Os clones do homem que não sabia amar.

Naqueles braços foi que ela deu o ultimo suspiro. Onde ela olhou para ele e sorriu. Nunca iria existir mulher mais doce como ela. Daqueles braços ela foi arrancada, pela natureza. Enterrada e esquecida. Não por ele. Ele jamais a esqueceria. Ele jamais se renderia ao fim.
Cientista renomado, havia ajudado a descobrir várias curas para várias doenças, estudou toda a física existente, tentou alcançar além do que podia um homem só alcançar, ele provou que era mentira. Até aquele dia ele fora alguém importante, mas agora ele seria apenas ele o homem sem esposa. O homem sem inspiração.
O homem.

Ah, tanta dor em um só homem precisa ser extravasada, como ele a faria? Enfiou-se em um quarto escuro, com uma luminária, bebidas, cigarro. O fim da vida. O único objetivo da vida seria estudar, ele começou a pesquisar, e pesquisando ele foi vivendo. Comia quando dava, bebia quando dava, dormia quando dava, ia ao banheiro quando realmente necessitava. Virou aquilo que chamamos de traça. Ele virou pura traça.
Nas paredes nuas ele revestiu de fotos, cartas, perfumes, flores. Como se toda a essência da mulher que um dia ele amou coubesse ali.
O homem se desgastou a tal ponto de chamar a todas de Catrina, mas Catrina já não existia. No começo as mulheres compreendia o engano, mas com o tempo foi ficando grosseiro.
– Ela já se foi Homem, lide com isso. – E os olhares acusadores eram tanto quanto possível.
E isso foi apenas mais um ponto para que ele se escondesse totalmente do mundo. A bebida apenas o mantinha acordado, o cigarro o mantinha vivo. Assim como sua mulher morta. Então, um dia, ele teve a vil ideia. UM CLONE. Gritou para todos como se fosse Arquimedes gritando Eureka.
Trabalhou dias afins. Tentou tudo quanto é experiência, até que então ele conseguiu gerar. Viu uma mulher adulta crescer diante dos teus olhos num útero sintético. Cinco dias demorou a que ela alcançasse a adolescência. Ele ficou tentado a tirar dali à menina e a criar como filha. Mas o amor era tão grande pela mulher amada que resolveu esperar. Então, dez dias, esse tempo certo para que nascesse a mulher. Ele a desligou do útero. A tirou de lá para que vivessem normais os anos seguintes ao seu lado. Assim que ela saiu ele a abraçou. Mas a mulher o olhou espantada.
– Quem é o senhor?
– Oras meu amor, sou eu, seu esposo.
– Não tenho esposo, nunca me casei. – Ele a olhou assustado, pegou fotos e mais fotos e a mostrou.
– Sou sim, olha.
– Desculpe senhor, não me lembro de ti. Essa mulher não sou eu. Na verdade, não me lembro de nada, nem de quem sou. – Então o homem novamente entristeceu. A mulher, a sua mesma mulher não o reconhecia. Vendo a tristeza dele ela tentou o consolar. Tentou ser aquela a quem ele amava. Mas em vão. Catrina amava rosa, Cataria o detestava – nome escolhido por ela mesma, Catrina era tão estranho quanto nome de égua, disse a nova Catarina – Catrina adorava ler romances, Catarina detestava romance, preferia uma boa ação com aventura. Catrina adorava ar livre, Catrina odiava ar livre e todos aqueles insetos. Catrina amava bolo de coco, Catarina preferia de chocolate. Ambas eram tão diferentes quanto o dia e a noite. Apenas compartilhavam da mesma aparência.
Um dia o homem já enfadado daquela mulher, já triste e desolado resolveu a esquecer.
 Pois já Catarina o amava, já havia apreciado sua companhia. Mas o homem já não aguentava uma mulher de temperamento tão diferente do seu verdadeiro amor, não queria mais saber dela e com sua nova descoberta criou outra de sua mulher. Dessa vez uma criança, a quem chamou Carina, e então, toda sua atenção foi para ela, fazendo que Catarina ficasse triste, triste até desolar.
Sem amor essa mulher não era nada. Foi jogada em um mundo por circunstancias distintas e de interesse próprio, com o coração partido aprendeu amar alguém que nunca a amaria, apenas uma sombra. Amava a aparencia, amava quase o nome, mas o ser o que ela realmente era ele não amaou. O que uma mulher poderia fazer, olhar de longe um homem egoísta que só pensa em si?  Um dia, sem dizer ela pegou a criança Carina que já a tinha como filha, foram embora sem dar adeus, o homem que se virasse, o homem que arrumasse outro clone para amar, mas antes de partir Catarina destruiu o útero sintético e queimou todo DNA da falecida mulher, que de coração partido só quem sofre sente e ele não levaria ao mundo mais nenhuma delas.  

 

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Quando vai aprender que tenho o mesmo nariz, os mesmos olhos, a mesma boca. Mas todo dia acordo uma mulher diferente?

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