Pagar com aquilo que tem não é um bom preço.

Por mais que vivemos e lutamos bravamente nós morremos. E morrer é a única sorte que temos. Mas somos humanos, e somos fracos, e queremos viver. E somos tão inúteis que por mais que nós tememos a morte mesmo assim matamos para sobreviver.
Egoístas. Inúteis. Fracos. Errantes.

Há muito tempo houve uma evolução na terra, bem, é o que diriam. Ela evoluiu e para pior. A luz solar foi a única que nos restou, a lua se converteu em sangue. Chegou os fins dos tempos e não sabemos mais se é dia ou noite. O sol explodiu e essa luz que nos restou é fragmentada, ela vem e vai sem constância no tempo.
Somos um povo pequeno, os sobreviventes. Os que matam para sobreviver. Ou se mata ou morre. A comida está escassa, a água que nos era vida agora nos é morte. Envenenada. Sobrevivemos daquilo que achamos. Não há terra, não há criações. Há apenas nós, os sobreviventes no mundo das trevas. Com o nosso egoísmo nos sobrou apenas duas tribos, a nossa e a deles. Eles são os piores, se somos ruins imagina eles, que matam e comem a própria carne, abusam de suas mulheres, escravizam as suas crianças. Nesse mundo podre nos restou uma dignidade, nos manter unidos, em toda a dor, miséria e fome. Se formos matar para sobreviver que matemos em prol de algo.
Nossas mulheres são guerreira, e nossa prioridade. Nossas esperanças foram depositadas em seus úteros em forma de crianças. Escondemos todas elas, a cada bebê que nasce nós o mandamos para um abrigo, que se formam um total de sete.
As trevas não é o pior da vida. Somos nós.

– Você vai sair pra caçar?
– Vou.
– Vou junto. – Olhou pra mulher que vestia uma capa tão pesada por sobre as roupas justas e grossas que lhe parecia um vestido.
– Você não vai.
– Vou.
– Vai? Vai mesmo? – Ele a segurou pelos ombros e olhou em seus olhos, nunca alguém havia focado tão perto dele. Os olhos dele pareciam olhos de serpentes.
– Você vai? VAI? – Ele chegou perto do ouvido dela. – Já foi estuprada?
Passou a língua pelo pescoço nu e puxou os cabelos presos. Por mais medo que ela sentia ela não demonstrou.
– Não.
– Quer ser?
– Se precisar para ajudar a tribo eu aceitaria. – Ele sorriu com os dentes a mostra e ela não viu nada, nenhum sentimento.
– Você é tão estúpida que nem serviria pra ser estuprada. – Ele chegou perto do pescoço e cheirou fundo – você fede. Você é magra como uma gralha. Você é suja. – Ele a soltou e a deixou no lugar que estava. Virou as costas e foi. Ela não chorou, vivia em um mundo em que não se permitia produzir lágrimas. Mas o rosto pequeno foi de encontro a parede várias vezes, até que sua testa se partisse e deixasse o sangue fluir livremente.
Não que ele fosse um monstro, ou que tivesse ódio dentro de si. Ele era um sobrevivente, aprendeu a matar para sobreviver. Aprendeu a torturar, aprendeu a passar fome. Aprendeu a não sofrer. Um ser humano que não sente nada se equivale a um monstro. O que nos torna diferentes de outros seres é a capacidade de sentir e mostrar. De falar e agir. Ele não sentia, não mostrava, não falava. Era um animal e só agia.
A garota sentou no chão e cuidou das próprias feridas, fechou os olhos e se abraçou. Por mais que houvesse fragmentos de luz solar o tempo nunca mais seria o mesmo. Não existia calor, o frio não é psicológico.
Antes que ele saísse alguém veio gritando e balançando os braços.
– Um dos refúgios foi invadidos. Pegaram nossas mulheres e crianças, mataram todos.
– Ainda estão lá?
– Estão.
– Junte os fortes e os bons. – O homem mirrado, maltrapilho e de dentes podres sorriu.
– Só temos fortes e bons senhor.
O homem, cujo era chamado de capitão não disse nada.
Foram ambos de encontro aos outros, no caminho outro mensageiro veio com uma nova. Mais dois refúgios haviam sidos destruídos.
O tempo mudou do nada, como se estivesse compilando com os outros, contra eles.
– Senhor, olha o céu. – Aquilo que era a capa escura sem estrelas, nuvens ou luz tinha um pano pesado sobre si e entre o céu havia espada de fogo lutando. Os raios chegaram em meio ao caos.
– Chuva?
– Destruição. – Veja bem, nesse mundo no qual se encontravam mal havia terra e ele era dividido em espaços de entulhos. Cada lugar tinha um ponto de acesso, eles usavam as cordas para subir ao mais alto possível. A última vez que choveu foi em aproximadamente 590 anos, e a chuva havia dizimado quase toda vida terrestre, durado por meses sem fim.
– Juntem tudo, todas providências. Levem para as cordas. Vamos subir.
– E os refúgios?
– Só o Pai pode protegê-los. – Cada um tinha um propósito e todos foram de encontro a eles.
– Parece que sua missão foi cancelada. – A mulher ferida veio de encontro a ele com papéis nas mãos. Eiras. Ele olhou e nada disse. Na testa dela havia um corte profundo. Se percebeu o corpo não disse nada.
– Foi você.
– Oras, sabe que ninguém tem poder de mandar chuva.
– Não. Sabe do que estou dizendo.
– Não sei – Os olhos dela não tinham sentimentos, mas os lábios diziam tanto que as palavras proferidas não expressaram tanto.
– Eu nunca mataria ninguém.
– Mentira. Foi você, não foi? Como soube da localização?
– Quando um homem quer algo e lhe é dado com agrado ele não precisa pegar a força. É melhor dado. Conseguimos o que queríamos.
– Sabe o que é feito com traidores?
– Uma chuva vem aí capitão.
– E você comigo. – Ele puxou a menina pelos braços finos e a arrastou.
– Junte todos. Peguem os refugiados, mulheres e crianças. Coloquem todos nas cordas. Vamos – Em pouco tempo todos estavam reunidos nas cordas, começaram a subir juntos, quando tiraram os pés do chão o céu caiu e água.
– Eles estão aqui do lado.
– Eles?
– Sim. – O capitão ainda mantia a pequena traidora no seu encalço. Segurava com força para que ela não fugisse.
– Chegaram, apenas três. – O rapaz que disse isso saiu de perto do capitão. As cordas grossas estavam lotadas de gente.
Cada passo na corda uma camada de tempo. Estavam subindo uma espécie de montanha imensa, com milhares de metros e cavernas.
– Chegou três homens altos, carecas e com profundas cicatrizes.
– Achamos os coelhinhos perdidos. – Os outros dois homem riram
– O que querem?
– Comer. Matar.
– O mundo acaba hoje.
– Pra vocês acaba agora. – O capitão sorriu. Olhou para a menina que tinha os lábios vermelhos trêmulos.
– Você buscou a própria sorte. – Sussurrou pra ela. Antes que houvesse mais palavras ele a soltou, correu até o líder dos homens e o matou.
– Somos todos guerreiros. Vocês estavam mortos antes de chegar. Vocês dois avisem seu grupo pra não chegarem perto de nós. Queremos trégua.
– E como acha que vai aceitaremos? – o capitão jogou a menina pra eles.
– Oferta de paz. Ela está em idade fértil. – Os dois homens sorriram e passaram a mão nela.
– Por ora aceitaremos. – Todos olhavam o capitão. Ele virou para cada um e disse.
– Cada um caça a própria sorte. Os traidores serão traídos. – Em meio a sorriso pequeno ele olhou nos olhos dela.
– O que vale a sua vida por todas que destruiu? – Os homens sumiram nas sombras com a mulher de corte no rosto.
Sabia que eles voltariam, não se importou. Nasceu para matar.
Com a chuva caindo continuaram a subir as cordas em busca de continuar com suas vidas. Em busca de viver.

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