Demoníaca humana.

Mordi-lhe os suculentos lábios até que uma pequena demonstração vermelha do sangue puro aparecesse. O gosto de ferro forte me encheu. Passei as mãos sobre os seios não tão grandes, mas que demoníaca, me fascinava, me excita só de olhar.
– Me beija? – Deixou intrínseco o “onde”. Beijei onde me deu vontade. Ah, que lábios!
O corpo dela pagava fogo, e toda essa chama me consumia, fiquei bêbado de gozo.
– Você me enlouque – Mas do que adianta fizer isso? Já sou louco, a jogar na parede de costa, puxando o cabelo molhado do nosso suor, só fez provar o diagnóstico.
– Louco – Ela riu tilintando o ar como se fosse como um copo cheio de champanhe.
Tentou se desvencilhar de meu laço, adoro a enlaçar. O corpo tão pequeno, tão perfeito, tão encaixe no meu.
Parecia uma obra de arte a ser agraciada, nada que eu não fizesse. Coloquei minhas mãos em obras, como um cego a conheci pelo tato. Os lábios que já estavam vermelhos de meus beijos ficaram ainda mais machucados com as mordidas que ela mesmo deu, todas por mim, todas para mim. Ah, como me sinto em gozo, como sei que meus dedos a embebeda no mesmo champanhe que bebo.
Champanhe amor, conhaque não chega nem perto desse sabor.
– Agora! – Ela gemia. Mas qual é a alegria de dar o que ela não quer? Ela realmente quer mais, mais de minhas mãos, mais de meus lábios. E eu sou todo dela.
Minha demônia é humana. Me seduz com seus pecados.
Não me canso de cansar, os copos suados lutando em uma dança eterna de prazer.
– Agora. – Pobre de mim que cai em teus encantos.

Anúncios

Do seio ao peito.

O coração era tão duro que mal se sabiam do recheio.
– Faço tudo por você meu amor, por que não pode fazer tudo por mim? – E nos belos olhos que já haviam tanta tristeza havia o amor, e o amor dominava o olhar, o amor e o mal.
O homem a olhou e no seu olhar só havia amor, quanto amor pode caber dentro de um homem que só sabe amar?
O amor é cego e deixa cego.
– Eu faço tudo por você. – E o ego dele crescia, ele a amava, ele a sentia a amar.
– Mate – o. – Doeu.
– Mas minha rainha, minha lady, eu não posso. – Ela se virou.
– Como não pode? Assim como não me ama? Eu que te salvei e o deixei de salvar de minha loucura. – Aos gritos – Você me salvou da minha loucura. E não me ama? Se teu amor é tudo o que tenho?
– O que ele fez? – O sentido dele dele gritava, um inocente, sabia. Quantos havia matado por amor a ela? – Não o matarei.
– Eu sei, sei que não o matará – No que se dizia que ela podia chorar ela chorou. – Por isso eu o matarei.
– Ele é um inocente.
– Não a ele, você. – As mãos dela entraram no seu peito e de lá arrancou tudo o que havia, e tudo o que havia era somente ela, que o seu amor era maior que ele, somente dela.
Todo o amor dele se esvarou, assim como ela, se desintegrou. Destruiu a si com as próprias mãos. Geraldine, Randall Fischer.

Diversas formas de coração.

– Pra onde está olhando?
– Uh? – Piscou uma vez, se esticou deixando a mostra os seios pequenos e a barriga lisa. – Nada.
O homem a olhou de soslaio, não obrigava a olha-la. Da mesma forma como não perguntava se ela estava arrependida. Dava ânsias só de imaginar a resposta, diante que o olhar dela já dizia tudo.
– É um quarto agradável. – Virou-se para ele, encaro-o de forma jovial.
Onde estava a mulher que há pouco mordia-lhe os lábios, arranhava as costas, sugava-o com fome?
– Eu os construí. – Subentendido.
– Com as próprias mãos? – Os pequenos olhos se abriram de forma exagerada, como ela poderia se parecer com uma menina tão facilmente?
– Não, com meu dinheiro. – A risada dele não chegou ser alta, mas foi o suficiente pra ser uma risada.
Ele deitou de costas pra ela, o dia estava claro, mas havia tanto sono dentro de si. Ela parecia-lhe uma criança. Fechou os olhos, mas o coração começou a bater rápido quando ela deitou-se em suas costas roçando o cabelo curto e o esquentando com o pequeno corpo quente.
– Gosto de você. – Será que ela não sabia que aquelas eram palavras perigosas? Que faz um homem ter desinteresse em tal mulher? Mas ela não parecia ter medo.
– Hum. Você está mordendo minhas costas? – Ela riu, e o abraçou com o corpo todo. Ele a jogou sobre o corpo, dominando-a pra ele. – Ninguém morde minhas costas. – Ela riu, a risada dela o levou para um lugar que poucos homens conhecem. Nisso ele a beijou, não como um louco, não como um bobo, mas com necessidade.
– Você também gosta de mim?
– Ah, é? – O corpo dele gritava o nome dela, ardia só de não a ter.
– É – e ela era decidida.
Não queria parecer um bruto, mas puxar o cabelo dela e a ver em chamas era tão necessário naquele momento como um homem sedento no deserto ao lado de um copo de água.
Ambos estavam sedentos.
– Gosta. – Não sabia ao certo o que ela queria dizer com aquilo, mas ele gostava.
Voltaram a brincar nus, um dentro do outro. De diversas formas. Um sendo o outro. Gostar não importava mais, ele voltou a ser selvagem e ela era sua presa.

Os mortos estão vivos.

– Onde estão todos? – Do lado de fora era o caos. Gritos, choro, sirenes, fogo, batidas de carros. Mas não mais pior que eles.
Seres horrendos correndo atrás das pessoas. Não podres, mas feridos, seus corpos mutilados, seus olhos vazios, sua fome enlouquecendora.
– Anda menina, corre! – Minha mãe estava com meu irmão no colo, ele tinha apenas três anos, mas tão inteligente como um de sete.
– O que aconteceu? – Minha mãe tinha um ar cansado, estava com umas cinco malas grandes do lado.
– Já juntei suas roupas, vamos. – Me senti violada, aquele quarto era parte de mim, não podia o deixar. Cada objeto meu tinha uma história.
– Não! – Meu avô apareceu na porta com meu outro irmão de 14 anos. Meu avô tinha o olhar vago, nunca me pareceu tão velho.
– Não quero ir – meus olhos se encheram de lágrimas involuntárias. Nisso minha mãe olhou pela janela.
– Vão nos matar. – Ela passou a mão no rosto do pequeno Pedro e se sentou. – Vamos morrer.
Meu coração acelerou tão forte que me parecia não estar batendo de tão violenta eram suas batidas.
Meu instinto sobrevivente urrou dentro de mim, juntei tudo o que me pareceu importante naquele momento e coloquei numa enorme mala.
– Vamos viver – meu irmão Marcos me olhou sem interesse, em sua mão tinha um videogame portátil de energia solar.
Corremos entre a catástrofe que se seguia ao nosso lado, humanos e mortos-vivos.
– Ainda bem que seu pai está viajando. – Uma esperança se apossou de mim, juntamos as malas num carro e minha mãe dirigia loucamente sobre o caos.
Todas aquelas pessoas correndo, matando e morrendo.
– Quando isso aconteceu?
– Do nada. – Pedro me olhou, como se ali eu fosse a criancinha e não ele. Nunca o vi tão quieto.
– O senhor está bem vô?
– Bem? Hum, tô sim. – Viajamos por tanto tempo quanto a gasolina durou, até que minha mãe achou um posto e abasteceu o carro, e como o posto era fora da cidade e estava abandonado ela aproveitou pra encher o máximo de recipientes possíveis.
– O seu avô não está em condições de dirigir, então você dirige. – Quantos dias/semanas se passaram?
– Vamos nos separar?
– Não, jamais. Vamos apenas buscar toda comida, remédios e gasolina possível, mas tudo não caberá num só carro. Você dirige.
– O que houve com avô? – Ela olhou para ele que mancava de uma perna ao ponto de arrasta-la.
– Ele não está bem – meu coração doeu, ninguém ali estava bem. Já havíamos matado mais mortos-vivos que eu pudesse contar. Pedro tinha um olho opaco, como se uma cegueira o houvesse atingido, mas ao menos ainda estava são. Minha mãe tinha os olhos fundos e a pele parda, seu corpo perdia peso a cada dia. Marcos olhava apenas para o videogame portátil, e quando falava com ele não se tinha resposta.
E eu? Bem, eu continuava sendo eu, só que sem fome de comida.
– Tudo bem. – Peguei as chaves que ela me entregou e fui procurar o carro das chaves.
– Sério? De tantos pra roubar tinha que ser logo esse velho?
– O único com combustível. – entrei no carro e ficou comigo vovô e Pedro, os dois dormiam juntos. Mãe e Marcus saíram pra procurar providências, a noite vinha silenciosa e negra.
– Acorda, Bia, acorda – Onde estou? Respira. Acordo assim desde o primeiro dia.
– Que horas são?
– Tarde.
– Porque demorou?
– Encontrei uns… Humanos. – Sua fala era lenta e arrastada, quando se tornou assim?
– Humanos? Um de nós, quis dizer?!
– Não, humanos – seus olhos eram vazios e expressivos. Olhei todos ao meu redor, foi assim que percebi que não havia percebido há tempos. Todos nós ali estávamos infectados.
– Vão nos matar, os humanos.
– Não vão! – Disse ela pegando Pedro. Marcos dormia agarrado a um travesseiro em forma de uma bola de futebol.
– Somos monstros.
– Não somos. – Ela estava tão cansada. – Não chore Bia, vamos achar uma cura.
– Não vamos! – Lágrimas rolavam me sufocando – vamos morrer.
– Os humanos conversaram comigo, não perceberam. Somos diferentes, não comemos humanos. Venha aqui, ajude seu avô, ele está torto. – Nesse momento eu peguei o travesseiro bola de Marcus e coloquei na cabeça de meu avô, encostei Marcus em outro travesseiro, peguei Pedro e o deitei entre ambos. Sentei no banco da frente e liguei a direção.
– Pra onde vamos?
– Pra cidade. – Minha mãe estava fraca.
– Mas não estão liquidando todos? – Ela me sorriu.
– Te garanto, não estamos diferentes dos humanos – mesmo assim dentro de mim gelou.

– Estão nos olhando desconfiados.
– Não, estão te olhando com desejo. – Corei. Realmente, pela falta de praticidade eu estava usando apenas um top rosa claro, um short jeans curto, tênis e meu cabelo louro solto.
– Vamos aproveitar disso – Marcos vinha ajudando meu avô que arrastava a perna esquerda.
– Ei! – Gritou um rapaz alto, bonito, louro e armado até os dentes. – Porque o velho está se arrastando?
Aí meu Deus, aí meu Deus.
– É o meu pai – disse minha mãe com sua voz arrastada. – Perdeu a cadeira de rodas no caos, ele tem a perna atrofiada.
O rapaz desfez do olhar assassino e ajudou meu irmão carregar vovô.
– Desculpe senhora, meu nome é Benício.
– Tudo bem Benício, agirá vamos embora, tem dias que não durmo e como pode ver estamos todos cansados. – Pedro cochilava no colo de minha mãe, a rua em que estávamos era toda cercada, havia jovens e velhos de guarda. Meu coração disparava, se descobrissem já era.
– Pra onde vão? – Ele perguntou sem tirar os olhos de mim. Eu era a única não afetada fisicamente entre nós familiares.
– Edifício Tora.
– Eu os levo.
– Minha mãe sorriu, por um momento ela não parecia estar diferente das várias semanas passadas.
– E quem nos protegerá Benício? Agradeço sua ajuda, mas pode deixar, Marcus carrega papai sozinho. – O garoto realmente é forte, segurou meu avô sozinho e continuou andando sem olhar pra qualquer lugar fixo.
Nisso Pedro acordou chorando.
– Mas Benício, tem umas malas no carro e eu acho muito perigoso Bibiana as trazer sozinha, pode a ajudar? – O rosto do rapaz se iluminou.
– Será um prazer senhora. – Minha mãe assentiu e continuou andando.
– Tem muito tempo que estão sozinhos?
– Uhum.
– Está com medo?
– Estou – ele estendeu a mão para mim e fomos andando.
Já com as malas, subi até em casa e as guardei, depois fui para o último andar com o garoto.
– Você é linda – ele sorriu. Só porque é o fim do mundo cara?
Eu estava com fome. Nunca havia sido beijada.
– Me beija? – Ele sorri, e que sorriso. Chegou até mim e me abraço.
O primeiro beijo, suave e reconfortante. O segundo eu o morri, o terceiro o comi.
Nunca me senti tão satisfeita.
Mal havia sobrado ossos. Fui para casa e chegando la sentei a mesa.
– Fizemos bem aqui. Agora todos comem verdura que ajuda a desacelerar o processo que estamos. – Mordi um grande brócolis.
Estávamos no começo de uma grande coisa.

Os sentidos aguçados.

O Bem-te-vi, veio me ver.
Ah, que canto doce eu escutei.
O Bem-te-vi, veio cantar.
Ah, que linda plumagem veio trazer.
O Bem-te-vi, me trouxe aqui.
Tantos contos e cantos sobre ti.
Oh, meu amor, que doce encanto.
Como posso eu amar tanto, se mesmo hoje, ontem, ou agora não a verei?
O Bem-te-vi, me trouxe contigo seu amor.
Meus olhos, ouvidos, pele e todos sentidos te sentiram.
Que doce canto tem o Bem-te-vi quando ele conta cantos sobre ti.