O queijo, a vaca, o garoto e o velho.

Image

O queijo e o milagre.

 

Essa, meus caros, é apenas mais uma dessas anedotas que não sabemos o quão verídico pode ser, dessas que se vão de boca em boca até chegar um dia de domingo, já a noitinha com todos reunidos na sala, pais, avós, filhos, netos, primos e conhecidos, reunidos num recinto pequeno com cheiro de terra molhada e de fazenda sertão.
Pois bem, sem mais delongas, essa é a história da Vaca milagrosa. Sintam-se em casa, diria minha avó com o cheiro de café e cigarro tão bom que ela tem a baixo daquele perfume indistinguível.

Em uma terra fértil, havia uma pequena vila, onde se moravam pessoas que trabalhavam em suas terras e cuidavam de seus gados.
Num dia a tarde, dia de terça-feira estava tendo uma feira e veio um garoto com um queijo envolto num pano e numa sesta.
Ele olhava para os lados procurando alguém para oferecer o teu produto.
Havia muitos gritos de “Moça bonita não paga, mas também não leva! Vem que está fresquinho!” ele ia gritando nas paradas que fazia “Olha o queijo da Vaca Santa, olha o Queijo da Vaca Santa, quem come do queijo acorda curado!” Ele andava e ia vendendo, mas já estava ficando de tarde e havia sobrado um ultimo queijo, o que fazer? Precisava vender, as pessoas já estavam voltando para suas casas, afinal o outro dia era cedo, e quando, meus caros, eu digo cedo eu digo quatro horas da madrugada, hora de tirar o leite das vacas. Ele estava já desiludido, para quem vender o queijo. Então, como um milagre divino ele viu um senhor parado perto de um poste com um ramo de capim ao lado da boca, um chapéu desgastado pelo tempo e uma roupa de gente humilde da roça. Ele pensou na hora “Eis meu comprador”, chegando de mansinho ele olhou pro senhor e já foi logo cumprimentando “Tarde sinhô! Eu vi que o sinhô tá aí, cabisbaixo, eu sei que deve ser pela idade, num é?!” Ele deu um sorrisinho e já foi logo falando sem esperar resposta “Óia, vo te conta, aqui, entre nóis, esse queijo, aqui que tô vendendo, ele é milagroso.” O velho pigarreou e cuspiu no chão “Ah é? Me conta isso minino!” O garoto já logo ficou encantado, afinal, ele já tinha lançado a isca e o peixe fisgado, agora era só puxar.
Óia, a Dona Maria, múie trabaidora, mora aqui nas redondeza, o sinhô deve até conhece a Maria da Vaca malhada, ela tinha um amor pela vaca, coitada, a vaca amiga dela, ia pra todo lado com a vaca, até um dia que a vaca caiu doente, sabe lá Deus o porque. Dona Maria chorou dum tanto, o sinhô num tem noção, era choro pra lá, pra cá, as vizinha dela, dona Lurdes, dona Gertrudes, até acendeu vela pra Nossa Sinhora, mas a vaca nada de miora, dona Maria então resolveu fazê promessa, disse que se a vaca miorasse ela ia fazer queijo e vende para as pessoa vê que a vaca tinha vivido, graças a Nossa Sinhora. Mas parece que a promessa num chego no céu assim rápido, a vaca só piorava, dona Maria até adueceu.” O garoto olhou pro senhor, pegou o queijo e mostrou, fresco e curado. “Continua muleque, eu num tenho o tempo do mundo não” O garoto assentiu e continuou “óia, só vou vender pro sinhô, com um desconto bão né, porque to vendo que o sinhô tá tudo pindaido, cheio de doença, artrite, osteoporose, e essas doença de vei, reumatismo. E óia, meu pai morreu disso.” O Senhor cuspiou outra vez no chão e pigarrou alto. O garoto ficou intimidado, mas continuou falando. “Maria adoeceu e chorou muito, disse que ia morre com a vaca, onde já se viu isso, crem’Deus pai. Aí ela acendeu todas vela da casa e foi reza, rezou e rezou, não aceitou ser atendida pelo dôto. Mas então, houve um milagre, a vaca miorou, no outro dia dona Maria foi lá e pegou leite da vaca, bebeu o leite e melhorou depois de tardizinha, acredita? É, a vaca miorou com a bença da Mãe. O leite curo dona Maria. Miorou dum tanto. Até corada ela tá. Eu vi com esse óio que a terra há de cume! E depois disso dona Maria fez os queijo e to vendendo pra ajuda né. Baratim sô… Qualé o seu nome memo?” O Senhor esticou as costas e falou “O meu nome? É Chico menino. Eu vou te conta uma história, minha muíe, ela tem uma vaca, e um dia essa vaca adueceu, minha muíe ficou triste e também adueceu, eu fiquei doido né, ia perde muié e vaca. Aí nóis feiz promessa pra Nossa Sinhora, passou uns dia minha vaca miorou, minha muié que ama a vaca mioró depois que tomou o leite dela. Então mininu, essa vaca faz milagre, queijo eu não quero comprar agora, mas sê ocê quisé, lá em casa tem uma vaca que passou por um milagre, baratinho muleque, se quisé eu te mostro, parece que ocê já conhece a Maria mesmo, minha muié, né não? E procê sabe, ocê é dotô? Que eu to mió que ocê seu fídumaégua! Reumatismo o caramba sô! Ará! Saí daqui muleque.” O menino saiu correndo de perto do seu Chico. E ele aprendeu uma boa lição de que é sempre bom conferir dados do cliente antes de mostrar o produto, vai que ele é um dos “donos” da “franquia”.
Ah, claro, ele também aprendeu a não falar para velhos que eles estão doentes, isso não é legal, crianças, não repitam isso em casa! 

Anúncios

2 pensamentos sobre “O queijo, a vaca, o garoto e o velho.

Comente.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s