Pequena pedra.

– Melinda – o homem suava nervoso -tem certeza? – A mulher alta de cabelos curtos rentes à cabeça sorriu fazendo os olhos brilharem.
– Vitor, se eu estou nessa, se eu entrei nessa, desde antes, desde agora é porque eu tenho a mais absoluta certeza. Não precisa ir comigo. – O homem louro passou a mão no cabelo e suspirou frustrado.
– Mel, começamos isso apenas para acabar com sites de pornografia infantil, isso que você quer fazer agora é loucura.
– Loucura Vitor? LOUCURA TER CRIANÇAS AÍ NAS RUAS, NAS CASAS SENDO ESTUPRADAS, SENDO TORTURADAS? ACHA QUE ESTOU LOUCA? ACHA? – Ela começou a gritar com ele, correu até o homem e o abraçou.
– Confie em mim Vitor, precisa tirar apenas uma pedra pequena para causar uma avalanche, eu sou a pedra pequena Vitor, eu vou causar a avalanche.
– Você sabe, esses homens, isso não é apenas crianças, isso envolve mais, você se tornará uma figura pública, você correrá riscos. Irá haver rejeição. Não quero te perder. – A mulher beijou a bochecha do homem e passou a mão no cabelo louro palha.
– Vitor, confie em mim, estou disposta a morrer, não que eu seja suicida, confie em mim. Você me conhece há anos. – Ela sorriu para ele, pegou a bolsa, vários folhetos na mão e mandou um beijo de longe.
– Eu te amo Vitor, vamos conseguir isso. – O homem se sentou no chão do apartamento, era mais que um galpão velho que Melinda havia decorado de várias formas únicas. Ele ligou o computador onde havia mais de três monitores, duas CPU e começou o seu trabalho
– Seus desgraçados filhos da mãe vamos acabar com isso agora! – Ele iniciou o processo de destruir sites de pornografia infantil. – Sou a droga de uma pedra grande seus porcos.

Melinda deixou a bolsa no carro, colocou o celular no bolso e pegou os folhetos. Ela não conhecia ninguém disposto a lutar, iria começar sozinha, os outros viriam com o tempo.
– Vamos lutar contra a pedofilia. – Melinda gritava e entregava os panfletos. Ela havia colocado uma placa perto de si “Ajude a combater esse mal, junte-se a nós contra pedofilia”
Pessoas passavam e ignoravam Mel gritando e entregando o panfleto, alguns paravam e lhe davam dinheiro, ela dizia que não, que queria que lessem o panfleto. Não adiantava. Ela já havia passado o dia todo entregando panfletos.
Ela ligou para Vitor para saber se ele estava bem, ele estava enojado, havia entrado em um site, estava difícil sozinho.
Estava vindo um grupo de adolescentes em direção a Melinda, ela suspirou alto.
– Ou tia, o que tu tá fazendo aí? – Ela sorriu mostrando cordialidade a eles.
– Estou tentando fazer as pessoas aceitarem os panfletos e verem que existe crianças neste exato momento sendo estuprada, sendo torturada… – Os olhos dos garotos se abriram
– E como tu faz isso? – Melinda sorriu alguém estava interessado.
– Bom, eu entrego os panfletos falando para as pessoas cuidarem mais de suas crianças, manterem elas perto, lutarem para que esses sites possam ser derrubados, meu namorado ele hackeia os sites e os destrói, coisas assim. São dicas, são pequenos gestos, pequenas coisas. – Os meninos começaram a se cutucar e falar entre si.
– Vamos ajudar então senhora! – Mel sorriu agradecida, entregou panfletos a eles.
O dia passou rápido com eles ajudando ela, as pessoas continuavam pegando, ou dando dinheiro, algumas a abraçava, outras contavam casos de histórias de família.
Um homem passou com sua filha, ela mostrava várias coisas a ele, mas ele falava ao telefone e não prestava atenção nela, Melinda chegou até ela e sorriu, uma oportunidade louca.
– Olá meu bem, está dando passeio com o papai? – A menina a olhou desconfiada, mas logo fez beicinho
– Ele não esta nem aí pra mim, só fica trabalhando. – A mulher pegou na mão dela e a levou até o banco, perto do pai.
– Fica aqui, onde possa ver o teu pai, vou te comprar um sorvete, pode? – A menina sorriu mostrando a falta de dentes e ficou balançando a cabeça e dizendo “Sim, sim , sim!” Melinda logo voltou com o sorvete e entregou a ela.
– Já volto, vou falar com seu pai, fique com meus amigos.
Ela chegou perto dele, cutucou seu ombro, ele a olhou irritado
– Sai fora, quero comprar nada não. – O corpo de Melinda se encheu de raiva.
– Sua filha sumiu senhor. – O rosto do homem ficou transparente.
– Como assim? Marcela! – Ele começou a gritar e olhar para os lados.
– Um homem velho a levou senhor. Não viu? Sabe o que eles fazem com garotinhas como ela? Eles a dão banho, a limpa, coloca num quarto rosa, cheio de brinquedos, ligam uma câmera, então, só então eles a estupra. – O homem começou a ficar ofegante, não achava sua filha, por mais que ela estivesse ali na sua frente, a garota estava se divertindo com o sorvete e caretas dos garotos.
– E depois eles a torturam, eles deixam ela no quarto, diz para que os chame de papai, eles a veste com vestidos Lolita.
– Sua bruxa, cadê minha filha? Para com isso!
– A culpa é sua senhor, sabia? Você está aí falando no telefone, não está dando atenção a ela. É sua, ela será estuprada e a culpa é sua, e é quase impossível a achar, sabia?
– Cala a boca! Marcela! MARCELA! – Os olhos do homem se encheram de lágrimas, ele olhava para todos os lados, quando viu a garotinha veio em sua direção sorrindo
– Olha papai, essa moça me deu sorvete
– Poderia ter remédio no sorvete senhor, sabia? – Melinda continuou falando para ele, várias pessoas pararam e olharam, os jovens continuavam gritando
– LUTE CONTRA A PEDOFÍLIA, PEGUE O PANFLETO E JUNTE-SE A ESSA CAUSA – As pessoas pegavam panfletos e olhavam, depois ficavam olhando para cena na frente.
– Não seria um homem só que faria isso com ela, seria vários, ela nunca seria a mesma, nunca mais. – O homem ficou vermelho, jogou Melinda no chão e começou a bater no rosto dela
– Cala a boca sua estúpida, ela é uma criança! – Melinda ria entre as pancadas
– ELA NUNCA SERIA ACHADA, NESSE MOMENTO EXISTEM MILHÕES DE SITES PORNOS, NESSE MOMENTO EXISTE MILHOES DE USUARIOS ONLINE. SABIA? – O homem cego continuou, até que umas pessoas o tiraram de cima dela.
Melinda se levanta com dificuldade, cospe o sangue de seus lábios, uma mulher veio com vários panos e remédios para ferimentos
– Isso homens e mulheres é o medo de um pai de perder uma filha, e os que já perderam? E os que lutam para achar? O que vocês fazem? Ajudam? Lutam contra? NADA! Eu dei apenas um sorvete para essa garotinha e ela poderia me dizer até onde mora, imagina senhores o que esses homens fariam com os seus filhos? ESTUPRARIAM, SEQUESTRARIAM, TORTURARIAM E ENTÃO, SÓ ENTÃO MATARIA E O CORPO NUNCA SERIA ACHADO, apodrecendo em uma vala perdida, só Deus sabe onde jogado.
Acha que é idiotice lutar por isso? Acha? Eu sou apenas uma pedra pequena, sou apenas uma, mas eu vou lutar! Eu vou lutar e ajudar as pessoas a acabarem com esse mal, serei a pedra pequena, mas serei a que fica no sapato causando ferida aos pés desses malignos e um dia causarei uma avalanche! Seja uma pedra pequena, lutem! – Melinda começou a tossir e se sentou, envolta várias pessoas batiam palmas, o homem abraçava a menina chorando, policia e ambulância já havia chegado ao local, assim como repórteres.
Melinda continuou sorrindo entre ferimentos e lágrimas, ela já havia provocado um pequeno deslocamento nas pedras, ela sabia que de uma a uma isso acabaria, só tinha que continuar lutando.

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2 pensamentos sobre “Pequena pedra.

  1. Ester, você já assistiu um filme chamado Confiar? Fala de uma menina que se envolve com um cara pela net e que é pedófilo,Ela é bem ingenua. Seus textos são ótimos!Obrigada por ser uma voz que grita pelas nossas crianças…

    • Nunca vi, eu já li um livro chamado “Inocência Perdida” é muito triste. São muitas crianças perdidas, isso me entristece quero que as pessoas vejam que não são apenas crianças por pedofilia, mas para prostituição, drogas, guerras.. Abraços!

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