Morto vivo.

 

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Talvez eu apenas precise de um coração novo, o meu já morreu nesse corpo vivo.

Sabia que odeio que me olhem? Essa frase está na minha cabeça a dia, martelando como se fosse uma construção civil de um mega prédio. Odeio que me olhem, odeio que me atrapalhem, sim, sou algo do tipo antissocial, mas me olhar é pior, odeio ser observado. NÃO ME OLHE!  Eu queria apenas que não me olhasse, essa música está tocando aqui e agora, eu odeio gritos, eu poderia gritar por ouvir gritos, odeio e odeio. Sim, hoje estou odiando muita coisa.
Tudo bem, vamos mudar de assunto, certo? ERRADO. Quero dizer que odeio ser olhado, não me olhe.
Ah, que droga, não sei mais o que falar, talvez eu tenho ficado assim desde que morri, as pessoas passam por mim e me olham como se eu fosse um monstro, eu sou normal, só morto.
Talvez eu prefiro ser assim, morto e sem ter que dar minha opinião, talvez eu não esteja realmente morto, mortos não andam, ou andam?
Ontem eu estava sentado fumando, uma garotinha virou pra mim e disse
– Cigarro mata senhor.
– Já estou morto garota. – Ela arregalou aqueles olhos feios.
– Mentira, mortos não andam.
– Andam, e eu estou morto, morto morto! – Ela botou a língua pra mim e depois começou a chorar, eu comecei a rir e dei uma baforada de cigarro na cara dela, bem feito! A mãe dela veio e a pegou pelo braço me olhando feio, e estar morto é bom, não precisa ser alguém com moral, por isso que eu posso gritar na rua, do nada, grito mesmo.
Um dia eu estava andando de madrugada, ao lado de um cemitério, claro, tem sempre essas piadinhas, e eu adoro elas, estava fumando quando vi vários jovens ao lado se pegando e bebendo. Eu passei do lado deles e pedi um gole de bebida. Eles foram camaradas e me deram, perguntaram se eu queria também maconha. Eu fumo, mas não curto maconha, acho errado.
– Ah, não, valeu, quando eu era vivo levei uma mega surra por causa disso, depois de morto fico só no cigarrinho mesmo. – Dei um sorriso e apaguei o cigarro na língua, doeu pra caramba, mas eles ficaram com medo e foram embora correndo, eu morri de rir. Depois fui pra casa, me deitei e fechei os olhos, ser morto é um saco, eu não consigo dormir, deve ser por isso que há fantasmas, temos esse vazio tão profundo.
Minha mãe gritou comigo, disse que a próxima vez que eu chegar de madrugada em casa eu estou pra rua! Vai me expulsar, mas ela fala isso tem dias.
– Amanha Firmino, amanha vamos no pisculugo! Sem conversa, home barbado desses aí vivendo como morto. – Eu fechei os olhos, droga, não é porque estou vivo na carne que quer dizer que meu coração morto tem que ter insônias também, quem sabe amanhã. 

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Estrelado

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Veja o céu meu amor, brilha como teus olhos, deixe-me olhar mais um instante, apenas mais um instante…

 

Nos teus olhos eu vejo as estrelas. Nos teus olhos vejo minha casa, moradia. Nos teus olhos me vejo de um jeito estrelado, onde quero abraçar-te e morar em ti, é nos teus olhos que vejo o brilho dos teus lábios tocando os meus. Vejo até a esperança um dia perdida. Pena que os teus olhos estejam mortos, assim como tu. Estes olhos também tinham mãos, tão finas quantos pequenos galhos de árvores, e geladas, não um gelo qualquer, mas frias e sombrias, cobertas por uma névoa negra que envolve o teu coração, sinta-o, lhe roubando a vida, lhe envolvendo com esse sentimento de amor, que só a morte proporciona, com essas mãos geladas pegam o teu coração e envolvem com os pequeninos dedos, gelados e negros. Esta sentindo? Sinta-o. Sinta o amor, que eu queria que fosse o ódio, o ódio que lhe corrói o coração, que lhe deixa os sentimentos negros, o ódio que só o amor pode proporcionar o amor perdido. Quer que eu te abrace? Venha cá querido, deixe que eu lhe abrace com meus braços frios e mortos e lhe olhe com meus olhos estrelados. Ou os teus olhos? Quem sou eu? Quem? Diga-me meu amor, quero te abraçar e sentir o que corre em tuas veias, esse liquido preto que já não é mais vermelho, é preto que o amor, teu tão querido amor o transformou assim. Deixe-me perder nestes teus olhos estrelados. Deixe-me passar o teu medo. Quer um beijo meu? Quer um abraço meu? Serás o teu ultimo meu céu estralado. 

Canção.

 

 

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Trilhada na alma, cada nota é uma dor dedilhada, dedicação é o que nos falta.

Os longos e finos dedos dedilhavam o piano com certa preguiça e melancolia. A garota pequena de vestido preto tocava o piano como se não estivesse ali, apenas o corpo e os dedos pálidos. Ela fazia parte do piano, como um órgão, um apêndice. Ela olhou para a janela a fora, e viu o jardim, o imenso jardim que cercava a propriedade, continuou tocando com sua monotonia, viu um garoto de longe, ele estava com um homem, cuidando do jardim, pegava nas rosas com tanto carinho que era como se elas fossem parte de si. Sorriu para o homem que afagou o cabelo cacheado do garoto alto. Ela olhou para as suas mãos, olhou para o lado e viu uma mulher sentada e fumando. Então ela começou a tocar rápido, talentosamente, começou a tocar alto e de uma forma viva, tão bela, tão alegre, tão esperançosa. A mulher a olhou e deu uma tragada no cigarro que estava nos dedos longos e finos, assim como os da garota. A mulher a olhou desaprovando aquela ligeira mudança, se levantou e saiu da sala, a garota, agora com os dedos calmos e o coração atormentado voltou para a canção monótona e diferente da primeira esta era triste e sozinha. Ela olhou para o piano, para a sala ricamente decorada, para a extensão da enorme propriedade e voltou os seus olhos grandes e profundos para o garotinho que agora a olhava, ele lhe sorriu e pegou uma rosa, grande e vermelha, e foi andando até a janela, a deixou no parapeito e lhe sorriu novamente. O coração calmo da garota voltou a bater forte, e ela começou a tocar alegremente novamente, o sorriso do garoto aumentou. O homem o chamou e ele se foi correndo deixando a rosa sozinha na janela e a garota tocando alegremente, então o tempo de cada nota foi aumentando, já não estava rápido, agora estava diminuindo, as notas ficaram compridas e a canção monótona, a garota se acalmou novamente. Levantou-se e pegou a rosa vermelha, a colocou nos cabelos grandes e claros, se sentou novamente e voltou a tocar, não uma canção lenta e triste, mas uma canção lenta e esperançosa, suave. Ela sabia que já tinha um apreciador e não uma descrente em seu talento ou em sua existência, diferente do garoto que não tinha além da alegria ela tinha tudo e apenas uma alma solitária que não era devidamente amada.