Janelinha na falta de dente.

Sou criança em corpo, ainda.
Mas a minha alma de velha já vagou por todo mundo.
Meu coração foi rasgado em dois quando amei a primeira vez.
Depois de reconstituir faltou um pedaço no meio.
Janela de vento, meu dente de leite da alma velha.

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A porta que você abre quando deita é a mesma que fecha quando acorda.

 

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Quem te observa quando você não está observando?

O vento seco veio com uma poeira que estava ali desde que o mundo ouviu do Criador “Ajuntem-se num só lugar as águas que estão debaixo do céu, e apareça a parte seca”, e a parte seca se chamou terra. A poeira bateu no rosto dele fortemente e trouxe consigo o cheiro de tempo, tempo-passado. Os olhos dele encaravam o quarto noturno, a janela de madeira quebrada deixava entrar um vento frio.
” Você demorou a voltar” a voz infantil tinha um ar sensualizado que deixava-o arrepiado de uma forma enojante.” Você sempre se esconde nas sombras, tem medo? É tão nojenta quanto mostra ser?”. A voz riu alto, o vento correu pelo corpo dele como se alguém o rodeasse. “Mas você está me vendo, não está? Eu sou a escuridão, eu sou o vento, eu sou o quarto, sou o passado e sou a até a casa.” E quando a voz de criança sensualizada terminou de falar ele sentiu um sorriso em seu pescoço ao mesmo tempo em que via dois pares de olhos cristalinos e profundos o encarando, e isso foi por um milésimo de segundo. Até que sumiu. O corpo tremeu, tremeu, tremeu e  caiu no chão em um baque surdo. “Preparado?” Se houve resposta da parte do homem as paredes não contou, a casa não escutou e o tempo não permitiu. Ele foi levado pelas sombras juntamente com o perfume da voz criança-sensual, que naquele lugar era a Essência, ate que chegou num estado corporal de não corpo. Não havia massa naquele corpo dele, havia apenas um espectro e esse espectro era ele.
– Volta aqui agora, AGORA GAEL! – a mulher segurava um vestido que devia ser mais pesado que seu corpo, e o pano apertava o corpo pequeno de uma forma que fazia sua cintura parecer um pilão. Ela chorava fazendo os grandes olhos azuis parecerem o Lago Moraine. A pele branca estava vermelha e a covinha do queixo parecia que iria transbordar um rio com seus peixes e faunas. Ela se jogou aos pés de um homem alto carrancudo.
– Gael, me perdoe Gael. – Ele sorriu por debaixo do bigode espeço. Antes de qualquer palavra ele a chutou com força, e o corpo pequeno foi parar perto da cadeira de madeira escura com mais choro e dor entre os lábios em forma de coração.
“Não quero estar aqui. O que esse bruto está fazendo com essa pobre mulher?” Não houve resposta da Essência.
 – Você? É você mesmo? – O homem de carranca disse enquanto olhava  diretamente para o espectro com um olhar tão severo que o fez estremecer em seu corpo sem massa. A poeira com cheiro de passado correu pelo corpo sem massa e o fez ficar no escuro absoluto.
” É isso que queria ver?” Disse a voz num retorno repentino, a voz falou com tanta mansidão que parecia até silenciosa. Ele se levantou do chão duro e tirou a sujeira do corpo. Aquela que saia com as mãos. “Por que ele estava batendo nela? Como ele me viu?” “Chega! Eu te mostrei o suficiente. Eu te contei o suficiente.” “Ela tinha os seus olhos” o vento percorreu todo o corpo do homem e toda a escuridão se foi e a luz iluminou o quarto noturno. “Era você” – Mas ali não havia voz, havia somente um quarto sujo de uma casa velha e antiga, e nem a presença dos insetos, roedores ele tinha. Apenas ele e toda aquela imundice. A voz da Essência sumiu e no lugar ficou o vazio, que naquele momento se tornou sua dor.
– GAEL, GAEL VOLTA AQUI. – Gritou alguém de qualquer lugar fora do quarto.
– Já vou! – Ele disse e se levantou. Deixou a poeira mais velha que o próprio mundo. Debaixo do bigode do homem havia poeira, que ele limpou enquanto olhou aqueles olhos que continuavam lá, até mesmo quando ele saiu silencioso e fechou a porta do quarto.
“ Você também vê?” 

Uma nudez que não é artística ou bonita.

– A tristeza tem me consumido. Os meus dias tem se arrastados sem fim. Todo dia é o mesmo dia. Nada muda, melhora. Quando canto para Ele eu me alegro. Brevemente me alegro. Meus risos tem sido vazios. Tão vazios que nem o próprio vento habita neles.
Meu coração está oco, sem vida. Cada batida é um pedido nulo de socorro. Eu grito, ninguém escuta.
Tenho morrido todo dia mais um pouco, e dessa vez deixei de lado o personagem. Nu estou.
Meu olhar é um choro silencioso com lágrimas que não rolam.
Estão acopladas nos meus olhos num rio molhado eterno – até que dure.
Ah, meu Senhor. Escute esse meu choro silencioso. Minha dor me consome a todo instante, e não tenho vontade de viver. Só existir está me bastando.
Onde está a alegria? Esse sofrimento na alma tem me atormentado numa tempestade de inverno.
Quantos dias dura um dia?
Deixei de lado meus receios.
Me expus nesse instante.
Meu oco corpo não questiona.
Eu deito e levanto. Eu trabalho e ando. Estudo e finjo.
Sou quem não sei ser.
Onde me perdi?
Onde não me encontrei?
Estou sem sangue vivo. Estou sem nada.
Nem o nada me restou. O pior de tudo são todos eles que não me entendem. São todos eles que são todos.
Mentira! Tenho meu amor, que será infinito sempre. Meu amor por Ti, Senhor.

Me encontrei com ele hoje.

Os dentes separados, pequenos e apodrecidos. As unhas afiadas e cumpridas. A cabeça raspada. A blusa com a estampa de uma mulher ensanguentada e um homem saboreando a carne.
Ele sorriu. Tratou com gentileza.
Ela sorriu e disse.
– Vá com Deus. – Ele olhou pra trás com os olhos meio fechados.
– Com Deus também. – Até eles reconhecem a verdade?

Há barulho no silêncio escrito.

“Existe o silêncio.
Existe as palavras no silêncio.
E existem as letras, que formam palavras escritas.
São o barulho do silêncio.
E no silêncio, nas palavras, na junção de combinações.
Se fez os livros.
Eles dizem, mais alto que o silêncio de fora da mente. “

Não conta pra ninguém que eu te disse isso.

 

Quantas vezes terei que acordar pra saber que sonhei?
Quantas vezes terei que acordar pra saber que sonhei?

 

Estou pensando (seriamente) em escrever algo meio longo de uns 8 capítulos. E essa frase não me sai da cabeça

 

Ele acordou tossindo. E tudo o que tinha na mente era sua imagem despida. Refletiu, antes de um suspiro tossiu novamente e dessa vez as lembranças que estavam ali, já não estavam mais. 
– Você está fumando escondido. – Ela levantou e o olhou, de um jeito que o escuro nos permite olhar. 
– Não preciso fumar escondido. – Ele não precisava, mas fumava. Não, não era a única coisa que fazia escondido. Sua cabeça girava com uma única imagem. Talvez fosse ele, talvez não. 
– Você está com sotaque argentino. 
– “Mientíra”! – Será mesmo que era a única? 

 

Não é bem uma frase. Mas coça, bem forte, mais que minha alergia que dá ferida na carne, coça de vontade de expressar. Deveria? 

Se cortou todos os dedos fora não culpe a maquinaria.

Cortei os seus pulsos. 
O sangue que saiu me fez sentir gozo. 
Meu lado psicótico pediu bis. 
Mas chocolate não me basta. 
Repeti o ato em dois. 
Até que três me farta. 
Cortei a língua fora. 
Meus olhos esmoreceram ao mandato. 
Tinha quase um ano sem nada pra ingerir. 
Quando sorri, quando gritei. 
Ninguém me entendeu quando o matei. 
Eu tinha que o fazer. 
Era o certo a se fazer. 
Odeio laranja, quem dirá outras cores brandas. 
Rasguei as verdades quando eu o culpei pelos meus atos. 
Quero que você morra. 
Mas isso, não é segredo.