Dedução maligna.

Os olhos totalmente negros em toda parte, apenas a escuridão nos olhos. Elas me cercavam e sorriam, não um sorriso inocente infantil, mas o sorriso de aqueles que a possuíam. O tempo parava enquanto os olhos do mal me encaravam, queriam algo de mim, e sussurravam “teu medo, pavor, temor, tua alma” e riam entre si. Elas e seus olhos da escuridão. Então eu acordava, e sempre, sempre com nódegas roxas no corpo, apenas um aviso de que estiveram comigo.

Estou começando a sonhar acordado, elas vêm em mim e apertam minhas mãos, eu conheço de medo, eu não grito. Ninguém percebe, apenas eu. E minhas marcas roxas. 4:38 – eu escuto passos. Respiro com dificuldade, me salva. Está perto. Perto.

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No escuro, um feto.

Ele nasceu num canto escuto, sozinho. Ninguém soube que quando ele nasceu sentiu as próprias dores de parto. Sem mãe, sem morada. Ele nasceu sem saber o que era sorrir, e se soubesse não ria. Não tinha motivos pra ser feliz. Ele se auto consolava. Solidão que dividia consigo mesmo. Um homem sem coração, o que era chamado de coração ele guardava num pedaço do rim. Sentiu dor era só tomar água. Mas ele nasceu num mundo de seca, não chovia, lagos secos. Só havia a imensidão do ar. Água salgada que não acaba mais. Dor que não passa. Rim que apaixonado pedrava. Homem sem nome, ele era um pedaço do mundo, mas o mundo o rejeitou. Nem a mãe morte o abraçou.

Anos de serviço pessoal causa distúrbio de perca de nomes. Ou talvez alguma amnésia temporária.

– Mais um dia. Tem certo tipo de coisa que não temos respostas. Por exemplo, Por que, logo eu nasci? Em meio de milhares de espermatozoide, logo eu. Não tenho muitas qualidades, tenho preguiça até de respirar. Sou feio, do tipo que garotas só comentam pra dizer que sou fracassado. A última prostituta que paguei errou meu nome várias vezes. Tenho uma droga de emprego, a única mulher que amei morreu, não de verdade, claro, mas pra mim. Ou melhor, eu morri pra ela. Tenho tantos motivos pra perguntar o por que eu que nem sei mais se adianta perguntar. Deve ser algum tipo de destino, não sei. Mas qualquer coisa que sirva eu aceito, tipo quiabo, eu amo quiabo. Mas ninguém liga. Nem minha mãe. É meio assim com minha vida. Chega de lamentar, quanto é a hora docinho? – Oh Carlos, pra você é um preço bom. – Meu nome é Gaspar. – Foi isso que eu disse Geraldo! -“Então nesses momentos torno a perguntar, por que eu? Barrigada perdida, porra desperdiçada.”

Chuva interna.

Está chovendo lá fora. Um pé d’água. Uma enxurrada. Engoli um maço de cigarro pra me esquentar da solidão. Está chovendo lá fora, são minha lágrimas desoladas. Comi o meu almoço de baixo de uma queda d’água. Está calor lá fora. Confundi minha solidão com chuva. Tempestade só dentro de casa.

Prismas no olhar.

Os olhos em prisma transformavam a verdade em cores. Não era tão difícil de engolir, diziam. Mas ela de uma mulher forte, não sabiam o que era ser forte, e para aquela gente, ser forte era tudo. Até os princípios. Os olhos eram quase como uma caixa de pandora, tinham tantos sentimentos misturados num só momento que pareciam fazer o sol brincar pelos cílios dando sombras ao obscuro. Confundidos pelo mal, já não queriam acreditar na mulher. O fogo a consumiu, o tempo, a verdade, a mentira. Mas os olhos prisma ficaram. Libertaram tanta coisa reprimida que viraram janelas d’alma.

Amor à infantes.

O interior da minha boca está com gosto de esgoto. O sabor me faz lembrar desse cheiro, mas do lado de fora, nos lábios, eu sinto o sabor de mel, pureza, infância. Meu corpo está num estado de prazer que ultrapassa os limites convencionais. Tudo o que faço é por amor. O que sinto não escolhi sentir. Eu amo sentir e ao mesmo tempo odeio. Pecado, pecado, pecado. Mortalmente pecador. Nos meus braços ainda sinto o calor tão recente. Por dentro sinto um nojo fétido. Mas do lado de fora, na pele, nos pelos eu sinto a doçura de a pegar nos braços. Eu a beijei tão arduamente que receio a ter assustado. Ela é tão pequena, eu gosto de quando são bem pequenas e miúdas. As visto de rosa, mostro a delicadeza delas. Odeio e amo com a mesma intensidade. Monstros não choram. Mas choram. O monstro que está dentro de mim chora. É mais que eu, é amor, é desejo. Toda a inocência que me envolve. Toda a pureza que emana. Os olhos expressivos. Os lábios rosados. Por que faço isso? É nojento, é errado. Mas é amor, é amor deve ser lindo. Ainda sinto a suavidade no ar, o cheiro doce dela. Seis anos deve ter, minha pequena. A podridão está dentro de mim, o amor em meus poros, na cama. Ela já se foi, nunca mais vai voltar. Mas meu amor permanece. Não tem idade pra amar, nem eu, nem ela. A olhei, ela estava de vestindo com meu auxílio, após nos amarmos.
– Eu quero ir embora – ela disse em lágrimas.
– Não, vai ficar comigo. Vou ser seu novo papai – como ela é linda.
– Mas eu já tenho papai, ele não me machuca.
– Eu também não. Isso é amor.
– Amor dói. – Lágrimas puras ornavam o pequeno rosto. Eu pude perceber um roxo no pescoço fino, marcas deixadas pelo meu amor. Pela minha boca.
– Não vai doer mais depois de um tempo. – A abracei, pois a abraçar era como abrasar um coração ferido. Ela não queria me abraçar, mas não me avalie. Puxei para perto de mim e inalei o perfume suave. Ela dormiu em meus braços. A deixei na cama, o monstro em mim havia dormido com ela. Mas me doía tudo, cabeça, tronco, membros. Chorei, chorei e vomitei, tudo que eu não tinha. Tudo o que eu queria ter.

Demônios na mente vazia.

Freneticamente, a cabeça de um lado e outro dançando sobre um corpo cheio de medo dentro de si. Despacha-te. Não, não era tão fácil. Enquanto o medo consumia o corpo a cabeça dançava, tentando tirar os demônios insanos que martelavam a mente. Saiam! Mas nem gritos, nem danças, nem músicas seriam fáceis. Liberdade de si mesmo. Dançando novamente com a cabeça balançando a mulher o chamou. Dos olhos se viam apenas um opaco vencido. Ele gritou com ela, cheio de raiva em si. -Saia daqui – dizia. Se esquecia que os demônios só agiam quando ele queria. Pediu desculpas, mas se fossem sinceras não teria magoado primeiro. A cabeça continuou dançando, o corpo mexendo. O medo espalhado, o primeiro sintoma de um homem que seria dali um pouco um novo perdedor.

Contas à pagar.

Gerei a minha senha, depois de um tempo nada mais dava certo. Perdi o cartão de crédito num banheiro qualquer. O dinheiro guardei no bolso, ele voou ao céu. O meu carro estragou, perdi o ônibus, estou á pé. Nada mais dá certo. Meu chefe hoje me intimou, mais uma falta estou na rua. A minha luz cortou e minha água já venceu.
Mas o pior de tudo não é isso, o pior de tudo é não ter ninguém pra contar que na minha vida só desgraça acontece.