apenas para o videogame portátil, e quando falava com ele não se tinha resposta.
E eu? Bem, eu continuava sendo eu, só que sem fome de comida.
– Tudo bem. – Peguei as chaves que ela me entregou e fui procurar o carro das chaves.
– Sério? De tantos pra roubar tinha que ser logo esse velho?
– O único com combustível. – entrei no carro e ficou comigo vovô e Pedro, os dois dormiam juntos. Mãe e Marcus saíram pra procurar providências, a noite vinha silenciosa e negra.
– Acorda, Bia, acorda – Onde estou? Respira. Acordo assim desde o primeiro dia.
– Que horas são?
– Tarde.
– Porque demorou?
– Encontrei uns… Humanos. – Sua fala era lenta e arrastada, quando se tornou assim?
– Humanos? Um de nós, quis dizer?!
– Não, humanos – seus olhos eram vazios e expressivos. Olhei todos ao meu redor, foi assim que percebi que não havia percebido há tempos. Todos nós ali estávamos infectados.
– Vão nos matar, os humanos.
– Não vão! – Disse ela pegando Pedro. Marcos dormia agarrado a um travesseiro em forma de uma bola de futebol.
– Somos monstros.
– Não somos. – Ela estava tão cansada. – Não chore Bia, vamos achar uma cura.
– Não vamos! – Lágrimas rolavam me sufocando – vamos morrer.
– Os humanos conversaram comigo, não perceberam. Somos diferentes, não comemos humanos. Venha aqui, ajude seu avô, ele está torto. – Nesse momento eu peguei o travesseiro bola de Marcus e coloquei na cabeça de meu avô, encostei Marcus em outro travesseiro, peguei Pedro e o deitei entre ambos. Sentei no banco da frente e liguei a direção.
– Pra onde vamos?
– Pra cidade. – Minha mãe estava fraca.
– Mas não estão liquidando todos? – Ela me sorriu.
– Te garanto, não estamos diferentes dos humanos – mesmo assim dentro de mim gelou.

– Estão nos olhando desconfiados.
– Não, estão te olhando com desejo. – Corei. Realmente, pela falta de praticidade eu estava usando apenas um top rosa claro, um short jeans curto, tênis e meu cabelo louro solto.
– Vamos aproveitar disso – Marcos vinha ajudando meu avô que arrastava a perna esquerda.
– Ei! – Gritou um rapaz alto, bonito, louro e armado até os dentes. – Porque o velho está se arrastando?
Aí meu Deus, aí meu Deus.
– É o meu pai – disse minha mãe com sua voz arrastada. – Perdeu a cadeira de rodas no caos, ele tem a perna atrofiada.
O rapaz desfez do olhar assassino e ajudou meu irmão carregar vovô.
– Desculpe senhora, meu nome é Benício.
– Tudo bem Benício, agirá vamos embora, tem dias que não durmo e como pode ver estamos todos cansados. – Pedro cochilava no colo de minha mãe, a rua em que estávamos era toda cercada, havia jovens e velhos de guarda. Meu coração disparava, se descobrissem já era.
– Pra onde vão? – Ele perguntou sem tirar os olhos de mim. Eu era a única não afetada fisicamente entre nós familiares.
– Edifício Tora.
– Eu os levo.
– Minha mãe sorriu, por um momento ela não parecia estar diferente das várias semanas passadas.
– E quem nos protegerá Benício? Agradeço sua ajuda, mas pode deixar, Marcus carrega papai sozinho. – O garoto realmente é forte, segurou meu avô sozinho e continuou andando sem olhar pra qualquer lugar fixo.
Nisso Pedro acordou chorando.
– Mas Benício, tem umas malas no carro e eu acho muito perigoso Bibiana as trazer sozinha, pode a ajudar? – O rosto do rapaz se iluminou.
– Será um prazer senhora. – Minha mãe assentiu e continuou andando.
– Tem muito tempo que estão sozinhos?
– Uhum.
– Está com medo?
– Estou – ele estendeu a mão para mim e fomos andando.
Já com as malas, subi até em casa e as guardei, depois fui para o último andar com o garoto.
– Você é linda – ele sorriu. Só porque é o fim do mundo cara?
Eu estava com fome. Nunca havia sido beijada.
– Me beija? – Ele sorri, e que sorriso. Chegou até mim e me abraço.
O primeiro beijo, suave e reconfortante. O segundo eu o morri, o terceiro o comi.
Nunca me senti tão satisfeita.
Mal havia sobrado ossos. Fui para casa e chegando la sentei a mesa.
– Fizemos bem aqui. Agora todos comem verdura que ajuda a desacelerar o processo que estamos. – Mordi um grande brócolis.
Estávamos no começo de uma grande coisa.

Anúncios

Comente.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s