Curso de preparação á dor, ou á vida?

Estou dando voltas no meu carro há meia hora. Briguei novamente com o Paulo, estou cansada dele já, infantil, irresponsável, não sei se quero ele como pai dos meus filhos.
Que lugar é esse! Não há saída, droga, vou voltar o carro. Melhor acender luz alta, está muito escuro. O que é aquilo? Uma menina? Uma criança? Essa hora? Duas e trinta e oito da madrugada.
Meu coração se aperta diante ao quadro na minha frente, mas quando olho melhor eu vejo um homem. No rosto da menina há um misto de prazer, medo, vergonha, nojo. Ela me vê, seus olhos se enchem de água, aquele homem nem ao menos percebe isso. Meu coração continua acelerado. Eu chego com o carro mais perto, trouxe meu esprei de pimenta, é uma loucura, penso rápido. Paro o carro com a luz direcionada neles, coloco meus óculos escuros e minha jaqueta de couro preta, ótimo, pego o celular, deixo no 911 só pra garantir.
– Hey, sai daqui sua vaca. – O homem diz com a mão nos olhos para desviar a luz forte. Eu dou uma risada alta, mais de nervosismo do que confiança, mas pareceu chamar a atenção dele. A menina olha desesperada paras os lados, o homem médio, gordo, grotesco levanta a calça e me olha com cara de tesão. Nojo.
– Saia daqui você. – Pego o celular e finjo falar ao telefone – Capitão? Traga mais dois carros. Certo, irei apreender o sujeito. – CSI ajudou.
– Você é tira? Por favor, eu não estava fazendo nada de mais, ela é só uma vadia. Puta barata. – O homem treme, eu seguro com força o esprei, como se ele fosse meus super poderes de herói.
– Vire-se para a parede e coloque as mãos onde eu possa ver. – Meu coração parecia esta na boca. O homem se virou, não havia saída, para fugir tinha que passar por mim.
– Você menina, entre no carro. – A garota que parecia ter 12 anos abriu a porta tremendo, ela parecia ser forte, outra havia fugido.
O homem aproveitou a oportunidade, veio correndo até mim e me deu um soco forte no olho direito, tropecei para o lado e consegui me segurar.
Droga, ele fugiu. Eu comecei a tossir com um sorriso nos lábios, me sentia uma desgraçada sortuda. Entrei no carro e comecei a chorar, a garota tem apenas 12 anos, ela estava fora de casa, essa hora, sendo estuprada, ou prostituindo.
– Dona? A senhora tá bem? – Eu parei de chorar, havia me esquecido que ela estava no carro. Meus óculos havia voado com o soco, não me importei na droga dos R$ 500,00 que eu havia pagado neles.
– Estou sim, vamos sair daqui. – liguei o radio e deixei a música calma pairar no ambiente pesado.
– Qual seu nome menina? – Eu disse depois de um tempo, ainda não havia me recuperado
– Ne chamam de Manu dona. – Ela parecia mais forte que eu
– Ele a machucou? – Ela parecia envergonhada.
– Não dona, já estou acostumada.
– Ele te estuprou menina? – A garota começou a tremer e o rosto rasgado pelo mundo maligno ficou corado demonstrando traços de sua infância perdida.
– Não dona, eu faço isso pra ajudar em casa, mãe tem mais 7 filhos, não tem o que comer. – Meu coração disparou, apertou, meu estômago revirou, minha alma se partiu.
– E quantas se… – Minha voz cortou, era nojento de mais dizer isso em voz alta, triste demais – Fazem isso?
-Só eu dona, sou a mais velha. – Eu não sabia o que fazer, meu coração gritou “ajude eles, salve eles, chame a polícia, mande prender aquele pedófilo porco” mas eu sabia que não adiantaria, as crianças seriam tomadas da mãe, a mãe passaria fome, ou se mataria, o homem não seria achado, faria isso com mais crianças. Eu comecei a chorar, não sabia o que fazer.
– Está com fome Manu? – Novamente o rubor nas faces tingidas pela vida.
– Estou sim dona. – Eu pensei em Paulo, pensei em como ele era infantil, em como ele era irresponsável, pensei em como eu o conhecia, em como ele me amava, em como ele era gentil, bondoso, trabalhador, educado.
Não existe essa de certo, existe essa de amor, ele não tem regras, e existe a vida, ela é paga as duras penas. Manu lidava com a vida, eu lidava com o amor. Coloquei o carro numa avenida movimentada e entrei num Drive-tru.
Ficamos em silêncio por um tempo, depois eu fui perguntando onde ela morava, como era os irmãos, acho que um herói não faria isso, isso era o que chama de vínculo. Juro, nunca vi uma pessoa comer tão rápido, tanto e tão sorridente na vida. Eu estava em frente a uma criança faminta, talvez uma pequena mulher. Deus ajude que ela esteja sem doenças e sem outra criança na barriga.
Pedi dez para viajem. Lembrei de Paulo e pedi mais dois separados.
A madrugada seria longa e meu coração conturbado nunca mais seria o mesmo. Percebi que a criança-mulher ao meu lado era mais forte que eu. A vida ensina bem aos preparados. Mas quem nasce preparado? Como se prepara? Preparar não é uma escolha, muito menos um regozijo, preparar é uma pena, preparar é ser marcado. Não nasci preparada, hoje iniciei o curso de preparação, acho que reprovei na primeira matéria, minha professora? Uma criança-prostituta esfomeada, Deus nos ajude, nos ajude!

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14 pensamentos sobre “Curso de preparação á dor, ou á vida?

      • Sei não do melhor começo, causo que o começo é seu e eu não sei do seu. Mas sei que existe um começo pedindo para ser começo, começar. Ou, se calhar, os teus textos estão gradativamente mudando, saindo da primeira órbita, se revolvendo. Você, por enquanto, diz “sou”, “estou”. Confessional. E eu queria ouvir de você uma história. Me conte uma.

        • Te contarei uma história. Bom, não sei o que espera, mas não espera. A história que vou contar será publicada amanhã, eu irei escrever o seu “nome” para que saiba que é ela.
          Mesmo eu ainda não sabendo que tipo de história quer. Ou como a quer. Você é um tanto quanto misterioso, isso instiga, é bom.
          Sou um grande clichê, então digo novamente, sem expectativas!
          Abraços e até breve, assim espero.

  1. Cara S.E., o que é escrever e o que são histórias de quem escreve? E por que escrever, você não me perguntou, mas devia. Não sei quem escreveu, mas compartilho, que escrever é ver a folha em branco e com muita dificuldade, começar. Quem tem facilidade é orador ou publicitário, profissões outras com demandas próprias.
    Escrever também nada tem a ver com ser escritor profissional. Escrever é pulsão, tornar-se escritor é ambição e escolha. O que não significa que escritor e quem escreve não possam ser a mesma pessoa, mas não é condição essencial. Ambos, no entanto, têm que dominar seu métier: nós dramáticos, personagens, estilo. A carpintaria.
    Tenho minha própria opinião sobre quem escreve. Desconfio muito das explicações mais buscadas, de que se escreve para responder a questões íntimas ou, mais filosóficas: escrevo para mapear o mundo, escrevo para me encontrar, escrevo para estabelecer um pacto com o outro.
    Frescuras.
    Escrevemos porque sabemos escrever, porque nos alfabetizamos, porque podemos. Escrevemos porque não temos vergonha de escrever e não por algum talento nosso, que suspeitamos escondido lá em meio aos nossos bofes.
    Os que escrevem são putas. Putinhas todos nós, procurando o melhor desempenho que traz o melhor pagamento.
    E veja como somos putinhas mesmo, nós os que escrevemos. Quando a putinha vai putear ela sabe que seu corpo é só metade seu; a outra metade é para gáudio e prazer do cliente. E com você, comigo e outros, não é a mesma coisa? Somente metade do que escrevemos é nosso, o resto é de quem lê.
    Então, como se escreve uma boa história? Desconfio que é querendo escrever uma boa história. E aí vale tudo: podemos criar um esqueleto, definir começos, andamentos e finais. Roteiro mesmo, definindo nossa história em uma única frase e trabalhar a partir daí.
    Podemos também ser putas espertas e enganar as musas: fingir que se vai escrever sobre o átomo e repentinamente mudar para culinárias; fingir que é poesia e mudar para prosa; fingir que é galhofa. Fingir que é sério.
    Agradar ao freguês.
    E finalizando: Sabe qual é o objetivo último, final, de quem escreve?
    Se souber, você me informa? Divide comigo?

    • Ser reconhecido talvez? Se bem que nós não podemos generalizar. Suas palavras são fortes, mas são totalmente sinceras. Realmente nós escrevemos para além de nós, para aqueles. Eu realmente não me considero alguém que escreva bem, ás vezes leio o que escrevi e fico com vergonha do que escrevi. Eu posso dizer por mim, por que escrevo? Porque amo, porque anseio tirar as palavras de mim, tentar preencher aquilo que está vazio dentro de mim. Eu escrevo (muito na maioria) para me agradar, para lê sentir bem, mesmo que como eu disse, eu não gosto, eu tenho apenas que passar para o papel. Não sou do tipo que conta, chora, grita aquilo que sinto, eu escrevo. O motivo de estar te dizendo isso? Não faço ideia, senti que devia. Não escrevo me baseando em algum escritor (por mais que ideias não sejam virgens), baseio em mim mesma, em momentos, o que está ao meu redor, talvez, talvez seja meu erro. Por que escrever? Para tirar emoções do leitor? Também. Existem tantas lacunas e tantos pontos nessa pergunta que eu diria que ela chega a ser íntima do vulgo chamado “escritor” e eu, não sei, não me considero escritora, não me considero muita coisa. É algo presente nas minhas palavras, sou tudo e nada, sou o que quero ser, ás vezes.
      E você, o que é, por que escrever? Outra pergunta íntima na qual muitos não sabem a respostas. Qual o objetivo final de quem escreve? Qual o objetivo de alguém? Tudo o que disse foi apenas, ou praticamente sobre mim, que só a mim conheço. Só conheço meus objetivos, na verdade nem eu os conheço, não planejo o que escrever, não paro e penso sobre o enredo, eu olho a página branca e de mim saem palavras, como improviso. Não sou boa em planejar. Não sei como escrever uma boa história, gostaria de saber, na verdade não, existem tantos “bons”, e para cada pessoa é diferente.
      Eu disse tanto e nada, creio não poder responder sua pergunta, tenho objetivos diferentes de outros, muitos tem sonhos, expectativas e eu tenho mais necessidades, anseios.
      Dividi contigo aquilo que acabei de formular, pode não ser concreto, pode estar sujeito a mudanças. Opiniões, na maioria, vivem mudando. Eu sou muito confusa.
      Espero ter ajudado, ao menos um pouco.
      Abraço.

      • Ficou bom. Já se disse que o importante não são as melhores respostas, mas sim as melhores perguntas. Bons barcos, balançam. E nós, bem, não estamos tão mal assim, não é? Perguntamos muito e balançamos muito também. Grande abraço, S.E.

  2. esses cursos são doloridos e nos ensinam pra caramba. pensando na Manu e nos irmãos e em quantas Manus existem por aí. Bela história.

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