Os Sem Sombras.

1.2

Não se sabe quanto tempo ele ficou lá parado olhando o corpo ensanguentado e a expressão de horror nos olhos da mulher. Ele apenas chorava e balançava o corpo envolto de si mesmo. Cheio de sangue quando os paramédicos chegaram acharam que ele também estava ferido. Ele nada falava, estava num silencio absoluto com as lagrimas já secas pela dor. Nosso cérebro é perfeito, um sistemas quase nulo de falhas. Acontecem coisas nas nossas vidas das quais ficam guardadas dentro de nós e apenas nos lembramos num determinado tempo. Série de números, telefones, nome de pessoas, estados, tudo isso armazenado na nossa memória. O garoto encarou os olhos abertos e vidrados, clamando baixinho para que houvesse apenas uma piscada que seja que ela lhe olhasse por um momento. Mas não houve isso, não do jeito que ele queria, e quando ele acordou apenas se lembrava de um homem branco sem face e de uma enorme boca, o restante da memória estava armazenado e bloqueado no seu cérebro para quem sabe um dia vir a se revelar em lembranças tão sórdidas. A área foi cercada por policiais e peritos da área. Um psicólogo foi resignado para cuidar do garoto de cabelos encaracolados. As pessoas o chamaram de “anjinho” pelos cabelos escuros e de cachos grandes, pelos olhos grandes e esverdeados e pela pele clara e sardenta com as bochechas levemente rosadas. Ele ficou olhando aquilo tudo sem ver, não queria enxergar a mãe numa maca envolta num saco preto, não queria ver os médicos o espetando e fazendo doer. Só queria que tudo ficasse bem.
-Bernardo? Esse é o teu nome meu bem? Eu sou a Tia Meire – ele olhou com os grandes olhos para a mulher negra e gorda na sua frente, ela cheirava a doce. Ele não queria uma estranha, mas ela tinha um sorriso tão bonito que ele balançou a cabeça concordando.  Ela se sentou ao lado dele e passou a mão nos cabelos cacheados.
– Me conta o que houve com a sua mamãe. – ele a olhou novamente e virou para a parede branca. O hospital em que o levaram era frio.
– O bicho papão a machucou e a matou, eu vi. Ele era uma pelota negra e de ar. – A vozinha saiu quase como um sussurro, ele estava com medo e olhava para todos os lados. A mulher o encarou.
– E esse bicho papão, era um homem? – Ele a olhou novamente irritado, já havia dito como ele era.
– Não, eu já disse que ele era uma pelota negra de ar. De ar! – Ela sorriu gentilmente novamente e pegou na mãozinha fria e pequena fazendo ter um grande contraste entre os dois. Ele queria a abraçar, ela parecia tão carinhosa. Mas ele não queria mostrar que estava com medo, sua mãe dizia que ele era um mocinho, e mocinhos não choram e não abraçam estranhas, mesmo que elas cheiram bem!
Depois ela fez mais algumas perguntas e o deixou no quarto com a porta meio fechada, ele não queria fica no escuro e nem sozinho, por isso colocaram ele no mesmo quarto de uma garotinha de cabelos escuros e magricela. Ela estava dormindo profundamente então ele resolveu fazer o mesmo, o dia foi ruim, e ele não queria acreditar na mãe morta, por isso deram remédio pra ele e então o sono veio.

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Ás vezes aprendemos cedo de mais que a morte nos rodeia, e o que podemos fazer é simplesmente a seguir, ou é você ou ela. E nesse jogo, antes ela que você.

 

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