Cotidiano em novas vilas. Calvície não afeta a memória.

– Obrigado – a moça mascou o chiclete lentamente, saboreando todo açúcar e corante da massa de mascar barata.
– O que disse? – O homem gordo, estatura média respirava com dificuldade. Ele tinha o rosto gordo como se fosse um só com o pescoço.
– Eu disse – ele disse com sua voz leve e infantil – obrigado!
– Ah, obrigado… – Ela repetiu como num retardo. Depois que o olhou mexendo na carteira e pegando o dinheiro com seus dedos gordos e pequenos. – Tudo bem.
– Eu… Eu posso te perguntar uma coisa? – Ela levantou os olhos fundos da revista e olhou para o homem.
– Pergunta.
– Quanto é o chiclete? Mas quero o verde, não gosto de amarelo, nem do azul, nem do vermelho.
– Cinco reais. – Ela arrumou o aro do óculos e pegou uma caixinha de chiclete.
– Eu levo! – Ele continuou sério. Pagou e foi embora.
Na rua o rapaz gordo começou a tossir, caiu no chão e ali ele jazia com os olhos abertos e sorrindo.
A menina, então olhou para fora e viu o mundo. Do outro lado da rua estava parado um homem dos sonhos.
Ela não sorriu. Voltou os olhos para revista, não existia sonhos pra ela.
Não havia tempo. Ou o tempo que havia não era nada.
Na sua cabeça não havia cabelo. Na sua boca restavam poucos dentes.
O que faltava então?

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