Entre a carcaça de ossos

Olhei para a escuridão dos teus olhos e por um momento suspirei. Do céu escuro e sem estrelas, fui sugada d’alma
Perdi a minha essência e o que me fazia cheia
Para completar o que faltava, me perdi
Com o céu vazio e os dias cheios
Com o vento seco e o sol cruel
Conversa com os pássaros que cantam como as batidas do teu coração
Os versos, o tempo, o sopro
Se foi.
O chão cheio de cacos que um dia foram palavras
As bocas cheias de dentes que já não mordem mais
Por um momento pisquei, voltei a mim. A quem sempre fui e teus olhos escuros já não brilhavam mais
Opacos, cegos.
Insuficiente para meu suspiro.
A minha alma, voltou a ser minha.

Diz que sou linda, enquanto não sou.

Espelhos de vidro me encaram e garfalham com escárnio.

Por todos os lados que olho o mesmo sorriso me segue.

São meus, sou eu.

Feita de vidro e frágil.

Trincou. Todos quebraram.

Agora só falta ir embora. Sorrisos tristes me devoram. Espelhos feitos de reflexos.

Do outro lado, o horizonte.

Veja bem, a transparência têm seus benefícios.

Não me encaro mais, agora uma vista linda.

Uma paisagem, um mar de possibilidades.

Hoje voltou a doer

Estou no centro da multidão. E todos ao meu redor.

O sangue escorre de meus olhos e molha minhas roupas.

Eu choro e grito palavras de dor.

Socorro.

Ninguém me olha.

Enquanto todos estão sorrindo, estou aqui morrendo.

Alguém segura minha mão.

Eu olho e procuro.

“Me ajuda” – sussurro.

Mas ele, de costas pra mim, não me olha.

Solte minha mão.

Não solta.

O sangue se transformou em pedra e me solidificou na dor.

Enquanto todos ao meu redor vivem, eu morro em vida.

Sozinha e perdida.

Petrificada.

E ninguém me olha.

O espelho me conta meus segredos.

O teu silêncio chamou ao meu: gritamos. Fazia sentido gritar naquele momento de desamparo e desespero. Um momento fugaz para tudo o que estava acontecendo.
– Eu sinto muito… eu realmente sinto. – As palavras tão carregadas pareciam vazias ditas para o muro.
O muro estaca riscado, descascado e tinha esses desenhos que nunca conseguia entender o que significa.
Olhei novamente para ti, e você chorava.
Lágrimas gordas e salgadas que molhavam a terra e matava a vida que brotou verde e floresceu.

Quanto desespero!

Que dor.

Que tristeza.

-Não.

-Não?

-Não é tristeza, é arrependimento.

O tempo já passou.

O teu silêncio, sussurrou ao meu. Ele disse baixinho:

– O tempo passou.

Ontem eu estava na praia pensando que semana passada eu estaria lá, e essa semana eu estaria cá. Hoje eu penso, que era outro dia, eu ainda era criança.

Os braços dançam contigo.

Eternamente sexualizada em teus braços e posto meus lábios em constante grito de dor.

Para teus olhos insonssos, minhas pernas nuas, meu corpo impróprio para o consumo diário.

Vergonha!

Grite para todos os teus desejos e deixe meus braços vazios e frios.

Incrédulos!

Olhem para eles e digam a verdade: Vós quero! Vós beijo e contigo deito.

As paredes de tua construção dogmática cai destruída pelos gemido que sai de teus lábios secos e feridos.

Um suspiro para cada mentira e agora me falta o ar.

Uma moeda para teus desejos e estou afortunada.

A riqueza que se opõe aos meus princípios.

Grite a dor da alma que não se cala,

Dos olhos insólitos que não são apreciados.

Do calor que produzo no corpo e das palavras que formo.

Seduz, mas seduz com tuas palavras.

Ame, mas ame com liberdade.

Aos outros um corpo solto, à nós, uma carne opressora.

Grite, com gritos doces.

Meu corpo dança, a dança dos loucos.

E agora, estou feliz,

O grito de acordar os mortos, me calou.

Paz!

Minhas fotografias

Juntei minhas fotos, de todos os dias em que vivi.

Montei por ordem cronológica, uma a uma, cada qual no seu tempo.

Quantos fui eu? Quantos sou eu? Quantos serei?

De acordo com todas essas fotos, muitas vidas eu vivi.

Em uma só vida.

Em um só tempo.

E ainda hoje me pergunto:

Quem sou eu?

Um impostor de quem deveria ser.

Há tanto tempo vivendo, perdi o que eu queria viver.

Moribundo

O corpo dele doía por todo lado. Não havia um membro sequer que não estivesse dolorido, o suor escorria pelas costas e a boca seca gemia

– Clamo, ó Morte, me leve!

Mas a Morte não vinha.

Derrotado em sua própria dor, fechou os olhos e chorou.

– Toma esse remédio, senhor. – A moça sussurrou enquanto colocava o copo em seus lábios e segurava delicadamente até ele beber.

– É amargo.

– O amargo cura a dor.

E ele sorriu, porque toda sua vida dolorida, foi amargo e nunca se curou.

Diálogo com Você – Entrevista com L.

– Arrume a blusa dela, por favor. Isso, do lado esquerdo? Oi? Não! Deixe o cabelo como está… Liguem as luzes. Está pronta, senhora L.?

– Sim.

– Vamos começar… (…)

Olá a todos, estamos hoje com a presença da cantora L.,a qual vem fazendo sucesso nos teatros e nos shows aos quais se apresenta ao interpretar a música não apenas com a voz, mas também com as lágrimas que tanto emocionam aos fãs. Seja bem-vinda, L. E hoje começa mais um “Diálogo com Você”.

– Obrigada pelo convite, Teodoro, sempre um prazer escutar ao seu programa, e um prazer maior ainda estar aqui contigo e toda sua audiência.

– Bom, primeiro vamos começar com o seu nome, você nunca deu o seu nome verdadeiro ao público e sempre se apresenta com L. O por que disso?

– Eu já dou muito de mim para o mundo, toda vez que exponho meu rosto, minha voz, meu corpo, eu estou dando algo de mim, e o meu nome é algo que me foi dado e não escolhido, para mim é precioso.

– Interessante, se formos pensar é verdade, começamos a vida já sem escolha, até a nossa identidade nos é atribuída. Bem, seus fãs sempre se emocionam ao escutar sua voz seguida por suas lágrimas, como surgiu essa característica de melancolia em suas músicas e em sua voz?

– Eu sempre dizia que já nasci melancólica, a tristeza me vem fácil e não vai embora, ao cantar é uma forma de me libertar ou me prender e chorar é a emoção que sinto naquele momento, é mais íntimo do que estar nua, do que transar. Eu me exponho de uma forma concreta e abstrata, estou ali aberta, para quem quiser ver. É o meu grito silencioso.

– Isso, nossa, isso… Nunca imaginei essa resposta. E o por que dos gestos com a mão e o corpo?

– Pense assim: Se estou me libertando por um pequeno momento, estou me libertando de corpo e alma.

– L., muito se especula a respeito de sua vida amorosa, como você se declara no momento?

– No civil, sou solteira, mas na vida, sou amada. Há 10 anos, muito amada.

– Essa declaração é inédita, nunca ouvimos você dizer isso, porque nunca vimos você com ninguém.

– Sou reservada, como todos perceberam, mas para ser sincera, ninguém nunca me perguntou diretamente da minha vida amorosa, apenas especulam.

– É verdade que você foi convidada para fazer o filme de Drama chamado “Ode a mim mesma”?

– Sim.

– Bem?

– Não me interessei por vários motivos, o primeiro é que não sou atriz, e acho desrespeitoso eliminar tantas mulheres que estudaram para essa profissão e são muito mais capacitadas do que eu, que nunca estudei e nem pretendo. Segundo, eu já tenho minha profissão e cantar me faz quem sou, mas não me define. Os outros não convém a mim dizer.

– Você sempre foi muito direta, o que te faz ser tão reclusa?

– Como eu já disse, eu me exponho muito, preciso de ter partes minhas que são só minhas.

– Antes de encerrarmos a entrevista, você gostaria de cantar?

– Claro, cantarei minha mais recente música “Pari minha solidão”.

Encerraremos essa entrevista com a cantora L. nos agraciando com sua voz. L., obrigado pela presença, um lamento termos tão pouco tempo de entrevista, foi um prazer poder conversar com você.

– …

(…)

– Ela já se foi?

– Sim.

– Eu escuto ela cantando e sinto partes de mim sangrando.

– Conheço essa sensação.

– É tanta dor. Como ela consegue?

– Ela mente.

– Não mentimos, todos nós?

Pairando em alto mar, cercada de imensidão.

Suspirei. As coisas estão difíceis, eu gostaria de ter o poder de compactar cada uma dessas minhas partes, onde estão desconjuntadas.

Sinto que estou acima da minha cabeça, pairando fora da realidade.

Voando num mar de nada, tudo pressiona.

Tudo flutua e tudo aperta.

Como morder caju antes de amadurecer.

Suspiro, e quando inspiro continua aqui.

Tudo aqui mesmo.

A claridade está sombreada em mim.

E em minha capacidade está uma coleira.

Eu mesma a seguro. Limito.

E só em um piscar, suspiro.

O nascimento.

Senti se contorcendo no meu estômago, e com vários membros subindo através das paredes do meu esôfago.

Todo meu sistema digestivo se contorcendo. Minha boca se abriu.

Um grito, um lamento.

Uma mancha no meu destino.

Dentro de mim se contorcendo.

Se corroendo, me arranhando.

Me puxando.

O corpo jogado ao chão, se debatendo.

O ar se foi, a luz se foi.

Já não há dor.

Me levanto.

Olho para o que saiu, com tanta dor.

O meu lamento.

Uma ideia.