Beije-me os lábios feios.

Se meus lábios fossem doces me beijaria?
Se meu corpo fosse belo afagaria-o?
Se meus olhos fosse amendoados você me perceberia?
Aí de minha pele que não é alva ou suave.
Se minhas mãos fossem delicadas eu poderia o acariciar?
Se meus cabelos fosse sedosos você os iria pentear?
Aí do meu coração que permanece nesse corpo feio.
Que com dor em toda parte me faz sofrer.
As feias também amam.
As velhas também sofrem.
Meu coração já se cansou de bater lamúrias e dores.
Se eu fosse outra me amaria?
Quantas vezes devo nascer para que seus outros olhos me possam ver?

Anúncios

A globalização tomou conta do amor.

Seus ossos estão pesados.
A dia de labuta me quebrou.
Os pés descalços arrastando para o quarto.
Os humanos vivem para serem comercializados.
O que vou comprar hoje?
Nada.
Trabalhar pra pagar.
O que viramos não mais que rótulos?
Nada, somos todos comprados.
Me compre.
Me vende.
Me faz de capital.
Os meus olhos pesados cansaram das propagandas.
Não há para onde fugir.
Cercaram as ilhas, Inglaterra.
Nos fecharão os seguidores de Napoleão.
Quem somos nós?
Compre.
Vende.
Não há onde viver escondido nesse mundo globalizado.
Meus ossos fracos vive toda segunda feira esperando que o tempo passe e chegue logo o sábado.
Ah, que vida sem tempo.
Vivi e não existe.
Estamos todos vendidos e mal entendemos.
Quanto custa essa banana?
Parece até que tudo mudou depois de 1929, 2008.
As crises nos fez monstros.

Popular o nome da Silva.

Meu nome mudou.
O tempo tão que diz se acabou.
São tantos iguais a mim, o mesmo nome, o mesmo gosto.
O que seria dos nomes se fizessem as pessoas?
Seriam nossos cartões de visita?
– Qual seu nome senhor?
– Adolfo.
O pobre coitado fora expulso do bar, Adolfos nasceram para fazer grande dor. O pobre homem que não tem outra saída vai viver sua vida como um grande canalha.
– Qual seu nome senhor? – Nos trocando de nomes, nos fazendo de bobos.
Ainda bem que meu nome não me diz quem serei.
Ou melhor, porque não diz?
Hoje eu já seria uma grande rainha.
Em vez disso mal crio rabiscos.
Vivendo todo dia minhas segundas-feiras.

As facas envenenadas de uma dor duradoura.

– Água com limão para mim e para ela um café com creme.
– Não se lembra?
– Uh? – Ele a olhou interrogativo, havia uma ruga em seu rosto mostrando impaciência.
– Querida, volta aqui – a morena alta chamou com a longa mão a barwoman e sorriu irônica – meu ex traiçoeiro viveu comigo 19 anos e se esqueceu da minha bebida favorita. Café amor, com vodka russa, aquela que vocês guardam para os homens bonitões, de 1984. Velha e amarga. – A mulher riu alto. Era uma bonita morena de longas pernas, batom vermelho e olhos esverdeados. Parecia uma deusa acabada.
– Não me passe vergonha Teresa. Você já está bêbada.
– Bêbada? Te garanto que não tomei um gole sequer.
– Quando começou a beber café com vodka russa?
– Quando me traiu, chorei amargamente por longos cinco meses, depois fui pra Rússia, logicamente – ela parou, pegou a xícara na mão da barwoman e tomou um longo gole. – Então conheci Victor, um esloveno filho de russos, ficamos juntos dois meses.
– Não pedi um história. – O homem bonito e alinhado disse. Ela passou a mão no rosto dele e sorriu.
– Porém, meu amor, vou te contar. Ele ficou comigo por dois meses e então, pá! Eu me descobri grávida.
– Você sempre foi uma vagabunda. – Disse ele com um sorrisinho dolorido.
– E adivinha? Victor era moreno, de olhos azuis. Eu sou morena de olhos verdes. Mas minha menininha saiu loura de olhos escuros. – O homem a olho petrificado.
Minha?
– Não, minha. Fiz teste, ela é do Victor e minha, linda. Victor é um homem muito rico, nós nos casamos. Vim apenas visitar minha mãe e amanhã já volto para Rússia. – Ela tomou outro gole. O homem parecia cansado. Se levantou, jogou o dinheiro na mesa e a olhou consternado.
– Você nunca me deu um filho. – A mulher o olhou com ódio.
– Você nunca me deu amor. Egoísta, sempre com essa sua relação restrita. Eu sempre quis um bebê, mas nem isso você soube me dar e sempre me cobrando. Sempre. Ao fim me deu um par de chifres e uma apunhalada que me dói só de respirar.
Ele saiu sem esperar resposta.
– Enche meu copo querida, só vodka, nada de café. – Ela olhou pro relógio como se seu tempo tivesse parado. – Tenho toda uma vida de desgraça.

Intrínseco na íntegra. Os corpos que não falam.

O suor corria no rosto de forma que as pequenas gotas fizessem cócegas na pele morena. Ela abriu os olhos e seus longos cílios afastaram com o suave arfar o grãos de terra que o vento trouxe do leste. A boca rosada se mexeu, balbuciou algumas palavras e se fecharam novamente. A compreensão estava longe.
De costas se via a longa linha de seu corpo, as curvas de sua cintura, toda geometria simétrica de forma reunida e delicada. Ela se moveu. Os longos cabelos lisos se mexeram abrindo em um leque de pura maciez deixando o aroma de pêra no ar.
– Catarina. – Disse. Quem disse? Is nossos pobres olhos que sofrem de miopia, astigmatismo, hipermetropia e tantas outras doenças não nos deixa ver o que nem os olhos sãos não veem.
– Te esperei. – Não havia necessidade de falar o que o corpo já dizia. Ela sorriu e os seus generosos lábios se curvaram de uma forma que os deixava arredondados e ressaltava o buraquinho no queixo.
– Catarina – Ela não escutava. O corpo arfou, de um lado se via a noite e do outro o dia já se fora. 
Agora ela não estava sozinha.
– Mon amor. – Brasil parisienses de forma que ela não dormiu na noite quente. Quem dorme nessas noites quando se tem amor pra dar e ganhar?

Coloque um título aqui

Certa vez, alguém, de sexo indefinido estava caminhando pelas ruas escuras e úmidas de uma certa cidadela. A pessoa não possuía   objetivo nenhum, vontade nenhuma, apenas seguia em frente. Em seu caminho as vezes surgiam pessoas, mas raramente essas pessoas mudavam algo em sua vida, mas quando mudavam, esse alguém considerava muito elas e sentia algo muito forte por elas, mesmo que não esse alguém não demonstrasse isso. Mas mesmo que surgissem pessoas muito importantes para esse alguém, isso ainda não preenchia um vazio existente no fundo da consciência dessa pessoa. Mas essa pessoa não parava, apenas continuava seguindo em frente, muitas vezes pensando em desistir de tudo, mas sendo covarde demais para isso, assim, apenas continuando em frente, não sentindo nada, apenas desejando que um dia, algo fizesse sentido em sua vida, algo fizesse quiser viver. Mas esse alguém é muito acomodado, e é possível que isso não acontecerá .

Dia produtivo.

Deixei que a tarde.
Vagando num tempo.
Me desse sossego.
Assistindo o filme.
E no final do dia.
Diria.
“Ai, que preguiça”

Eitcha

Certo dia, estava voltando para casa depois de um longo dia de trabalho, quando resolvi que tinha cansado daquele caminho de sempre. Então resolvi pegar um caminho totalmente novo. Este caminho novo passava em frente um pequeno parque, daqueles com brinquedos de ferro, tipo escorregador, gangorra etc. o estado dos brinquedos era lamentável, e era bem possível que se alguém usasse aquele escorregador, pegaria tétano mesmo estando de calça. “Em pleno 2014 e ainda não demoliram esse parque? Que mundo é esse? Porque então não reformam ele?” Minha mente foi bombardeada por esse tipo de pensamentos. Mas foi ai que reparei que em frente ao balanço se encontrava uma garotinha que não devia passar dos 5 anos de idade. Estava agachada em frente ao balanço caindo aos pedaços, parecia desenhar alguma coisa com os dedos naquele chão de areia. Não me importei e segui meu caminho.

No resto da semana, toda vez que eu passava em frente daquele parque lixoso, a garotinha continuava lá, no mesmo local, fazendo a mesma coisa. Todo santo dia. Um dia minha curiosidade foi maior que minha indiferença a tudo aquilo e resolvi ir ver o que aquela garotinha tanto fazia todo santo dia. Cheguei perto e me assustei, a garotinha que esteve todo o tempo ali, era na verdade um mendigo anão. E ele tava desenhando na areia algo que parecia um cocô. Ele me olhou, eu olhei para ele, e ele soltou a seguinte frase:

– Me passa um trocadinho sinho.

Eu nunca mais mudei meu caminho na volta pra casa.

FIM

.

.

.

.

.

Peço desculpas para você que leu isso. Me sinto arrependido por você ter lido um negocio desse. Então, para ficarmos quites, vou colocar uma foto de duas alpacas.

Ai meu Deus eu amo alpacas....preciso abraçar uma
Ai meu Deus eu amo alpacas….preciso abraçar uma

 

Nos dias de hoje eu não me desculpo por ter sido assim. Me corrijo.

– Então doutor, preciso de ajuda.
– Me diz o que sente ou o que tem.
– Eu ando meio nervosa ultimamente.
– Hum..
– Grito com as pessoas.
– Hum.
– As maltrato até, mesmo que às vezes é sem querer. Sabe… Vai me crescendo uma raiva, um furor.
– Uhum…
– O que pode ser?
– Hum…
– O senhor sabe o que é? Conseguiu um diagnóstico? Sabe o nome da minha doença?
– Sim, sim! Cheguei a conclusão.
– Diga doutor.
– Seu caso é falta de educação!