Deu vontade de expressar.

– Você é um tanto quanto sombrio meu amor.
– Meu bem, desde quando as sombras são um obstáculo para nós felinos?

Aprendi a olhar de olhos vendados, escutar as vozes ansiosas e descobri a verdade além do rosto inocente.
Se eu já me espatifei no chão?
Várias vezes, faz parte.
Mais cair nunca deitado.
No dia em que eu abri os olhos os fechei novamente. As imagens distorcidas mexeram com meu julgamento.
Nós felinos seguimos o barulho mesmo cegos.

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Para todos nós, para vocês.

Preciso de orações. Peço a Deus que cumpra o desejo do meu coração. Do de vocês, o melhor para nós.

O amor de quem se ama.

– Então, adeus? – Eles olhavam nos olhos um do outro. Sete anos juntos.
– É, adeus. – Ela sorriu meio sem jeito. O coração estava despedaçado.
– Foi bom.
– É, foi bom – se abraçaram de um jeito apertado, o coração de ambos doía, mas nenhum falou nada.
– Sabe que eu vou sempre te amar.
– Eu também. – Meio sem jeito ela saiu andando, ele a olhou. Não tinha o que dizer, o amor estava ali e nunca acabou, nunca vai acabar. O adeus de quem se ama é apenas uma vírgula, o ponto final fica pro depois.

Jogando sujo na dor e amor.

– Por favor, me abraça – ela disse com a voz chorosa. 
– Não vamos complicar as coisas – ele a empurrou e foi para perto da porta. O coração dela doía, não tinha como definir em palavras.
– Você não me ama mais? – Foi meio que um sussurro.
– Não. – Ela levantou a cabeça, já havia perdido a dignidade.
– Estou grávida.
– Mentira
– Tudo bem, daqui nove meses você descobre. – Ela beflou. A risada dele ecoou pelo apartamento.
– Você não está grávida e sabe disso, vê se cresce, quem sabe não arrume alguém que te ame e te suporte. – Enfim ele fechou a porta. Enfim ela caiu sentada e gritou.
– Vai se fuder amor. – Então, rindo até que seus pulmões doesse ela chorou entre um e outro intervalo de dor e risada.

O mesmo sentimento em palavras diferentes.

Aqui do meu lado tem uma voz, ela me diz o que quero escutar
Aqui do meu lado tem uma sombra, ela me esconde.
Aqui do meu lado é só amargura, o tônico forte que me deixa com náuseas.
O meu combustível poroso.
O calor me fervilha as ideias, me deixa a mercê do vento.
Ele não sopra, ele não me refresca.
A sombra que me esconde tem um quê de fumaça vulcânica, ela me sufoca.
O meu coração me acusa de não amar, ele está gritando, ele está gemendo.
O meu mundo é preto e solitário, só eu vivo nele.
Nem a chuva quente lá fora já me sustenta, devo me calar.

Meus dias.

Esses dias eu estou passando de cama, o calor está me sufocando. Fico deitada até que a noite caia, o que faço? Leio, hoje madrugada li três livros, ontem quatro, assim como os dias tem sido preenchidos pela leitura. Meu diário de bordo seria:
Cama, livro, calor e sono.
É o que tenho vivido, é o que tenho feito. O calor ainda me atinge mesmo dentro de um livro, mesmo em outro mundo.
Espero que esses romances me mude.

Pecados passados.

– Mãe, compra absorvente. – A mulher parou de mexer a panela e olhou a menina sorridente.
– Você menstruou filha? – A moça a olhou com desdém.
– Não, estou pedindo absorventes para grudar na roupa e sair andando na rua. – A mulher a olhou triste, parecia que havia sido atingida por um caminhão, foi pior, foi pela língua da filha.
– Você devia me respeitar mais. – Disse se virando para o fogão. A moça a ignorou. Não era a primeira vez que menstruava, já era a quinta. Não contou pra mãe.
– Cadê o dinheiro? – Ela disse seca.
– Em cima do armário. – Ela se virou e foi embora. A senhora se sentou na cadeira e começou a chorar.
– O que eu fiz Deus, o que fiz pra minha filha me odiar? – Ela enxugou as lágrimas e terminou a janta.
A moça não voltou aquela noite. A mãe não pode fazer nada, só chorar, sabia a resposta do seus problemas, pecados que ela não podia simplesmente pagar.

01/02

Que idade me dá pelas minhas palavras?
Pelo meu modo de escrever?
Que idade me dá, pela minha risada, pelo meu modo de viver?
Que idade me dá pela minha solidão, pela minha imaginação?
Que idade me dá, pelo meu tamanho, pelas curvas do meu corpo?
Que idade me dá, pelo meu rosto, pelo meu sorriso bobo?
Que idade me dá, pela minha forma de amar, pelo meu medo de escuro?
Que idade me dá, pela forma que aconselho, pela forma que lhe digo minhas experiências vividas?
Que idade me dá, pelos meus olhos quase perfeitos, pelo meu olho “cônico”?
Que idade me dá, pelo meu tanto de lágrimas, pelos meus desejos obscuros?
Que idade me dá, pelo forma de falar, pelo meu andado torto?
Que idade me dá, pelo meu tanto de sonho, pelos meus gritos soltos?
Que idade me dá, além de amanhã nos meus quase 18?

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Não que eu seja essa que está vendo, há mais além do rosto.

Persistência sem assistência.

O gato esticado no meio da cama me fazendo ficar encolhido no canto, a cachorra deitada debaixo da cama com os olhos fechados. O pior que a tristeza, a alegria, a dor é o nada, quando você já nada tem. Eu ainda estou sentindo esse cheiro forte e não sei de onde vem. Parece que alguém morreu no meu quarto e o corpo está apodrecendo debaixo da cama.
O nada novamente se mexe dentro de mim, estou lendo um livro que não gosto, é o único que sobrou depois de ter lido todos, ou era esse ou um de romance para mulheres frustradas, não obrigado.
O gato se estica e me olha, passa a língua grossa no meu braço. Me levanto, olho para a cama, olho para o cheiro, não há nada lá. Grito, jogo tudo para o alto e vou embora, o nada me preencheu, e do nada surgiram peixes.