Sensação em comum.

Adoro papel branco e lápis de escrever com a ponta longa e fina. Você pega o lápis e passa na folha, ali naquele momento você fica cheio de expectativas, o que escrever, o que desenhar. Pensa, pensa, pensa. No fim você escreve teu nome e qualquer outra bobagem e inconscientemente lembra de tudo o que não queria lembrar. Dói, a sensação de nostalgia logo passa, você coloca a folha e o lápis de lado e tudo o que pensa é em como sua letra é feia.

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Odores indesejáveis.

– Está sentindo?
– O que?
– Esse cheiro de podre.
– Limpe a casa.
– Limpei três vezes já. – Ela se agarrou junto a ele. Um corpo esquelético apareceu ao lado da cama.
– Não foi o suficiente querida – o corpo esquelético disse sorrindo sorriu torto. Só ela o via, ele passou a mão no rosto do marido da mulher e sorriu novamente mostrando os dentes brancos e pequenos. O homem ao lado da mulher desfaleceu, ela o sacudiu, gritou, mas ele não acordou. O esquelético já havia ido embora, assim como o cheiro de podre.
A mulher se levantou, pegou o telefone e ligou para a ambulância, horas mais tarde já sabiam da morte, ela não chorou, parecia robótica. Ela olhou para o lado e sentiu o cheiro de podre novamente, dessa vez ao lado de um menino.

Não se engane com as memórias.

– Você se engana – ela disse num sussurro.
– Com o que? – Ele disse com crueldade na voz, as palavras cortantes pareciam dizer “Vá-se embora mulher”.
– Comigo. – Ela o fitou, os olhos escuros estavam submersos em escuridão, pareciam ter ficado maiores devido às lágrimas que ela não se envergonhava.
Ele riu, murmurou algo como “tola, mulher maldita” ela sorriu e se levantou, deu uma volta sobre ele, depois outra.
– Nunca me esqueço, faço-o parecer, faço-o com que acredite na minha fraca memória – ela disse dando a terceira volta. – Você tem coisas que me pertence. – Completou.
– Vai embora prostituta barata. Veio aqui abrir as pernas e depois quer respeito, fui tolo, maldição! – a gargalhada ecoou pela biblioteca.
– 11 anos, eu esperei 11 anos. – O corpo frágil, magro, pequeno de cabelos louros palha a fazia parecer uma criança. Ela tremia – Para fazer isso.
Então, sem dizer nada ela enfiou a magra mão em seu peito, o homem abriu os lábios em dor, ela sorriu. Puxou o que queria e colocou na boca. Engoliu lambendo os lábios.
– Eu peguei minhas lembranças de volta. – Ela saiu da sala e deixou para trás um homem que fitava o nada, no rosto já não havia deboche, só o vazio e a sombra de uma frágil mulher.

Antes que o tempo se tornara tempo.

O homem entrou na casa da era vitoriana, talvez eras antes. O lugar era escuro, tinha um cheiro de morte, de velhos e talvez até de tempo. Abriu a porta que dava a uma saleta de jogos. “Passo-passo” era o certo, mas não tinha nenhum som dos teus passos. Por mais que o assoalho fosse velho, por mais que a madeira estivesse podre. Nos seus anos de experiência com esse tipo de trabalho aprendera a ser minucioso. Ele era contratado para achar certos artefatos que na maioria das vezes não era de grande valor, tinha que fazer pesquisas, visitar asilos, cemitérios, registros, tudo em busca do seu objeto. Dessa vez um homem o havia contratado, não virá o rosto, o homem se escondia nas sombras da noite. A voz era tão profunda e velha como essas paredes mofadas e podres, centenária.
– Você saberá o que é quando encontrar – e com essas palavras o homem de voz centenária se virou e se foi nas sombras. Maldição, trinta anos nesse ramo e não podia ao menos visitar lugares menos fedidos? O lugar estava cheirando a podre e esquecimento.
Conhecia um homem, um “amigo” cujo vendia peças valiosas e antigas em leilão, ele ganhava uma comissão até boa. Nessa casa, porém não havia peças valiosas até agora, já estava subindo as escadas e não vira nada. Precisava de um cigarro, pegou um no casaco grosso e o acendeu, foi caminhando na escuridão com os olhos experientes, o cigarro parecia um vagalume perdido na mansão abandonada. A fumaça o estava incomodando, maldito seja, não era para ela estar subindo? A fumaça do cigarro estava descendo para seus pés. O coração já não tão jovem começou a palpitar em silêncio, parecia até pecado causar qualquer barulho ao lugar velho.
O cheiro foi piorando, o podre se intensificara, ele abriu uma porta o que parecia ser um grande quarto , pelas paredes e mobília fora um quarto rico. Ele andou até um quadro coberto pelo poeira, um pano velho e o tempo, ao chegar perto da cama tropeçou em algo, quando foi se desviar no rápido reflexo da mente que é mais rápido que o próprio pensamento o vaso já havia caído. Planejando baixo ele esperou pelo barulho, o vaso não fizera barulho ao se estilhaçado em miúdos pedaços.
Novamente o coração começou a palpitar, um frio lhe subiu a nuca e as mãos vacilaram, apagou o cigarro e o jogou junto ao vaso silencioso.
O quadro, deveria ser o quadro. Quando ele tirou o pano, Deus, o que era isso? Uma jovem nua dormia dentro dele, a pele branca, os cabelos enormes, maiores que até o corpo, diria, caia numa cascata preta ao seu redor. Ela dormia profundamente, e naquela escuridão o quadro parecia brilhar como luz.
Ele sentiu algo apertar envolta de si, sentiu mãos frias e molhadas o arranhando
Ajude-nos, ela não pode o encontrar. Ajude-nos. – A quem? Eu, o velho? Perguntas silenciosas. As mãos pegajosas pareciam gritar á ele socorro. Os olhos miúdos do homem se abriram, ele agarrou ao quadro que tinha cheiro de primavera sobressaindo do odor podre e velho. O homem pequeno correu, passou pelas escadas, pelo salão de visitas, pela sala de costura, pelo salão de jogos, até que enfim chegou ao hall, abriu a porta pesada e saiu para o sol. Não percebeu que estava abraçado ao quadro e ofegante. Tirou-o de perto para apreciar a menina-mulher dormindo serenamente lá dentro.
Que espécie de loucura é essa? Uma mulher dentro de um quadro, será tamanho talento do artista que o faz parecer real? Então, diante desse pensamento a mulher que dormia nua, coberta pelo manto negro de cabelos, cercada pela natureza abriu os olhos. E dentro dos olhos havia algo que ele não soube explicar.
Nesse momento não teve tempo de pensar ou refletir sobre os olhos, a casa velha e grande começou a apodrecer e ser destruída, o homem correu para longe para ver a casa desmoronando. O seu coração estava petrificado.
Mais tarde, com o quadro ao lado o caçador de relíquias estava no mesmo lugar das sombras, o homem alto e magro estava lá, ele disse em sua voz rouca e velha
-Vejo que encontrou.
– O que é isso? – O homem coberto pela sombras pareceu refletir sobre a pergunta.
– É uma maldição. – Ele disse por fim
– Ela está viva?
– Tanto quanto eu estou – ele disse rindo numa piada íntima, o caçador não entendeu a graça.
– Traga-a aqui. – Relutante ele foi até o homem alto, ele saiu das sombras e pegou o quadro com carinho. Para a surpresa do caçador esse homem alto era tão jovem quanto um garoto de vinte anos, mas a voz…? A voz profunda, rouca e velha.
– Venha até mim Celeste – ele disse delicado com a voz centenária. O homem passou as mãos no rosto, ela abriu os olhos negros e profundos e sorriu docemente. Como era linda.
– Te esperei a vida toda, mais tempo do que o próprio tempo. – Ela levantou a mão como se fosse o acariciar, mas está não passou da tela.
Calado o caçador observava com um nó enorme na garganta, a saliva havia virado pedra.
– Obrigado homem, foi corajoso, mas além disso, a casa te aceitou por ser tão vazio quanto ela. – Vazio? Não era vazio. Mas o olhar, os lábios, as mãos o denunciou. Homem insolente, quem pensava ser? Antes que dissesse qualquer coisa em voz alta o homem de alma velha pegou uma adaga e rasgou o quadro, o grito da doce mulher ecoou nas sombras. O sangue vazou pela tela perfumada. Lágrimas caia no rosto jovem e belo do homem.
– Eu também sofro. – A voz centenária disse as últimas palavras antes que ele penetrante a mesma adaga em si. As sombras cobriu os dois amantes além do tempo, os levou em seus braços negros e frios. O caçador ficou olhando para o vazio, pegou o dinheiro deixado no chão e se virou para ir embora. Inconscientemente ele havia pegado a mesma adaga e rasgado a alma. Mas ela se fora antes de entrar na casa, antes de conhecer a linda mulher cujo grito final ficaria para sempre dentro de si, o homem cuja aparência de um jovem carregava um espírito velho. A sua alma havia sido rasgada antes que o tempo se tornara tempo.

Crimes perfeitos sem réis.

Ele bateu o copo na mesa, queria o estilhaçar entre os dedos, mas o pensamento da sensação da dor foi maior. Desistiu. Colocou a mão no rosto e começou a chorar, chorava como criança. O gosto da bebida era ruim, não queria beber, mas beber o fazia dormir. Ele deu mais um gole e esse foi o tiro disparado para o grito solitário de um homem desolado. Ele jogou o copo na parede, queria apenas dormir. O por que da tristeza? Nem ele sabia, era maior que ele, já não queria viver, dormir virou o legado de sua vida.
Ele se levantou, fechou toda o quarto e fechou os olhos, deu outro trago e suspirou, não havia nada pra fazer só chorar e chorar já não adiantava, ele resolveu ligar para a emergência.
– Tentativa de suicídio – ele diz com a voz embargada, passou o endereço e deixou o telefone caído. A única testemunha de um crime perfeito do mundo contra um bom homem foi a atendente da emergência. No quarto já não havia choro.

Psicólogos em toda parte, principalmente na família.

Me dizem que estou com depressão. Que há algo de ruim envolta de mim. Me diz, como posso eu saber a verdade? Como posso eu sorrir quando só se acumula amargura em meus lábios. Como posso eu falar se já não me vem as palavras? Como posso eu fazer algo se só quero sonhar? Ora, me deixe dormir, deixe que o sono eterno me preencha, deixe-me ficar sem sorrir.

Sinto o amor.

Sinto-me viva,
Sinto-o aqui.
Sinto-me culpada por o amar tanto.
Meu fôlego é quase palpável, tamanha é minha aflição, ansiedade.
Preciso de ti,
preciso pra mim.
Está tão perto, está tão distante,
No meu coração.
Sinto-o lábios, sinto cheiro teu.
É quase tão único como nosso sol, é quase tão meu.
Sinto-me sozinha, sinto-o perdido.
Preciso de ti, precisas de mim.
Como um navegador procura a bússola.
Como um perdido procura as estrelas.
Sinto-o meu, sinto-me sua.

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Olha, pois bem, nem todo sorriso significa felicidade. Assim como nem toda mulher que ama deve anunciar aos quatro ventos, quem não é mais exclusivo que se não o amado?

Primeira lembrança.

Tenho comigo, até quando? Sempre vejo quando alguém pergunta “Qual sua primeira lembrança?” e eu não sei o que dizer se fosse comigo. Me lembro de quando eu perdi o dente da frente e fiquei sem ele por quase cinco anos (arte de criança na qual eu cai quando fugia de uma mãe nervosa com uma filha sapeca), me lembro de quando estava no navio indo para Manaus e sorria sem dente para meus tios, visitei o capitão e pilotei um pouquinho a enorme roda de madeira. Me lembro de quando estava na Bolívia com meus pais e vestia uma combinação de short com top verde florescente e rosa chiclete. Me lembro de quando fomos a um museu de animais e tinha uma enorme cobra com um jacaré dentro de si, fiquei com medo, mas meu pai me segurou no colo e explicou como aquilo aconteceu. Me lembro do carinho que tinha com meu pai e tinha liberdade minha de o ter. Me lembro de quando eu voltava da escola, deitava na rede e escutava as músicas internacionais que passavam no radio da minha avó que ficava ligado vinte quatro horas por dia, em todos os dias, apenas se calou em sua morte. Me lembro de quando eu havia ganhado um bolo de brinquedo e que acendia a vela plástica, um dia o soprei, mas não se apagou. Me lembro de quando entrei num rio em uma cidade qualquer do Norte do país e chorei de medo de tantos peixes pequenos. Me lembro de quando sentei na praia para comer com meus pais e fiquei sentindo o lugar lindo a minha volta. Me lembro de enganar meu irmão na hora da soneca da tarde, o fazia dormir e ficava acordada. Me lembro de quando eu cheguei da escola e tinha enormes cães filhotes me esperando, fiquei tão feliz por eles que nem almocei. Lembro de quando minha mãe me enganou, amarrou meu dente á porta e a puxou, na hora assustei, mas corri para mostrar a todos minha nova janela à todos. Me lembro de ficar sentada horas lendo na biblioteca da escola e me sentir em outro mundo, nessa época eu tinha uns 6 anos. Me lembro de quando eu cantava com os meninos na van e riámos alegres, eu com uns 4 anos. Me lembro de quando fui na fazenda da minha tia e comi tanta jabuticaba do pé quanto era possível. Me lembro de pensar que tinha super poderes e só eu poder falar comigo mesma sem que ninguém escutasse. Me lembro de como eu achava que meu espírito podia sair do corpo, ir até o banheiro e fazer xixi sem que eu precisasse levantar, me lembro de ficar toda molhada na cama. Me lembro de perder uma cachorrinha e chorar por sua morte dias. Me lembro de ter queimado a perna num motor de fusca na estrada quando meu pai foi pedir ajuda á um homem na porteira da fazenda, me lembro das bolhas terem ficado grandes e minha mãe lavar com água e sabão, lembro que doeu. Me lembro de quando pegava arroz da lata e dava para os passarinhos, minha avó brigava, então comecei a pegar escondido. Me lembro de pegar e cuidar de vários filhotes de passarinho que caia do ninho, raros sobreviviam.
Me lembro de sentar com uma amiga de escola e comer nossos lanches caladas. Me lembro do meu primeiro dia de aula numa escola que odiei, chorei o tempo todo e a professora riu, me lembro de chorar mais e pedir minha mãe pra me tirar de lá. Me lembro do meu primeiro amor de infância. Me lembro de quando eu perguntei pra minha mãe quando eu iria fazer três anos e ela disse o mês, então eu disse que seria muito tempo, mesmo não sabendo ao certo qual mês era qual. Me lembro de quando meu segundo irmão nasceu e eu chorei, não queria ele. Me lembro de quando íamos para Campinas e visitava meu tio avô Pedro, e ele era engraçado com grandes orelhas e um óculos fundo de garrafa. Me lembro da vizinha dele que era mais velha que eu uns 5 anos, mas era menor que eu, tinha uma doença que não a deixava crescer e ficava com as pernas tortas, ela disse, na época ela com uns 8 anos. Me lembro de quando eu voltei da escola um dia (entrei com quatro anos) e havia aprendido fazer chifre com os dedos, minha mãe falou que aquilo chamava o capeta e eu chorei de medo. Me lembro de quando ela me dizia que o homem do saco iria me pegar se eu não dormisse e todo homem que passava suspeito eu fazia uma careta que pensava eu, me transformaria em uma velha e os enganaria. Me lembro de quando eu estava na primeira série, uma formiga morreu e as outras a levou para o “enterro” e eu chorei pela formiga morta. Me lembro de quando me sentia feia e gorda, mesmo sendo uma menina bonita e normal. Me lembro de tanta coisa, mas não me lembro da minha primeira lembrança. Espero que não me façam essa pergunta um dia.

Uma vez na infância.

Lembro-me uma vez, era eu criança na idade de dez anos, ou nove? Não me lembro bem ao certo, lembro-me que minha professora, uma mulher conservadora, religiosa, tradicional escreveu no quadro “A mulher deve ser submissa ao homem”. Lembro-me bem, na época eu perguntei o significado de “submissa”, eu pensei quando obtive a resposta, “Não sou submissa, nem minha mãe”. Ela que me fez gostar tanto da natureza quanto gosto. Plantou um pau-brasil, revezavam para quem o regaria no dia. Uma vez o reguei, passei esses dias por lá e vi o quanto cresceu, não estaria lá se ela não houvesse plantado e ensinado aos alunos sobre ele, a história, a tragédia, me marcou e ajudou a fazer ser quem sou, ao menos uma parte, deixou uma marca. Enfim, ela não era uma mulher muito submissa.