O sangue de meus seios, alimenta os famintos. 

Quando fui criada, os rios corriam vermelhos. O céu era negro, sem estrelas e a terra era árida e abundante. Os ventos eram cruéis e levavam aqueles sem peso para o mundo. O tempo era instante e sem medidas. Havia a fome, a sede, o sono, o desejo e o nada. Havia a Morte.

A Morte não era chamada assim e nem era vista como tal. Não havia necessidade de nomear aquilo que era parte de um todo, uma certeza cruel que terminaria nos lábios e entre dentes do mais feroz, do capaz, do esperto. De mim.

Entre os dedos dos meus pés, eu senti a terra escura e grossa, quente. O rio a minha frente era calmo e traiçoeiro. A cada poucos passos a água fria batia em minhas pernas e me fazia querer voltar. Ou viva ou morra. Eu entrei.

Mergulhei através da escuridão e senti a água passar por mim, rodear o meu corpo e sacudir meus cabelos, os olhos abertos ou fechados, não importa. Não há nada. Tem algo sobre a escuridão e o desconhecido que é aterrorizante e emocionante. Nadar e sentir a água passar por si de forma densa e suave. Ser rodeada pelo desconhecido e não saber o que te aguarda. Sentir algo roçar em suas pernas e não saber capaz de identificar. É uma pele ou é uma planta?  São dentes ou são peixes? É maior que eu? Irá me comer? Arrancará partes de mim e deixará meus órgãos esviscerados para que o próximo predador venha e me engula? Irá doer? Irá me perseguir, até que eu canse de nadar e me mastigue? Irá drenar o meu sangue ou apenas morderá minha carne?

A escuridão me rodeia e leva os meus pensamentos. O meu coração bate com força contra meu externo. Eu abro os olhos e vejo o além. O céu sem estrelas ou a água em sua profundidade? Eu respiro. A terra quente me abraça e eu consigo distinguir uma luz ao longe.

Há muito que estou sozinha, que ando por essa terra árida. Como o que mato, bebo o que acho, durmo quando posso e sobrevivo. A luz, ela me apavora.

Há algo dentro dos olhos de uma criatura que me fascina. A escuridão e o brilho. O conhecimento e o medo. “Eu vou te comer”, o pavor. Cada mordida um deleite. Depois a ausência. A ausência do que foi, o que poderia ser. Há dias que penso viver ou morrer?

Eu grito. Eu grito e berro e corro em direção a luz. Não mais escuridão, não mais rios de sangue e noites sem estrelas. Lá longe eu vejo a luz. E da luz eu vejo além. A Morte.

O predador não me cercou em sua escuridão, não esperou que eu estivesse sozinha e frágil em sua imensidão, como a fera dentro d’água. Me atraiu para a chama, e de lá, me esviscerou.

O transcorrer do Luto.

Eu olho para os objetos que um dia você tocou e tento ver as digitais deixadas.

Não as vejo, óbvio e, ainda assim, eu tento sentir, com as pontas dos dedos, os seus dedos, os resquicios de o que um dia você tocou.

O tempo corre para uns e se torna inerte para outros, coisas, lugares. Se move de forma diversa do que o nosso tempo, o calendário, o relógio, a vida, doença, morte.

Eu toco esses objetos e ainda assim, não sinto nada. Não há nada para sentir, os objetos inanimados, os sentimentos deixados, passados, sentidos e até mesmo esquecidos.

Ainda hoje tento me lembrar da sua risada e não me lembro. Ao mesmo tempo não permito me submeter a tortura de escutar um áudio deixado. Para minha dor, há limites impostos. Eu não acredito em relembrar sem sentir. E dói, a perda dói, a saudade dói, a morte dói. E relembrar é doer. Não quero relembrar com materialidade, quero relembrar a partir do abstrato de minha mente, sem limites, formas e trajetos.

Quanta dor há no mundo? Não estamos todos sozinhos? Ainda assim, compartilhamos a mesma dor, todos os dias, minutos, segundos, milésimos de segundos. A dor é a mesma, o sentimento não.

Suas digitais, provavelmente permanecem, as imagens, som e até mesmo o cheiro, estão aqui, na minha memória. Da forma em que eu desejo lembrar. A dor é controlada e até mesmo fantasiada. Ainda dói. Provavelmente continuará doendo para sempre, apenas a intensidade que transforma. Há dias que aguento, há dias que choro.

Abstrato ou concreto?

Com os olhos fechados, pensei. De forma tão abstrata são os pensamentos, que palavras não constrói.

Se penso em cheiros ou imagens, relembro ou imagino. Eu sinto.

Por em palavras, em linguagem, em idiomas, em expressões. Os sentimentos se perdem.

Apelo para a empatia, para que sintas o que sinto e tento transmitir em palavras o que os pensamentos não se transferem.

(Suspiro)

Que estranho.

Perfume ruim com o fraco ainda cheio.

Eu te digo, com total conjectura, que nunca quis. Ou esperei, ou imaginei que queria. Até o momento em que chegou e, tudo mudou.
Além, nunca amei. Ou tentei, ou pensei que amaria. Até o momento em que se foi, tudo mudou.

É possível estar com alguém e não estar? Uma sede de sangue, um despertar no corpo, um calor na alma. É risível e ridículo a forma que mantenho a disparidade de sentimentos e não saber lidar ou até mesmo conhecê-los. Isso, portanto, é a falta de inteligência emocional. Me falta e, sendo ignorante como sou, a dispenso.

Um dia, percebi que eu gostava de café. Foi um gosto adquirido com o tempo. De manhã, ao beber o líquido amargo e adocicado, eu sentia na língua o resquícios do sabor e saboreava por um tempo. Assim foi com o vinho, a acidez deu lugar a doçura e pela doçura me apeguei. Um dia, bebi uma garrafa de café e no outro, uma garra de vinho. O que um não fez por mim, o outro excedeu.

Os dias têm sido preguiçosos e as noites adoráveis. Apesar das tardes encaloradas eu já posso sentir o frescor noturno. Entretanto, nada supera o som das manhãs e nem a beleza dos raios solares.

Percebi, também, que já não leio um bom livro há tempos, mas os livros ruins eu leio diariamente, até dois por dia. E isso me entristece, mais um círculo vicioso em que me joguei. O medo de me desafiar me deixou inteiramente viciada na preguiça e estagnou o meu cérebro em leituras desperdiçadas. Ainda assim, eu leio e aproveito. A ignorância enaltece o tolo.

Faz dias que me deito na cama e crio estórias em minha cabeça e nelas imerso até eu dormir. Muito mais dias são aqueles que me perco nas estórias e perco o sono durante horas. Agora percebi que as estórias que conto são de conforto. Para fugir de mim? Ou para apreciar o que gosto?

Estranho envelhecer sabendo que o tempo aqui é emprestado e, mesmo assim compreender que pode ser um fardo privilegiado.

Hoje não há muito o que falar ou contos a contar. Os dias estão mais curtos e as horas aceleradas, contudo as lembranças de anos atrás se parecem com as de ontem.

Pedaços de Vidro.

Há você e há eu.

            Ambos existimos no mesmo tempo, mas não ao mesmo tempo.

Às vezes eu estou presa no passado e às vezes no presente. Há momentos em que te vejo, mas não te enxergo e há momentos em que sinto que só eu vejo e você não.

Faz sentido?

Ao pensar que as palavras não são o suficiente, nunca são. É assustador. Conhecer todas essas palavras, estruturar frases, adequar o tempo verbal, colocar o sujeito em seu próprio lugar. E ainda assim, ainda assim, maravilhosamente mal. Um oxímoro. Ironia. Entre seus olhos, suas janelas, meus lábios a porta da alma, suspirando palavras e elas perdidas ao vendo, intransponíveis aos seus olhos, com sua parede de vidro e seu zumbido interno. Zum Zum Zum Zum. Você me vê, não me ouve. Zum Zum Zum. É quase a fonética de minhas palavras.

Estamos fazendo o certo? Essa trilha que se estende aos nossos pés são mesmo uma coberta de retalhos ou uma coberta de crochê?

Esse tanto de palavras e eu falo e eu falo e eu falo e eu falo e nada. Nada. Como ondas dentro do mar, nada nada nada. A praia longe, a areia tão próxima, ao fundo de meus pés, entretanto o cansaço me esgota.

Nem se parece mais um paraíso, só uma miragem qualquer que eu posso imaginar daqui mesmo olhando o céu azul enquanto boio nessas águas ou seria o teto do quarto enquanto o ventilador gira e gira e eu deitada na cama?

Uma brisa. Quase isso, até parece isso. Mas não, as palavras podem cortar até mais que lâminas afiadas, espadas pesadas, mágoas passadas.

E esse Zum Zum Zum vem de dentro de mim? Do meu ouvido esquerdo ao qual tenho certeza de que algum nível de perda auditiva, entregando nunca comprovei.

Seus olhos me olham, mas parecem tanto opacos. Será o Vidro que nos separa? Será que aí dentro existe um paraíso igual ao que vejo, aqui deitada nesse Mar que me abraça com minha coberta que pode ou não ser retalhos ou de fios entrelaçados? Será que a opacidade é da umidade que existe por detrás dos teus cílios, um extenso paraíso de mata tropical?

O que nos separa se nem minhas palavras são capazes de entender?

Argh. Isso até me dá um medo. E em você?

Esse vidro, que você tão ironicamente chama de teto, eu chamo de parede. Às vezes as paredes resistem mais que os tetos. E para comprovar minhas palavras é só observar essas construções abandonadas, sem teto para ampará-las, mas cheias de parede para separar.

Separa, separa. E eu ainda não sei se o vidro também é meu ou seu. Eu vejo, eu falo. Nada nada nada. É quase como se o Zum Zum Zum fosse maior que você e eu. Não um som, um ruído e, sim palavras. Em outra língua. Minha língua é diferente da sua. Essa é a barreira que nos separa?

Os Olhos da Gravidade.

O teto parece como qualquer outro tento, o ventilador rodando, quase preguiçosamente. As paredes, ora brancas, agora manchadas e rachadas. Dentre as frestas eu consigo ver além.

         Diante do escuro, você pode dizer quem é você? Eu não consigo. Hoje mesmo olhei para meu nome e encarei aquelas Cinco letrinhas e percebi, depois de uns segundos, que eu não sabia a quem pertencia. Era meu mesmo? Existe a possibilidade de um nome impostor? Por toda minha vida me chamaram de Nome, mas esse nome não era o meu? O que o qualifica como personalíssimo?

         Dentro das rachaduras eu vejo dentes. Afiados, pequenos, que sorriem enquanto a língua cheia de ventosas lambe as frestas de gesso e tinta.

         “Nome” — Sussurrou. É claro que meu nome não é Nome. Mas que graça teria eu dizer um nome ao qual não identifico?

         Sussurros vem e vão.

         — Olha pai, é um macaco! – Os dedinhos pequenos apontando para os miquinhos na árvore.

         — Micos, bebê. — Tão profundo teu suspiro, se foi a lembrança.

         Agora a fresta está maior e consigo ver os olhos. Poxa, quantos olhos!

         Eu estremeço. Não, eu finjo que estremeço. A falta de nome me torna inominável? Me torna insensível? Invisível?

         E se na verdade eu estiver em um motel, com um espelho no teto e os olhos me olhando são os meus, os dentes sorrindo, os meus. O pesadelo que encaro, eu. A língua ventosa, que gruda por toda parte, você.

         Ainda assim, ainda estou aqui.

Se as paredes realmente têm ouvidos, tal como minha avó, que Deus a tenha, dizia, então por que ninguém escuta meus gritos? HAHAHAHAHA.

Ninguém escuta os gritos da alma, porque são silenciosos. Os gritos da carne vibram, tremem, e viajam no tempo.

Ainda assim, aqui estou, indomável, inominável, com o monstro cheio de dentes e olhos me encarando.

Venha… — Eu vou.

         Se dentre tantos eu existo, o que dizer do restante de vocês? Se estou aqui, o que dizer dos outros?

         Se dentre nós, há outros, o que acontece com os que vão? 

As paredes nos veem? O tempo para? O silencio permanece?

         Ontem mesmo eu chorei. Dentre o choro, segurei as lágrimas e fiquei soluçando, com o peito expandindo e contraindo até que me calei.

         Você vê? Se vê? Chorar também te dói? Segurar o choro te consola? Deixar os soluços silenciosos, os torna menos doloroso? Assim como no espaço, a ausência de som entre as explosões, são as dores no meu coração.

Tum-tum-tum-tum. Uma máquina capitalista, que não para em detrimento aos outros, uma máquina de carne que bate, até que os pedaços se unem e o pulmão se enche de oxigênio.

         Ah, meu amor. Não me olhe assim, não pisque esses incontáveis olhos e não e mostre esses dentes aterrorizantes. Não somos todos monstros?

         Da minha janela eu vejo a sua, mas sua ausência se mantém. Eu te vejo, mas tão longe que apenas sua sombra permanece, e no decorrer dos momentos o meu maior medo não é o espelho, é a escuridão que se transpõe através do tempo. Hoje, a memória me mostra seu corpo rígido e distante, mas amanhã, não pertence a ninguém.

Espinhos de Rosa.

— (…) Você está sofrendo de Delírios, o que é muito comum… com essa medicação e a terapia você conseguirá (…) em 15 dias já poderemos (…) Terça-feira é o dia da meditação(…) ainda vê as mesmas (…) – Eu não poderia dizer com 100% de certeza o que ela estava dizendo, mas eu poderia dizer com 67,50% que ela era fumante. Bem, os lábios vermelhos estavam bem ressecados e os dentes, por mais que bem cuidados, estavam amarelados, uma consequência proveniente do cigarro e do café. O acessório sempre acompanha o principal. Ok. Confesso que eu sabia que ela fumante, porque vi o masso de cigarro Derby Vermelho dentro de sua bolsa, o que eu não! Não, com certeza não, a estava espionando. Vírgulas são úteis, não?

— Do que é que você está rindo? – Ela largou o papel que estava em suas mãos e colocou a mão no cabelo atrás da orelha, o que não dizia muita coisa, já que o corte de cabelo dela é o que minha vó chamava de corte “joãozinho”.

— Janaina.

— O… O que?

— Você me perguntou do que eu estava rindo, da minha conversa com a Janaína.

— Janaina, quem?

— Isso é tipo, muito rude! Ela está bem aqui do nosso lado. – É claro que não há nenhuma Janaina do nosso lado, porém sim, há uma pessoa do nosso lado, o que eu tento com todo esforço não demonstrar, o que só faria nossa conversa prolongar e eu não, definitivamente não queria ir lá.

— Rosa, você sabe que não há Janaina ou alguém aqui conosco. Você está tomando a medicação que eu receitei? – Ela apertou os olhos escuros, causando vários riscos ao redor das pálpebras.

— Sim, Bia, todo santo dia, manhã e noite, com água e biscoito. – Mentira.

— Bem, pode ser que demore um pouco para seu cérebro assimilar as novas drogas que estão estimulando substâncias no (…) e por isso quero que você venha (…) ele é um ótimo profissional e muito atencioso (…) já conversei com seu marido (…)

Marido. Continuei a olhando e não para a pessoa ao nosso lado.

— Preciso ir, estou liberada?

Ela suspirou e cruzou as pernas. O que era um feito e tanto, dado o vestido justo que acentuava todas suas curvas. Eu mal consigo dobrar as minhas usando calça.

— Rosa, você prestou atenção ao que eu disse? Porque é realmente muito importante que você siga as etapas para o tratamento surgir efeito.

— Medicação, terapia e meditação. Volto terça-feira e me encontrarei com o novo terapeuta que com certeza é uma representação divina na Terra. Você já conversou com meu marido, e digo conversou, porque bem, não há uma forma mais gentil de dizer isso, certo?

Ok, eu finjo bem e sim, estou fula da vida. Delírios minha bunda.

— Bem, sim, mas… – Ela iria falar o que havia acontecido no meu último… surto.

— Ok, te vejo na próxima! Bye bye, doc! – Saí de lá mais rápido que um peido reprimido.

A pessoa me seguiu como se fosse uma sombra. Eu estremeci, mas jurei que não iria olhar. Olhar é dizer que consigo vê-la e anunciar que posso vê-la causa muitos danos. Além dos que já estou sofrendo? Não, obrigada.

— Ei, querida! Pronta? – O homem alto com corpo de pai, vinha em minha direção com olhos escuros e receosos.

— Super, vamos? – Veja bem, meu marido é um cara bacana, mas bacana não é o suficiente quando se quer algo mais. Um casamento às vezes é só isso, um contrato civil em que as partes se obrigam a prestar contas financeiramente, porque não há lei alguma que obriga um amar o outro e por mais que nós nos amemos, não é aquele amor que queremos. E ele provavelmente não quis uma, perturbada. Contudo, tive sorte, os bacanas estão em falta.

— A doutora Bianca me disse que mudou sua medicação e falou da terapia. Parece bom, né?

— Hum… – Murmurei.

— Eu estava pensando em… – Ele passou os dedos grosso no cabelo curto e bagunçado.

— Não querendo te interromper, mas já interrompendo, será que podíamos voltar naquela ponte, porque eu tenho certeza que deixei meus brincos lá da última vez.

— Rosa… – Ele arrastou meu nome como se doesse falar. Com os braços cobertos seria difícil imaginar que por baixo daquele casaco grosso havia machucados profundos. Meu peito apertou.

— Desculpa, eu… Bom, não estou bem, né? Delírios, ela disse.

— Querida, eu sei que é difícil admitir que se tem uma doença, principalmente uma doença que ninguém vê, mas você precisa aceitar.

Meu sangue esquentou e eu podia sentir que meu estomago estava a ponto de ebulição.

— Você sabe? Sabe? Sabe? – Eu grite. Respirei fundo. – Me desculpe por gritar.

Ele apertou as mãos no volante até que as juntas dos dedos ficassem brancas.

 — Eu a vejo. – Sussurrei. – Eu a escuto.

Meus olhos ardiam e minha garganta doía como se eu estivesse engolindo um caroço.

— Rosa, dói em mim, muito. Odeio que você esteja assim e não vou dizer que não é real, porque se para você é real então para mim também será. Só que… você precisa se recuperar dessa.

— Eu estou tentando! Eu não a olho ou falo com ela. Mas é tão difícil.

— E a medicação? – Ele estacionou o carro dentro de nossa garagem e se virou para mim.

— Se eu tomar eu irei matá-la. – Gemi.

— Querida – Ele se engasgou. – Você não irá matar algo que não está carnalmente vivo.  

— Eu vou – sussurrei. – eu posso, quase fiz isso com você.

— Foi um acidente e já discutimos isso.

Me dói tanto.

— Eu a amo. – Eu soluçava tanto que não podia controlar.

— Eu sei. – Ele me abraçou apertado. Com o rosto em seu ombro eu a olhei, sentada no banco de trás do carro ela me observava, com os olhinhos vazios e tristes.

— Dói? – Sussurrei.

— Dói. – Ele disse.

— Dói – Ela disse e balançou a cabecinha.

Chorei.

— Aqui, abre a boca. – Ele colocou um comprimido na minha língua e me deu uma garrafa de água.

Depois de um gole, fechei os olhos. Eu não poderia olhar, não poderia.

— Te amo.

— Também te amo. – Ele disse.

— Também te amo. – Ela disse.  Depois de não sei quanto tempo, abri os olhos, não havia ninguém lá.

— Delírios. – Eu sussurrei em minha sonolência. – Mas juro, dentro do meu ventre, eu podia senti-la.

Converse comigo!

Estou estressada, exausta e desanimada, creio que muitos também estão! Eu não estou sabendo lidar, além das fugas usuais, dormir e ler.

O que vocês estão fazendo? Pode parecer piada, mas comecei a fazer aula de circo online e está sendo bom, sentir dores corporais decorrentes de exercícios físicos dá uma sensação de… satisfação? Não sei.

Mil e um projetos e me sinto totalmente desanimada para isso e depois me sinto culpada por não fazer o que deveria fazer.

Enfim, não há muito o que dizer porque esses dias estou totalmente sem vontade de conversar em voz alta ou de qualquer forma, para ser sincera. É como se não houvesse nada para ser dito. Suspiro. Me dê um olá e vamos bater um papo, se estiver afim!

Uma chamada na madrugada.


Tirou os óculos, passou a mão pela ponte do nariz, já estava marcado, colocou as chaves dentro do pote de vidro ao lado da porta e tirou os sapatos. Andou até a cozinha, abriu a geladeira, tomou água. Deixou cair um garfo. O barulho ressoou até o outro lado do apartamento, passou pelas paredes finas e atingiu o outro mundo. Longe dela. Ela abaixou e pegou o garfo. Estava tão cansada que se sentou no chão com a garrafa de água e lá ficou. Eram 22:47 quando dormiu sentada, acordou e já haviam se passado duas horas. O telefone tocou em algum lugar. Seria na sua cabeça? Não, na bolsa. Onde estava? Que horas eram? Se lembrou, estava em casa.

— Alô? — Um chiado fino foi a única coisa que ela ouviu. Não reconheceu o número, já ia desligar quando se escutou.

— Preciso de ajuda — De quem era aquela voz? — Estou morrendo, eu acho. Preciso confessar meus pecados.

Só pode ser brincadeira, aquele homem do outro lado da linha estava de sacanagem. Como se ela já não tivesse os próprios pecados. Benedito já não ligava há onze meses, apesar de todas as mensagens que ela havia deixado. Não conversava com sua mãe já há quanto tempo? Três anos. Não comia bem há semanas, tomava banho há cada dois dias, morgava no emprego. Odiava o chefe. Odiava os colegas de trabalho. Não ia à igreja. Não ajudava os necessitados. Se esses pecados não são o suficiente, imagina os que eu não disse.

— Tenho meus próprios pecados. — Já ia desligar, mas se lembrou de algo. — Você sabe quem sou? Por que me ligou?

— Não sei quem você é. — uma respiração profunda seguida de tosse rouca. — Disquei seu número aleatoriamente porque sei que a Morte está chegando. Ela enviou uma carta. — Dessa vez ele riu como uma gralha.

— Não sabia que a Morte agora tratava seus mortos com tanta formalidade. Estava claro para ela que o cara era doido. E estava mais claro ainda que estava com fome. Ele respirou e disse qualquer coisa indecifrável. Ela tirou a calça e voltou para cozinha. O que comeria? Iria cozinhar qualquer coisa. Amanhã trabalhava, ou melhor, hoje.

— Bom, quando se peca no submundo eles costumam ser formais. Mas não quero falar sobre isso, eu nunca pensei que morreria. Meus anos de vida foram longos e imprudentes. Me ocupava com diversão e tormentos.”

— Você matou alguém?

—  Dá pior forma. Matei lentamente no decorrer dos anos, como um câncer silencioso que vai sugando sua vida sem você perceber. Deixando você viver cada dia como se fosse o último, cada momento de diversão com uma dose extra de dor. Causei dores na alma, suguei energias através desse sofrimento. Nadei num mar de sangue cheio de almas atormentadas e depois disso tudo eu ria com o desprezo que sentia por elas. Pisei em seus filhos, em suas mulheres e em seus pais. Comi suas felicidades como se come um bife suculento quando se está com fome e desejo.

— Quem é você? Algum agiota? — Ela estava comendo um macarrão e já era 02:38. Sentou-se no sofá com as pernas cruzadas e conectou o carregador ao celular.

— Sério? – Ele resmungou – Sabe o que é mais engraçado? Eu conheço a Morte e ao contrário do que todos pensam ela é uma mulher bonita, ou um homem bonito, dependendo de quem você seja e como quer vê-la. E ela transborda bondade. Busca todos seus filhos com muito zelo. Até mesmo os ruins. Porque ela é apenas uma ponte, depois que você a atravessar já não é mais com ela. Você vai para seu devido lugar, mas não é ela que te leva. Você vai sozinho, de encontro ao seu destino final. O medo não é dá Morte, mas para o lugar que você irá depois. E sabe? Não vou para um bom lugar.

— Você está com medo. – Ela mastigou o macarrão enquanto apoiava a mão no queixo.

— Eu pequei muito, qualquer um meu lugar estaria com medo.

— Você irá para o inferno? — A risada de gralha voltou em meio as tosses.

— O inferno é algo que se inventa para pessoas como você, do seu mundo. No meu mundo é diferente.

— Estou com sono, tenho que trabalhar daqui a pouco. Você está realmente morrendo? Me passa seu endereço, vou ligar pra uma ambulância.

— Onde estou não tem acesso a ambulância. Talvez ao perdão. Mas só se perdoa aos arrependidos. Até na minha própria morte eu sou podre, um verme que não consegue arrepender. Eu escutei quando você deixou o garfo cair. Acho que talvez porque você foi um suspiro de clemência no meu fim da vida. Às vezes o Alto tem misericórdia até dos vermes.

 Ela deixaria o prato cair se ainda estivesse comendo. Olhou para os lados para ver se havia alguém a vigiando. Fechou as janelas, trancou a porta. Foi até o quarto para ver se tudo estava como deixou. Na sala, onde ela estava, havia uma janela grande que mostrava os outros prédios. Ela olhou para eles, mas quase todas as janelas estavam apagadas e com suas luzes desligadas.

— Não se assuste. Não posso te fazer mal nenhum. Apenas fui deixado neste quarto e com esse telefone.

— Quem é você? – Ela definitivamente estava assustada.

— Sou chamado de O devorador. Talvez porque eu devore as energias. Não sei. Diabos, não sei de mais nada. — Tossiu outra vez.

— Como você sabe do garfo? Você está de sacanagem comigo né! Vou ligar pra polícia.

— Eu apenas escutei. Apenas isso. Foi seu grito para mim. Seu chamado. Sua substância me chamou e eu respondi. Estou confessando meus pecados, mas esse celular aparentemente não acompanha carregador e a bateria está acabando. Quando eu morrer você vai saber. Talvez vá ser a única pessoa no mundo a saber. Talvez não. Talvez o rio de almas em que eu nadar irá saber e vão comemorar e me agarrar, me morder, me chutar, socar e amaldiçoar quando eu passar por ele.

— Então quando eu morrer não terei perdão. – Ela estava enojada de tanto remorso – Sou pecadora como você. Não nado em um rio de sangue coberto por almas, mas eu faço quase o mesmo, ao ser quem eu sou.

— Você já está no seu próprio inferno. Só tem que passar por ele. Ou talvez não e nos encontraremos no futuro quando a Morte também te fizer passar pela ponte.

— Onde você está?  — Ela colocou a calça de volta e já ia pegando as chaves.

— No apartamento em frente ao seu. — As tossidas ficaram forte. Ela correu para janela e olhou em frente. Havia um homem em pé no parapeito dá outra janela com um telefone na mão. Ele sorriu para ela e apontou o dedo para baixo. Pulou. – Ela deu um grito silencioso, colocando uma mão na boca e a outra contra a janela – Atrás dele estava uma mulher alta, bonita e silenciosa. Quando ele caiu a Mulher seguiu até ele e puxou de dentro daquele corpo ensanguentado alguma coisa podre. Ela foi embora de mãos dadas para o nada, mas antes se virou para trás e sussurrou em meio de um sorriso que não acompanhava os olhos

— Eu te vi. –  A mulher estava consternada e apavorada, correu escada abaixo, foi até o corpo, mas não havia um corpo. Apenas um celular com uma chamada ainda em andamento. O seu número. Ela respirou fundo. Não conseguia entender nada do que havia se passado. Do lado do celular havia um garfo. O seu garfo.

Ela tentou correr até onde a mulher havia ido, mas não havia nada. Apenas o sol nascendo e dentro dela um turbilhão de pensamentos.

 Hoje não iria trabalhar, tinha que se encontrar com sua mãe, mas primeiro excluiu o número de Benedito e finalmente foi para casa. Tentaria dormir apesar dá impossibilidade de isso acontecer, se fechasse os olhos jurava que poderia ouvir uma risada de gralha e uma tosse seca.