Meu coração tem dobras.

Descobri que era amor aos sete anos. Ele me ensinou fazer um daqueles pássaros de dobradura e desde então o amei.
O amor é assim, quando se tem sete anos e tem um diário, tesoura e cola.
Melhor que meu primeiro beijo foi aquele pássaro de papel.
Faz tempo desde que o pássaro voou.
Meu coração ficou em dobras.
Gavetinhas de lembranças.
Até hoje guardo nele o meu primeiro amor de sete anos.

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O que passa na nossa mente se torna real quando colocamos em ação.

O corpo esguio se esticava e sumia nas sombras.
O rosto inteiro era um sorriso. De que adiantaria ele correr? O medo lhe travou as pernas e nunca havia tremido tanto em sua vida. Ela chegou perto dele, o que escutou foi barulho de argolas. Várias delas, balançavam e chacoalhando em sua direção.
Enfrentar não estava no caso, aquela mulher era o demônio no nível seis. Mais um nível e ela não precisaria ter o trabalho de brincar com humanos como ele.
Uma língua grossa lhe lambe o rosto.
– Shhhhh Xuuuuuhhhh Riiiiia – ele a escutou dizendo. Nesse momento ele se desfaleceu dentro de si.
– Número seis nunca foi meu número bom – antes que o chão o amparasse ela entrou nele e durou tudo o que ele tinha.
As argolas pararam de mexer e a luz se acendeu.
No quarto havia apenas um homem e uma faca.
Todos dois sem vida, seres inimagináveis.

Fantasmas do passado

-AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARGH!!!!!!!!!!

-Por que gritou dessa maneira? O que aconteceu?

-Nada. Apenas tive a visita de um fantasma

-Ah, sim. Um fantasma. Claro. E esse fantasma, por acaso é um “fantasma do passado” para que você tivesse que dar esse grito?

-Tu me conhece, sabe que eu quero que o passado vá se foder. Eu não ligo para o que já aconteceu. Era algo muito pior…

-Tipo?

-O Fantasma do futuro. Meu próprio fantasma. Meu próprio futuro.

Esperar é ter uma conversa íntima com Deus.

– O tempo parou.
– Parou?
– Como assim?
– Olha aquela senhora, vê?
– Hum.
– Então, ela vai ali todos os dias, trás aquelas flores, se senta e espera.
– O que tem com o tempo?
– Olha lá, vê? Ela coloca as flores do lado, passa a mão no pescoço e puxa um medalhão.
– Como vê?
– Também venho aqui todos os dias e a olho.
– Só isso?
– Ela segura o medalhão e chora.
– Chora?
– Chora na alma.
– Como sabe?
– Observa.
– Oras, não enxergo bem de longe.
– Não precisa enxergar bem pra ver o que vai a alma.
– Quanta balela. Vamos embora, não gostei daqui.
– Pode ir. Eu ainda tenho que esperar.
– Oras!! Esperar o que? Pelo amor…
– Esperar ela ir para o tempo voltar.
– Pelo que o meu relógio diz, e ele não mente, o tempo continua correndo, só essa sua cabeça aí que parou.
– Pronto, vamos embora.
– O que aconteceu?
– Quem ela esperava chegou.
– Como sabe? Ela continua sozinha.
– A alma é um ser estranho, sabe? Ela capta sentimentos, coisas que nossos olhos nus não vê. Tem que sentir.
– Sentir o que?
– Tudo. Pelo que vejo em você o seu tempo ainda não parou. Mas quando parar você vai esperar muito tempo.
– Chega de balelas. Vamos embora.
– Vamos sim. – A velha se levantou e foi embora.

Resolvi voltar.

Vire seus olhos para mim.
Você me vê como quer vê.
Não enxerga o que sou?
Ide, diz você.
Mas sabe que o que querer dizer é “vem”.
A sombra do perfume é quase o sentido da pessoa.
Ficou a personalidade incrustada no pensamento.
Não ficou?
Vire seus lábios para mim.
Deixe-me vê-los.
Não fala comigo, não?
Tem medo.
Covarde.
Egoísta.
Profana mais uma vez.
Só uma vez.
E a morte me basta, talvez eu esteja sendo do tipo cru ou até mesmo sentimental.
Se assim o é o adeus me basta.
Vire-se uma última vez para mim e diga, só para que saceie meu ego… Diga que não sente medo.
Diga a sua verdade.

O lado bom de trabalhar no caixa.

Soltei a flor e deixei que caísse no caramelo. Ou talvez peguei apenas a cesta com os medicamentos dela. 
– Bom dia e aí dente melhorou?
– Voltei do dentista faz pouco tempo, graças a Deus ele abriu e disse que não vai precisar arrancar.
– Nossa, fico muito feliz pela senhora. Agora vai comemorar né. Com o namorado?
– Sou viúva tem trinta anos minha filha.
– E nunca quis outro amor?
– Amo amor mesmo é só um, mas quase não saio sabe.
– E os filhos?
– Tenho três, mas ficam quase seis meses sem me ligar. Moro sozinha e Deus. Nem amigos tenho. Moro cinco anos na mesma rua e não conheço nenhum dos vizinhos.
– Que isso, a senhora é nova, não pode ficar desse jeito não. É aposentada?
– Nova nada menina, tenho 67 anos, tô é muito velha. Já trabalhei muito e graças a Deus aposentei.
–  Velho é quem morre. Vai se divertir, aproveitar a vida. Olha só, a senhora vai ficar sozinha sem aproveitar agora que aposentou? Olha como é bonita, vai no cinema, faz excursão. Vai se divertir. E olha, na próxima vez que vier quero que me conte o resumo de algum filme ou alguma história de viajem. Vou esperar viu?
– Pode deixar – disse ela rindo – na próxima vez eu conto sim!
– Vai com Deus, tudo de bom pra senhora.
– Amém, fica com Ele também. Obrigada viu menina.
– Imagina! Estou esperando sua história. Tchau! – Olhei para ela indo e encarei a fila. – Próximo! – Uma nova pessoa – bom dia, tudo bem? – A vida continua para todos e eu continuo sendo figurante de figurantes da minha vida.