Lê enquanto canta.

Enquanto eu te abraço, e você morre nos meus braços.

Eu choro.

Enquanto você ria e dizia que era pra dar onda, eu ria.

Enquanto você morre, eu vivo.

Dois com um, nós dois juntos.

Tua morte me mata.

Nos meus braços, você me olha,

“Não, dói”, me diz. Teu corpo treme. Tu mente e eu acredito.

Enquanto nos meus braços, você morre, eu me lembro, de quando você dizia “É só onda, pra tirar a dor da solidão do homem”

E eu ria.

Chora, para, grito.

A loucura da dor, a alegria do esquecimento.

Os dois, morrem.

Você primeiro, eu vou depois.

Quando eu for, vou na onda.

Anúncios

Prioridades, sozinha ou não.

– Não me deixe! – gritei, eu. Ele me olhou com aquele olhar que dizia “Não seja histérica!”, Palavra que odeio, essa tal de histeria.

Ele odiava que os vizinhos nos escutasse e momento ou outro me dizia “Vamos nos mudar para uma casa com garagem e jardim.” E eu sorria, acenava e pensava “Para que? Morar em apartamento atendia todas nossas necessidades”. Ele resmungava que meu sorriso era paternalista.

– Não vá! – Gritei chorosa. Juntei minha saias longas com uma mão e joguei o cigarro fora. Tentei correr até ele.

A briga começou porque eu estava fumando perto dele. Estávamos na sala, se não pudesse fumar na sala, onde mais eu fumaria? Na cozinha?

Ele pegou a mala e veio para meu lado com um olhar fumegante.

– Não grite, Lourdes! Já não basta se envergonhar? Quer me fazer passar por esse vexame? – Seu perfume me cercou.

– Então não vá embora! Só por um cigarro?

– Um cigarro? Um? Eu já fui embora há tempos! Não percebe? Só ouve sua própria voz? Só aceita seus próprios sentimentos?

Enquanto ele falava eu olhava para seu rosto quadrado, os olhos escuros, os cílios espessos, a sobrancelha arqueada, os lábios finos, as bochechas sombreadas por barba amanhecia. O cheiro de homem.

– Não está me ouvindo, está? – Não esperou resposta, se virou e se foi.

E eu chorei. Ele nunca se foi antes.

Ele ia de outra forma, olhares de esguelha. Dormir de costas para mim. Jantar em silêncio. Educado, como um estranho, “Obrigado, por favor, com licença”.

Agora se foi.

E eu gritei.

Os vizinhos reclamaram.

E eu gritei mais.

Eu gritei e berrei e me joguei ao chão.

Tirei a saia. Puxei a blusa.

Tomei um banho.

Chorei.

Ele se foi e ficou apenas eu.

Meu pesadelo.

Sozinha, cercada por solidão.

“Eu já fui embora há tempos! Não percebe? Só ouve sua própria voz? Só aceita seus próprios sentimentos?” E os lábios dele se mexia e eu não o escutava.

Me lembrei de uma frase que ele sempre me dizia, “Egoístas devem viver sozinhos”. Seus olhos escuros me perfuravam, até que se escondiam por trás dos cílios espessos.

Sozinha na sala, eu fumei.

Eu realmente sou egoísta? Ou apenas uma desculpa para se livrar de mim.

Seria uma desculpa, de não me amar como me amo, digo, o amo?

Entre os nós dos meus dedos, bolhas de ar e um estralo.

Acordei chorando, enquanto viajava entre os sonhos. A sensação de perda era profunda dentro de mim. Me virei, levantei e depois me sentei, não tem para onde ir.

Seria a fuga minha escolha? Quando quero fugir do que está dentro de mim.

Não encarar a dor é besteira, a falta que faz é passageira.

O tempo leva a dor e deixa a saudade, e assim, segue a vida para todos que a rodeia.

Assiste ao jornal e tome um café.

Chore no sofá, olhe o amanhecer.

O que fazer a não ser fazer?

Eu choro e olho para o outro que está chorando.

O sentimento em mim, não é melhor que o seu.

O abstrato, o pronfundo, o bom, o cruel.

O suspiro que dei, deixou vazar um pouco da minha alma.

Qualquer som que escuto eu vejo aquele-que-amo-e-se-foi.

Um suspiro, um sussurro, uma dor e um absurdo.

A morte leva a carne, mas não leva o espírito, ele vive aqui, dentro de nós, e todos levaram um pouquinho de cada um.

Somos todos um.

Não somos ninguém.

Meus sentidos ainda me decepcionam.

Onde olho, te vejo. E toda vez que realmente não vejo o meu coração se parte e meus olhos vazam.

A dor já não é tanta.

Não voltei a me deitar.

A sua partida tirou o que havia dentro de mim e transbordou.

Sempre pensei que ao perder alguém que amamos seria como sentir o coração rasgando, o mundo entraria em colapso e pararia para que pudéssemos sofrer com todos.

Mas hoje eu perdi um ser de luz, amor, carinho e meu mundo não parou. O vizinho continuou serrando bambu, o comércio da esquina continuou tocando as promoções do dia e os carros continuaram passando na rua.

E dentro de mim, dentro de mim houve um vazio.

Pensei em momentos anteriores no que eu poderia ter feito, dito que amava, abraçado, beijado e gritado a quem quisesse ouvir “Daqui não saio, daqui ninguém me tira”. Mas não foi assim, eu me lembro de abraçar, beijar e dizer que amava, mas não foi o suficiente, e quando ele se foi, meu mundo continuou girando e dentro do mim transbordou.

E tudo o que sinto é que estou sozinha.

E sempre penso no seu lugar, estará vazio.

O todo lugar, de lugar nenhum.

Abri os olhos para todo aquele branco que me cercava. A palavras haviam fugido de mim e eu não poderia gritar.

Era mais enraizado do que eu poderia expressar, a vontade de correr e sair daquele lugar. Estéril. O branco predominava por todos os lados que eu me deparava. Dei vários passos e encontrei algo diferente, um buraco. Pulo, não pulo. Pulei.

O buraco era uma poça pequena que me deixou olhando para o céu, um céu branco e sem cores que me deixou querendo gritar.

Abra os olhos. Olhe ao redor.

De um lado, havia o branco, do outro, havia um cinza, e por fim, havia o sangue.

O sangue era de todas as cores e nada e ele pingava por todos os lados. Fugi.

Depois, de um tempo andando, meus passos se transformaram em ecos e gritaram repetidas vezes, “toc-toc-toc”. Corri. “Toc-toc-toc-toc-toc-toc-toc”. Acabou. Era um círculo infinito que deixou meus olhos maiores que meu rosto e meus cílios eram borboletas que batiam as asas para a brisa com cor verde e som de dúvida.

O sentimento da brisa me fazia chorar, e logo eu, que não sabia nadar, estava me afogando em mágoas.

Aquela correnteza feita de lágrimas e aqueles olhos gigantes que eram borboletas, me levaram até outro lugar, antigo, cheio de fios entrelaçados e cada pedaço era uma memória, e cada nó era algo que se esqueceu. Havia muitos nós. Meus olhos já não eram borboletas e já não havia lágrimas para chorar.

Aqui o tempo estava seco, meus lábios secos selado. Meus braços pesados e meu peito apertado, sufocado, agitado.

Puxe um nó. Pegue uma lembrança, que tem grossas cordas açucaradas, mastigue, engula e veja. É tão doce que dói a garganta. Lembranças, porventura deveriam ser sonhos que já se concretizaram? É agridoce e apimentado. Os fios me cercaram e me puxaram para baixo, até que eu estava soterrada em todos aqueles nós embaraçados. A sala me engoliu e eu caí em um Dó Maior e me perdi em ¼ de tempo.

O que era acelerado foi parando em pequenas mínimas e separados por semínimas e eu respirei. Respire, pensei, aqui, é uma vírgula.
Fácil. Fácil, calma.

Havia, naquele lugar, um longo corredor de apenas um passo. As paredes de vidro transpareciam as palavras que nelas grudavam, e o vento, tão singelo, passava com a força de um furacão, e as levava, todas palavras, num rio emaranhado, de frases e exclamações.

Tentei puxar algumas delas, mas todas elas, estavam perdidas para mim, de tantas paredes, de tantas palavras, muitas iam e poucas chegavam. E aos poucos se via o outro lado: o branco voltou, já não havia nada. O mesmo lugar onde tudo começou.

Ao mesmo encalço eu olhei para o lado e a vi, uma placa simples, com tinta preta, escrita à mão, anunciava “Saída”. Eu fui andando, à passos pequenos, até que parei, não importa o lugar em que eu olhava, eu via sempre a mesma coisa: uma mulher igual a mim, os mesmos gestos, as mesmas roupas, o mesmo cabelo. Sou eu, um espelho. Me leve de volta para casa.

Aqui, neste lugar perdido, eu reconheço: Andando por minha mente, perdida em meus desejos.

Olhei para dentro de mim, estou cega.

Essa manhã eu acordei e não tinha olhos.

E então eu vi.

O desespero de me encarar no espelho.

A forma como meu cabelo se enrola no meio.

A cor dos meus olhos quando a luz do sol bate no meu rosto.

Meus lábios secos.

Minha pele seca.

Meus pelos.

Meu estômago se afundou dentro de mim e se retirou para um lugar sem fim.

E eu me senti terrível.

O desespero.

Não tenho para onde fugir.

A forma que encaro meus medos me mostra o quanto fortemente fraca sou.

Dicotomia de sentidos.

Ás vezes sorrindo, me vem uma vontade louca de chorar e eu continuo gargalhando.

É como ter vômito na boca e engolir.

O meu cheiro que eu não conheço é quase a mesma forma que alguém reconhece minha voz e eu a estranho escutando de uma gravação no telefone.

Há tanto de mim em mim, que me perco.

Quem eu sou, não sei se é a mesma pessoa que você conhece.

Ás vezes, esse desespero me vence.

A vontade de chorar no meio de qualquer lugar, me apavora.

Eu sorrio e continuo.

Será que alguém percebe?

O tremor dos meus olhos, o pavor nas minhas sobrancelhas, o franzir do meu nariz.

E eu sorrio.

Sem choro, sem nada.
Se ninguém percebe, é porque não é real.

Essa manhã eu acordei e virei na cama.

Queria voltar a dormir.

E agora, sentada aqui, escrevendo e lendo, eu percebo, voltei ao desespero.

Caí de volta ao poço e olhando para cima, não vejo estrelas.

A luz da cidade as levou.

Da janela do quarto a cortina se mexe.

Eu sinto que alguém está puxando meu estômago.

Colocou um gancho na ponta de uma isca.

Me puxa, puxa.

Eu, inocente, fechei os olhos no escuro e imaginei que fosse noite, mas já se tornou dia e meu sono não veio.

Ficou com os sonhos.

Meu estômago, que tinha um gancho, se foi, para o relógio da minha mente.

Que corre num ritmo que só ele entende.

Revira o intestino.

Ansiedade é o nome.

Deitei no silêncio que o ventilador me proporciona, de resto é barulho e incomoda.

Fecha os olhos e sonha.

Fecha os olhos e morre.

Um pouco de cada vez, a vida não é longa.

Na minha morte-vida há vida, não se engane.

Estou parada no mesmo lugar com o puxão no estômago.

Minha ânsia.

Meu desespero.

Mil coisas e a cama.

O sonho sem sono.

O sono sem sonhos.

Minha ansiedade, mais uma vez, ganha.

Só mais uma forma de postergar.

Estou aqui sentada, olhando para o computador, com as abas daquele livro para aquela prova super difícil para qual estou estudando bem mais ou menos, mais para menos do que para mais, pensando na vida de forma randômica e tentando me concentrar, sem conseguir. Evidentemente, estou aqui.

Acabei pegando o celular e entrando em uma rede social qualquer, porque o meu foco mesmo é não focar, não devia ser.

Aquela coisa de querer postergar o inevitável é fazer de um problema passar para dois, e eu aqui tentando entender, como fazer? De onde tirar a concentração? A responsabilidade?

O saber que se tem um dever parece não ser o suficiente.

Tempo eu tenho, será que falta dedicação?  De onde extrair todo esse compromisso consigo mesmo?

De todas essas retóricas eu tenho respostas, mas não sei tirar da teoria e praticar.

Arrumar organização do meu tempo para exercício, autocuidado, alimentação, estudos, passatempos e tudo mais que se deve ter. O que fazer com meu tempo de sobra e com meus compromissos para além do tempo? Será que meu problema é ficar em casa 24h?

Alô, algum coach aí? (brincadeira)

Crescer é se olhar no espelho e se re-conhecer.

Eu visto minha covardia de medo e espero que o tempo não passe. Eu deito e durmo para fugir das minhas responsabilidades e espero que o tempo passe. A covardia vestida de medo me dá calafrios: encarar a vida é dolorido.

É como se meus ossos e minha carne estivesse crescendo e repuxando os nervos e pêlos e me fizesse crescer, de criança à adolescente, de adolescente à adulto e eu, perdida no meio desses três fico escondida num canto.

O medo e o receio me fazem acreditar que nada é possível, tudo dará errado e esse é o meu medo, do desconhecido.

Paralisada no mesmo lugar, sem andar, sem olhar, sem sentir ou sonhar. Minha covardia me dá calafrios.

A verdade dói e eu a conheço, mas como sair desse buraco? Essa transição de adolescente para adulto não vem com manual. Todos esperam algo de você, mas você não pode esperar nada de ninguém.

O desejo nos faz um.

Queria conhecer-te a fundo.

Saber o que se passa em teus pensamentos quando olha para o horizonte e mergulha dentro de si.

Conhecer o teu redor, saber o cheiro que cheira, as cores que enxerga, o calor que sente ao ter pele com a pele. O tato.

Queria estar dentro de você.

Ser você.

Queria que fosse eu.

Saber o que penso quando olho o horizonte.

O que sinto quando cheiro os cheiros que cheiro.

Saber o calor, o sabor, o tato, de tudo o que me rodeia.

Queria que fosse eu quando te olho.

O desejo por você e o desejo de você me desejar.

Queria que fôssemos um.

O desejo de saber o que se passa dentro da sua mente.

Imerso em seus pensamentos.

O desejo me fez te desejar.

Naquele momento em que nos tornamos um só.

Eu dentro de você, no teu corpo quente, te sentindo por dentro.

E naquele espaço de tempo, quando você gozou, eu soube,

O desejo de desejar.