Olhos feios.

Um dia eu conheci uma garota feia. Ela era muito feia. Não há o que falar da feiura dela, apenas que meus olhos ardiam, meu nariz coçava, eu espirrava, tinha ânsias estranhas. E quando ela falava com a voz feia dela meus tímpanos quase explodiam.
Então ela ficou triste, não pela feiura dela, já havia se acostumado com aquilo, mas com que a feiura me causava. Dor, dor física, incômodo.
Ela resolveu
– Vou te vendar! – Eu assustei. Olhar pra ela me doía todo, escutar a voz dela era horrível, não pela voz em si, mas pelo conjunto de feiura, lábios, dentes, hálito, rosto, tudo.
Ela veio com as mãos feias e me colocou aquele pano preto com cheiro de canela, cheiro bom até, assim eu não a repulsava.
Não via nada, no começo desesperei, eu estava sozinho naquela sala com aquela menina feia. E tudo se fazia de silencio, tudo era calmo.
Foi então, então que eu escutei aquela voz suave, aquele cantar calmo. Escutei a voz mais linda da minha vida.
Era tão gentil, e a voz falava e falava, e dizia, e falava. Quando mal percebi eu havia apaixonado, não pela voz, claro, confesso, também pela voz, mas muito mais pelas palavras. Quantas palavras belas a voz dizia. Era uma voz que vinha do coração. Era uma voz que proclamava coisas lindas. Tudo quanto era dito fazia sentido, eu estava cego naquele momento, cego dos olhos. A menina feia havia sumido e trago sua irmã bonita, só pode, eu pensava.
A voz foi dando razão ao sentimento, passei então a querer ficar vendado vários dias, os dias se passaram, a mão suave me auxiliava, a voz doce me guiava. O coração estava na frente, e isso era bom. Maravilhoso. Era lindo.
Um dia a voz me disse, disse com aquela doçura
– Terei que partir. – E, meus caros, com essas palavras o que se partiu foi meu coração. O meu grito se fez alto, todos o escutaram. Ele foi para todos os lados. Eu dizia para ela, com súplica
– Não, não, não tu não podes ir, minha donzela. Já firmei amor em ti. Foi um caminho a cegas, não há volta. Não sei como voltar. Se tu és minha luz. Não partas. Não, não e não! Exijo que fiques, exijo. – Ela riu, um riso cristalino, e com aquele riso eu me sentia numa cascata d’água com os pés molhados, com pássaros a minha volta. Com ela do meu lado.
– Eu fico. – Ela disse baixinho – Mas, fico apenas se tu me veres. – Aquilo foi o melhor pedido, pensei. Como a voz era bela, a essência era bela imagina ela. Eu já não me lembrava daquela menina feia, o envenenamento dela já havia se desvairado de mim.
-Sim, você é minha amada, eu aceito te ver. Mas antes que eu veja, me dê um beijo. – Claro, ela aceitou, e foi então que eu senti os lábios mais doces nos meus, como se o sopro da vida houvesse entrado em mim.
Ela tirou com as mãos doces à venda escura, abri os olhos aos poucos para a claridade, fui me acostumando, foi então que eu vi, a mesma menina feia, a mesma feiura ali na minha frente. Assustei. Meu corpo queria se coçar. Eu perguntei
– Cadê minha bela? Onde ela foi? – A menina feia chorou. Quando ela estava chorando que eu percebi. A beleza nela, o rosto suave, havia uma beleza perfeita abaixo daquela feiura. Ela era minha bela. Eu aprendi amar além daquela casca grossa, eu aprendi amar a essência. Então, meus caros, eu cheguei perto dela, limpei aquelas lágrimas e olhei para a mulher mais linda da minha vida. Já não havia feiura. A única feiura estava em meus olhos. Eu os vendei novamente. A abracei, a minha bela, minha bela feia. 

 

Image

A beleza dá chuva é além do molhado.

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8 pensamentos sobre “Olhos feios.

  1. Ester, coisa mais linda essa postagem. Dá até uma lição de vida e dá também para aplicar o chavão: As aparências enganam.
    Infelizmente a gente tem a mania de julgar quase tudo pelas aparências quando a beleza está na essência.
    Adorei essa postagem.
    Um beijo,
    Manoel

    • Ah, obrigada! Eu ás vezes enxergo com os olhos feios, mas depois coloco uma venda e vejo a essência! É assim a vida, descobrir a essência. Obrigada, Beijos pra você!

  2. Eu sempre digo que a beleza depende de quem vê e, as vezes de quem nada vê porque há certas coisas que nos escapam ou, talvez nos alcancem sem que a gente de fato saiba. Adorei esse conto minha cara…

    bacio

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