Sofremos o que queremos sofrer.

A vida é uma palavra que não há tradução. Sim, há, mas não a real tradução. A que se faz na prática. O que é viver? E por mais que todos vivam, todos realmente existem?

– Desilusão, desilusão – Cantarolava numa melodia alegre, como se desilusão fosse o novo bom da vida. Mas por dentro rasgava tudo que tinha, as entranhas se apertaram num enforcado penoso. Havia um nó tão profundo que o estômago revirava e não havia consolo que melhorasse.
“Ela já está com outro”. Oi ser humano é um ser muito estúpido. Nada de esperto ou inteligente. Ser masoquista por natureza. O camarada com toda aquela dor não achou-a o suficiente. Teve que pegar o celular e colocar na página do facebook pra ver as fotos do novo casal.
Não foi traição, não foi maldade dela. A relação se desgastou até que tiveram que colocar o fim. Mesmo até que o amor continuava o mesmo, chega num momento que apenas exclamação não basta e a única solução é o ponto final. Pontuação dada não volta atrás. Ou são palavras? Enfim, ele perdeu a respiração quando viu aquelas declarações patéticas em fotos de ambos sorrindo. Quis vomitar. Tempos atrás eram eles em fotos com declarações patéticas. Ele queria estar na foto, queria ser patético.
– Estúpido! – Disse num pra si, mas sem que escutasse o próprio tom a voz saiu grave, num timbre alto de alteração. Uma moça o olhou de longe, soslaio, sorriso de canto, olhar de sarcasmo e pensamento no rosto.
– Idiota. – Era o que dizia todo o corpo dela.
O homem, pobre coitado, ou assim parecia ser e mostrar, excluiu os dados da pesquisa para não deixar transparecer para si mesmo a sua dor.
O amor é assim, um ato. E atos que ás vezes não são demonstrados. Aqueles que pessoas fracas escondem, engolem, prefere sentir a brasa do que soltar a fumaça.
Foi para um canto, longe de todos, longe do sol, longe do espelho, longe da vergonha, longe dela, longe dele, longe de si, fora de si. Chorou.
Uivou para si, chorou em amargura e desabou. Homem que é homem não chora, desaba. Se eu fosse vivo, se minha avó fosse viva diria que ele chorou com paixão.
Paixão não correspondia, dor na vida.
Tem uma hora que nem o corpo é capaz de produzir tantas lágrimas, o corpo secou. Não havia dentro dele mais forma de expressar a dor. Por mais que ele pudesse voltar e pedir pra voltar, confessar o amor, elé não queria. Não tinha coragem, ou talvez disposição.
Se levantou e foi. Estava dentro da biblioteca municipal, havia tantos cantos, tantos cômodos que um inexperiente se perderia.
Ele limpou o rosto e foi. No alto da escada ele viu uma moça, a fulaninha estava pior que ele. Com a cara sem cor, o desespero estampado. A escada deveria ter uns quinhentos degraus. Ela dava num lugar que ninguém ia, fora os loucos e os corajosos. A biblioteca era uma igreja antiga e no cômodo de cima, onde a escava dava era o local que os antigos sacerdotes se punham dos próprios crimes. Havia histórias sobre o local, histórias bobas e umas temerosas. A menina o olhou. O olhou tão fundo que ele sentiu vergonha. Ela estava na alma dele, vendo todos os imundos pecados. Ela desceu um, desceu dois. Antes do terceiro ela pulou. O corpo dela caiu em várias partes e em cada parte havia sangue.
– Socorro. Soooooocorro! – Ele correu te ela. Pegou o corpo frágil. Esqueceu a sua dor.
– Menina, menina por que fez isso? Menina? – Ela não tinha rosto. Não tinha! O corpo dele gelou. A jogou onde ela havia caído e correu. Correu até que lhe doeu o pulmão, latejou as pernas.
– Ela morreu. – Ele voltou para la. Quando chegou viu ela em pé na escada, o olhou, olhou profundo que viu a sua alma. E na sua alma estava toda sua vida, a essência dela.
Ela sorriu, um meio sorriso sem felicidade, sorriso cordial.
Pulou.
Ele deu as costas para a escada e continuou andando. Quando chegasse em casa jogaria as alianças fora.
A menina era o amor dele. Sabia que iria doer, sofre, morrer. Mas pulava sempre.

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