Amor cotidiano.

 

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Tenho medo de amar – Digo a mim mesma, mas na verdade tenho medo é de viver sem, sem o amor.

– Estive pensando. 
– Hum? – Ele estava com as mãos entrelaçadas nas minhas, mãos sempre frias. 
– Eu acho que devemos nos afastar. – Ele não se mexeu, não disse nada, apenas continuou brincando com meus dedos. 
– Por que? 
– Porque eu acho que não te amo mais. – O rosto continuava passivo, nada demonstrava nenhuma expressão de espanto. 
– Não ama mais? 
– Não – Então ele me puxou para perto, segurou os meus braços e me deu um beijo, um beijo suave. Depois beijou meu pescoço, meus ombros e novamente subiu para os meus lábios. 
– Então… – Ele dizia entre os beijos trilhados. – Deixe para me amar amanhã. Hoje só eu te amo. 
Eu já não dizia nada, acho que no fundo o amava, talvez eu tenha medo do contrário, dele não me amar. 

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Foi e quando voltou faltava partes.

– Estou com saudades de você.
– Mas eu estou aqui do teu lado.
– Não, saudades do “você” que não existe mais. 
– … 

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Pensamentos são estranhos, o corpo fica e a mente vai. E em alguns ela não volta de todo. Não de todo.

 

Opcional.

Um segredo só é aguardado por uma pessoa, se for por duas pessoas uma delas tem que está morta. Isso está na minha cabeça desde cedo. Quando é que um cadáver começa a cheirar mal? Meu corpo tremeu nos primeiros momentos. É melhor respirar fundo, uma, duas vezes.
Eu não sei como esconder um cadáver. Um segredo só é guardado por uma pessoa. Meu coração acelera, o telefone em minhas mãos parece oscilar. Um, dois, três.
Eu não sei onde guardar um cadáver. Eu tenho que saber.
Eu não posso ter ligação, ficar sentado a tarde toda não adianta. Sangue, sangue frio.
Oi Maria, quanto é uma faxina tua? Sim, quero uma faxina geral, água em tudo! Mas eu quero uma daquelas suas meninas que você contrata, sabe? Uma dessas que nunca mais vou ver na vida e nem vai me ver? Eu estou com vergonha da minha casa, está um nojo, sim, sim amanhã cedo. –Eu desligo o telefone, minha casa está em reforma…
O quintal é um bom lugar, cresce roseiras em terra molhada. 

 

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Quanto de margaridas?

Olhos feios.

Um dia eu conheci uma garota feia. Ela era muito feia. Não há o que falar da feiura dela, apenas que meus olhos ardiam, meu nariz coçava, eu espirrava, tinha ânsias estranhas. E quando ela falava com a voz feia dela meus tímpanos quase explodiam.
Então ela ficou triste, não pela feiura dela, já havia se acostumado com aquilo, mas com que a feiura me causava. Dor, dor física, incômodo.
Ela resolveu
– Vou te vendar! – Eu assustei. Olhar pra ela me doía todo, escutar a voz dela era horrível, não pela voz em si, mas pelo conjunto de feiura, lábios, dentes, hálito, rosto, tudo.
Ela veio com as mãos feias e me colocou aquele pano preto com cheiro de canela, cheiro bom até, assim eu não a repulsava.
Não via nada, no começo desesperei, eu estava sozinho naquela sala com aquela menina feia. E tudo se fazia de silencio, tudo era calmo.
Foi então, então que eu escutei aquela voz suave, aquele cantar calmo. Escutei a voz mais linda da minha vida.
Era tão gentil, e a voz falava e falava, e dizia, e falava. Quando mal percebi eu havia apaixonado, não pela voz, claro, confesso, também pela voz, mas muito mais pelas palavras. Quantas palavras belas a voz dizia. Era uma voz que vinha do coração. Era uma voz que proclamava coisas lindas. Tudo quanto era dito fazia sentido, eu estava cego naquele momento, cego dos olhos. A menina feia havia sumido e trago sua irmã bonita, só pode, eu pensava.
A voz foi dando razão ao sentimento, passei então a querer ficar vendado vários dias, os dias se passaram, a mão suave me auxiliava, a voz doce me guiava. O coração estava na frente, e isso era bom. Maravilhoso. Era lindo.
Um dia a voz me disse, disse com aquela doçura
– Terei que partir. – E, meus caros, com essas palavras o que se partiu foi meu coração. O meu grito se fez alto, todos o escutaram. Ele foi para todos os lados. Eu dizia para ela, com súplica
– Não, não, não tu não podes ir, minha donzela. Já firmei amor em ti. Foi um caminho a cegas, não há volta. Não sei como voltar. Se tu és minha luz. Não partas. Não, não e não! Exijo que fiques, exijo. – Ela riu, um riso cristalino, e com aquele riso eu me sentia numa cascata d’água com os pés molhados, com pássaros a minha volta. Com ela do meu lado.
– Eu fico. – Ela disse baixinho – Mas, fico apenas se tu me veres. – Aquilo foi o melhor pedido, pensei. Como a voz era bela, a essência era bela imagina ela. Eu já não me lembrava daquela menina feia, o envenenamento dela já havia se desvairado de mim.
-Sim, você é minha amada, eu aceito te ver. Mas antes que eu veja, me dê um beijo. – Claro, ela aceitou, e foi então que eu senti os lábios mais doces nos meus, como se o sopro da vida houvesse entrado em mim.
Ela tirou com as mãos doces à venda escura, abri os olhos aos poucos para a claridade, fui me acostumando, foi então que eu vi, a mesma menina feia, a mesma feiura ali na minha frente. Assustei. Meu corpo queria se coçar. Eu perguntei
– Cadê minha bela? Onde ela foi? – A menina feia chorou. Quando ela estava chorando que eu percebi. A beleza nela, o rosto suave, havia uma beleza perfeita abaixo daquela feiura. Ela era minha bela. Eu aprendi amar além daquela casca grossa, eu aprendi amar a essência. Então, meus caros, eu cheguei perto dela, limpei aquelas lágrimas e olhei para a mulher mais linda da minha vida. Já não havia feiura. A única feiura estava em meus olhos. Eu os vendei novamente. A abracei, a minha bela, minha bela feia. 

 

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A beleza dá chuva é além do molhado.