Os Sem Sonbras

5

 

 

Os dedos longos e finos dedilhavam pelo piano com graça. Ele tocava Reverie – Claude Debussy com um olhar para Alice de tristeza. Os olhos tristes intercalavam entre Alice e o piano. Um cacho caiu perto do olho e com uma mão ele o tirou e voltou a tocar.
-Muito bem, muito bem Bernardo! Você está melhorando e mais! Admirável releitura da peça de Claude! Estou adorando! Vamos querido, toque mais umas duas peças para mim e pode ir para a próxima aula! – A mulher alta e muito magra tinha um coque despenteado no alto da cabeça, os dedos longos e fino dançavam de um lado para oo outro admirando o aluno exemplar. A professora de música Ana sempre esteve com Bernardo, desde que ele viera para a instituição e fora recomendado alguma aula de arte, logo ela viu que ele tinha talento e logo o recrutou para si. Ele continuou tocando as outras músicas que estavam nas partituras e olhou novamente para Alice errando o tempo.
– Comece novamente. – ele a olhou com uma expressão de súplica
– Mas professora Ana…
– Novamente! Por isso não gosto de elogiar, é assim, se elogia e logo se erra! Hoje estou inspirada em Claude, toque para mim Clair de Lune! – O olhar dele vagou por ela por um instante e começou a tocar com paixão a música de Claude, ela era deliciosa e os dedos dele eram ágeis, pegava rápido cada nota, cada tempo e pauta. Ele se endireitou no banco e respirou tocando com furor, ele também amava Claude, era seu músico favorito. Ana nada dizia, mas o rosto mostrava a satisfação eminente!
O tempo passou rápido e logo a aula acabou. Alice estava parada e olhava para um ponto qualquer, o rosto bonito sem expressão, parecia tão distante, como se ela estivesse em outro lugar e o corpo apenas ali. Isso o motivava a tocar mais, sua paixão era a música. E se passara quase dois meses desde que o ocorrido acontecera, ele se empenhara ao máximo tocar e melhorar sua agilidade, ás vezes tocava a tarde toda pra Alice. Quando ela ainda estava em sã consciência ela implorava para que ele tocasse, e ele o fazia. Era linda a satisfação que se instalava no rosto pequeno e dourado. Não queria ir para a aula de português, seria chata e monótona, preferia ficar ao lado de Alice, ela era tudo o que ele pensava, nela e na música. Ás vezes quando ele ia dormir chorava para si, tentando imaginar que nada tinha acontecido, que tudo estava bem, mas não adiantava, no outro dia ele acordava e a via sentada da mesma forma em um lugar qualquer com a mesma expressão vaga. Quando ficavam sozinhos ele sussurrava pra ela
-Volta pra mim, a minha vida perdeu a cor sem o teu sorriso. – E ela não se mexia, não fazia nada, apenas olhava para o nada e não o escutava. Isso o deixava nervoso e ele se levantava e saia de perto indo tocar, mas logo se arrependia e voltava para perto dela pedindo desculpas e segurando as mãos suaves entre a sua e as beijando levemente.
-Ás vezes você me tira do sério, mas sabe que nunca vou te abandonar, você sempre será meu amor, minha amada. – Mesmo tendo apenas 14 anos ele não os demonstrava, parecia ser um homem adulto, não tinha amigos e se refugiava em Alice e a música. As suas sessões com Dra. Meire aumentaram, ela queria aumentar a dosagem de medicamentos noturna, mas viu melhora nele, Alice o ajudava a se recuperar, ele dizia para si mesmo que por ela iria ficar bom, não iria ser um mau garoto!
– Por hoje basta! – Ana se levantou de sua cadeira e deu uma palmadinha tirando Bernardo de seus devaneios. Ele piscou um pouco sonolento e deu um sorriso meigo para professora. Depois se levantou e pegou no braço de Alice com cuidado.
– Vamos querida, temos uma aula agora. Depois toco mais para você. – Ele a levou gentilmente pelo corredor e foi conversando calmamente com ela. Mesmo ela sendo alta ele era mais alto que ela, era um garoto esguio e comprido, mas não tão magro, tinha um corpo desenvolvido pelas longas atividades físicas que o era designado a praticar diariamente. O cabelo escuro era encaracolado formava cachos grandes e grossos, a pele branca e pálida fazendo os grandes olhos esverdeados ter um contraste contra as pequenas sardas que se formava no centro do rosto. Um sorriso meigo sempre pairava nos lábios rosados e carnudos, pequenos e graciosos. Ele sempre tinha uma palavra doce e brincalhona para as pessoas do instituto. Mesmo sendo praticamente órfão era um bom garoto, visitava a cada dois meses o pai vegetal e era cuidado na instituição até que tivesse idade o suficiente para cuidar de si próprio e do dinheiro da família que estava guardado na conta bancária e pelo advogado familiar. Ele formava um belo casal com Alice que tinha a altura dos ombros de Bernardo, o cabelo curto nos ombros, e escuros formando cachos irregulares e soltos. Os olhos pequenos e amendoados tinha uma bela cor escura, a pele dourada entre um branco e um pardo. O corpo magro começava a revelar as belas formas de uma mulher adulta. Quando ela sorria mostrava um sinal de covinha na bochecha esquerda, coisa que não aconteceria novamente, agora apenas pairava uma expressão distante no rosto, nenhum som saia dos lábios redondos e pequenos. As mãos pequenas já não escreviam com a paixão de antes, já não se movia por vontade própria. E ela não sorria quando escutava as músicas de Bernardo e nem dava as respostas ferinas as pessoas. Já não troçava de ninguém, agora era apenas um corpo ao lado de um garoto tristonho. Ela apenas andava onde a levavam, apenas sentava a onde a sentavam, apenas mexia quando a mexiam.
Bernardo parou numa porta e bateu levemente.
– Olá? Trouxe Alice da aula de música. Estou indo pra outra aula e a trouxe. – A mesma enfermeira de antes estava sentada tricotando um cachecol azul cobalto e sorriu ao ver Bernardo e Alice.
– Olá crianças. Obrigada Bê, eu cuidarei dela agora. Eu sei que ela adora as suas músicas, são lindas! – Ela sorriu e pegou gentilmente o braço de Alice. Depois a sentou numa poltrona e deixou que o som da natureza invadisse o quarto iluminado pelo sol e fresco pelo tempo ventoso. Bernardo beijou levemente as mãos da garota e saiu encostando a porta. Depois suspirou e andou até o longo corredor. Uma aula chata o esperava, e ele nada mais queria do que participar dela. Quando ele passou pela janela ensolarada o corpo não produziu sombra alguma, mas ninguém percebeu, as pessoas não se importavam com  os detalhes, por mais que eles sejam cruciais!   

Imagem

Toque rápido, a morte não espera ensaios.

 

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